Crítica | O Bom Pastor (1944)

estrelas 3,5

Os anos 1930 e 1940 foram notáveis para a filmografia do diretor Leo McCarey, que recebeu grande atenção do público, dos críticos e da Academia por títulos que dialogavam de forma otimista e apaixonada com os problemas pelos quais seus personagens passavam. Um de seus mais notáveis filmes, ao lado de O Diabo a Quatro (1933), Os Sinos de Santa Maria (1945) e Tarde Demais para Esquecer (1957) foi O Bom Pastor (1944), filme que para alguns é proselitismo católico puro, mas que na verdade faz desse ambiente religioso um ponto de partida para enquadrar-se na dinâmica de boa parte dos filmes realizados em Hollywood durante a Segunda Guerra Mundial, procurando servir como um escape caloroso para a população e tropas para as quais seriam exibidos.

Vencedor de 7 Oscars (tendo sido indicado a 10) e 3 Globos de Ouro, O Bom Pastor acompanha a história dos padres O’Malley (Bing Crosby, extremamente simpático e à vontade no papel) e Fitzgibbon (Barry Fitzgerald em uma interpretação apaixonante, que lhe rendeu um feito inédito na história do Oscar, a indicação na categoria de Ator e Ator Coadjuvante, tendo levado o prêmio pela segunda), que possuem grande diferença de idade e pensam de forma muito diferente sobre como deveriam guiar a capela e orientar a comunidade pelas quais eram responsáveis.

Há em O Bom Pastor um olhar para os personagens que se assemelha muito ao olhar dos filmes de Frank Capra para a condição humana. Ao perceber isto, o espectador deve entender que a intenção final da obra era demonstrar algo positivo, expor uma convivência inicialmente conflituosa que, com o passar do tempo, se transformaria em sincera amizade. O enredo também fala da bondade em um mundo que só tende a ver erros e pecados em tudo e todos. Independente da discussão interna sobre a renovação necessária da igreja — linha do roteiro guiada pelo amigável embate entre os dois padres — e da conduta de um sacerdote, colocando até que tipo de postura seria mais eficiente e cristã para a evangelização, o filme fala de humanidade, compreensão, perdão e fraternidade, temas que contrastavam com o mundo de 1944, ainda em guerra.

Ao longo dessa dócil mensagem de convivência, temos pequenos números musicais que o diretor Leo McCarey procurou ao máximo integrar organicamente à narrativa, infelizmente falhando a maior parte das vezes, mas, mesmo nesses casos, as execuções não são despropositadas ou estragam completamente o bloco em que aparecem. Claro que nos causam estranheza porque não se adequam bem à situação — ou seja, não cabia uma canção ali –, mas de alguma forma ganham um pouco de significado, seja pela letra, seja pela justificativa externa da ligação do padre com a música. Não é ideal e nem funciona perfeitamente todo o tempo, mas não chega a ser nada absurdamente ruim.

O que talvez traga menos elementos positivos para o filme é o desfile de alguns personagens que servem de ponte para a história mas que precisavam de maior contexto para serem aceitáveis. Aí colocamos a fofoqueira da vizinhança e a auxiliar do padre mais velho, por exemplo. Curioso é observar que personagens de menor mote narrativo como a amiga do padre O’Malley ou seu amigo de infância, o padre O’Dowd, que deveriam integrar o passado do jovem religioso, acabam ganhando maior destaque na película, mesmo que tragam bem pouco para a história além de uma participação de contexto básico.

O final do filme, reticente demais, talvez seja a maior reclamação para O Bom Pastor. As resoluções haviam sido apresentadas bem mais cedo e pouco sobrou de conteúdo dramático para a construção das cenas finais, que apesar de bem dirigidas, com acertado uso da trilha sonora e bela fotografia, são diminuídas pelo roteiro. Mesmo assim, não dá para negar o caráter emotivo do encontro e as conquistas obtidas até aquele momento. Como era para ser, a mensagem de otimismo se mantém, apesar da tristeza da despedida. E é entre lágrimas e com uma atmosfera amigável que O Bom Pastor termina, quase com uma mensagem de “não julgue o livro pela capa” e só por este aspecto já entendemos o tipo de impacto que ele causou em sua época e a compressível reação que teve para a Academia no Oscar de 1945.

O Bom Pastor (Going My Way) — EUA, 1944
Direção: Leo McCarey
Roteiro: Frank Butler, Frank Cavett, Leo McCarey
Elenco: Bing Crosby, Barry Fitzgerald, Frank McHugh, James Brown, Gene Lockhart, Jean Heather, Porter Hall, Fortunio Bonanova, Eily Malyon
Duração: 126 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.