Crítica | O Café

estrelas 3

Após estrear no cinema com uma tríade de curtas-metragens formada por This Night, O Vagabundo da Cidade e O Pequeno Caos, R.W. Fassbinder iniciou uma fase da carreira onde não só tornaria sólida sua identidade fílmica como também mostraria de maneira direta a influência dos palcos na forma como concebia o cinema.

Sua primeira experiência na televisão, O Café (1970), foi também a sua experiência mais teatral – mesmo se considerarmos obras como Nora Helmer, Mulheres em Nova York e Teatro em Transe –, e o primeiro filme onde a elaboração do “efeito de distanciamento” (V-effekt / Verfremdungseffekt), de Bertolt Brecht, aparece com força total em sua filmografia.

O Café é a releitura de Fassbinder para a comédia La Bottega del Caffè (1750) do dramaturgo italiano Carlo Goldoni. Do original, o cineasta manteve a estrutura narrativa e boa parte dos diálogos, mas interferiu quando construiu uma visão cínica e crítica sobre a mesquinhez, a ganância, a traição e o relacionamento entre pessoas com títulos ou cargos diferentes em uma sociedade. O diretor ironiza a necessidade de alguns indivíduos mostrar-se melhor que outros apenas por sua ocupação, origem e possessões, mesmo que essas coisas sejam apenas aparências.

De forma quase sutil essas colocações vão aparecendo nos diálogos estranhos e aparentemente desconexos do roteiro. Como a intenção do diretor era chamar atenção para as ações dos personagens e outras implicações externas (basicamente relacionadas à sociedade onde viviam), a aplicação do V-effekt se dá de maneira estética, com um cenário formado apenas por cadeiras, imitando uma cafeteria.

Devido a esse exercício teatral – ainda mais forte porque o filme é realizado pelo grupo do Antiteatro, do qual Fassbinder era líder – a nossa impressão inicial da obra não é nada positiva. O filme tem um início chato e que aparentemente não chegará a lugar algum além da exposição de um teatro filmado com uma notável trilha sonora (composta Peer Raben, aqui, em sua quarta parceria com Fassbinder) e fotografia em forte explosão de branco. Todavia, essa impressão muda à medida que entendemos as relações entre os personagens, a proposta estética da obra e a forma como o diretor liga o teatro e a TV.

Quando falamos em “teatro filmado” geralmente vem à mente as telenovelas ou o significado literal da palavra, algo pouco apreciado por um grande número de espetadores. No caso de O Café, o tipo de “teatro filmado” é completamente diferente. A encenação, o trabalho com a câmera e organização da montagem interna e externa jamais poderiam ser classificadas como unicamente teatrais. Fica bastante clara para o público a relação que Fassbinder faz entre o palco e a pequena tela, utilizando a estrutura física e um conceito teórico de uma arte exibindo-os de maneira dinâmica em outra mídia.

É nesse aspecto da direção que consiste o lado extremamente positivo de O Café, que não é um grande filme de Fassbinder, mas que se torna muito interessante à medida que seu tempo avança e suas intenções se revelam. A obra perde pontos porque sua proposta está longe de uma realidade própria do cinema (mesmo no caso dos filmes realizados para a TV).

O Café tem um valor de destaque para fase do Antiteatro na carreira de Fassbinder e mostra o lado mais cru e teórico de seu trabalho com a encenação direcionada para outro objeto que não o palco. No futuro, ele revisitaria esse mesmo conceito sob outra plataforma de intenções, porém, desta feita, com resultados bem mais interessantes.

O Café (Das Kaffeehaus) – Alemanha Ocidental, 1970
Direção:
Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder (releitura da peça de Carlo Goldoni).
Elenco: Margit Carstensen, Ingrid Caven, Hanna Schygulla, Kurt Raab, Harry Baer, Hans Hirschmüller, Günther Kaufmann, Peter Moland, Peer Raben
Duração: 105 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.