Crítica | O Caldeirão Mágico

O Caldeirão Mágico faz parte da “Era Sombria” da Disney, algo que durou do final da década de 70 até o lançamento de A Pequena Sereia, em 1989. E, por sombria, interpretem das duas maneiras possíveis, ou seja, artística e economicamente. No lado criativo, a pegada mais pesada e triste das animações é evidente desde Bernardo e Bianca, passando por O Cão e a Raposa e desaguando na aventura medieval de Taran correndo atrás do MacGuffin mágico do título, na terra fantástica de Prydain. No lado financeiro, a ausência de grandes sucessos havia colocado a empresa em situação bastante complicada e o investimento em O Caldeirão Mágico, produzido simultaneamente ao filme seguinte, As Peripécias de um Ratinho Detetive, quase foi a proverbial gota d’água para sua falência.

Afinal, a empresa não só desenvolveu tecnologia nova para capturar as versões ainda cruas dos desenhos e colocá-los nas telonas – batizada de APT – como investiu em computação gráfica, tornando O Caldeirão Mágico a primeira animação de longa-metragem que fez uso de CGI, algo que pode ser visto especialmente nas sequências com o próprio caldeirão, mais ao final. Em outras palavras, não houve economia na produção, o que elevou seus custos finais a 44 milhões de dólares, um recorde para a época, com um faturamento na bilheteria que não chegou à metade disso, o que fez com que o filme só fosse lançamento em VHS em 1997. E, como toda produção conturbada (as artes de ninguém menos do que Tim Burton foram jogadas pela janela em fase já razoavelmente adiantada, por exemplo), o próprio estúdio, na figura do então recém-empossado diretor Jeff Katzenberg, passou a interferir no corte final, notadamente depois que testes com o público mostraram que Ted Berman e Richard Rich, além do exército de roteiristas, haviam exagerado na pegada sombria na adaptação da série de romances de Lloyd Alexander (As Crônicas de Prydain). Alterações profundas foram feitas para suavizar o resultado final que, porém, muito provavelmente fizeram a película sofrer.

Fica evidente, revendo O Caldeirão Mágico para a confecção da presente crítica, que a animação parece ter, ao mesmo tempo, muita e pouca coisa acontecendo, faltando equilíbrio e cadência na Jornada do Herói empreendida pelo jovem Taran (Grant Bardsley)  que, desejando ser um cavaleiro, parte para salvar a porquinha oracular Hen Wen das garras do terrível Rei de Chifres (John Hurt) que a quer para usar seus poderes para descobrir o paradeiro do tal objeto do título que lhe daria o poder de criar um exército de mortos-vivos. Ao longo do caminho, a ele se juntam o bichinho fofinho, peludo e covarde Gurgi (John Byner), a esperta Princesa Eilonwy (Susan Sheridan) e o chatíssimo bardo Fflewddur Fflam (Nigel Hawthorne) em uma aventura que é praticamente uma sucessão episódica de encontros com criaturas e objetos tirados das mais diversas e icônicas obras de fantasia: espada mágica, assistente corcunda, ogros, bárbaros, fadas, bruxas e assim por diante. Apesar da grande variedade de personagens e de eventos espremidos em rápidos 80 minutos,  a história é extremamente simples e protocolar, sem que o roteiro apresente sequer um elemento característico desta história específica, com exceção, talvez, da porquinha oráculo.

É visível os recortes feitos ao longo da projeção, com sequências mal desenvolvidas ou que acabam de repente, sem um fechamento lógico. Além disso, o Rei de Chifres, encarado como uma ameaça terrível e super-poderosa, perde muito de seu vigor e de sua importância na narrativa, com seu design macabro e o belo trabalho de voz de Hurt destoando completamente do que o vemos fazendo, ou melhor, não fazendo, já que ele não tem espaço algum para ser mais do que um coadjuvante de luxo. A própria relação de amizade entre a quadra principal é errática e instantânea, com zero de química – além daquela básica e ditada mais por suas respectivas aparências do que por qualquer outro fator – e zero de construção, com outros personagens que entram e saem da trama em um estalar de dedos, particularmente o mago Dallben (Freddie Jones).

Mas O Caldeirão Mágico, mesmo com seus grandes defeitos, está longe de ser a tragédia que sua bilheteria dá a entender que é. Fica evidente a ambição da direção de arte da animação, que não economiza em uma ambientação sombria que exala maldade e perigo, além de emular muito bem o estilo de fantasia medieval que poderia resultar em uma bela obra. Os elementos arquetípicos desse tipo de obra estão todos presentes e todos capturam facilmente a imaginação, com um nível de detalhamento em primeiro e segundo planos que encanta. Não há uma tentativa de dar leveza a personagem ou cenário algum que não sejam Taran e seus amigos, algo que, muito provavelmente, contribuiu para o fracasso da obra nos cinemas, já que a pegada de “conto de fadas” abre espaço para algo substancialmente menos “padrão Disney” do que o esperado e bem mais “tolkeniana”. Os trabalhos originais de vozes estão todos muito bons, a começar pela poderosa narração em off de ninguém menos do que John Huston e com especial destaque para o já citado John Hurt, claro, e John Byner como o simpático Gurgi (só Johns!).

Da mesma forma, a trilha sonora de Elmer Bernstein, que fora indicado ao Oscar em sua categoria por Trocando as Bolas e ganhara destaque também por seu trabalho em Os Caça-Fantasmas, merece destaque por conseguir invocar uma atmosfera sombria, quase apocalíptica mesmo, sublinhando até mesmo mais a pegada original pré-Katzenberg do que a versão picotada que chegou aos cinemas. É uma pena que a mesa de edição tenha também afetado a forma como a música funciona dentro da narrativa, já que ela também sofre pela natureza episódica que o filme acabou adotando.

É injusto demais afirmar, como muitos afirmam, que O Caldeirão Mágico foi o fundo do poço da Disney. Sim, a empresa quase quebrou com o peso dessa produção e seu inevitável fracasso retumbante, mas a obra tem qualidades e merece uma nova chance, especialmente para quem quiser algo mais diferente saindo da Casa do Camundongo. O filme, infelizmente, foi vítima de sua própria ambição e acabou bem aquém do potencial que mostra ter em suas entrelinhas.

O Caldeirão Mágico (The Black Cauldron, EUA – 1985)
Direção: Ted Berman, Richard Rich
Roteiro: David Jonas, Vance Gerry, Ted Berman, Richard Rich, Al Wilson, Roy Morita, Peter Young, Art Stevens, Joe Hale (baseado em uma série de romances de Lloyd Alexander)
Elenco original: Grant Bardsley, Susan Sheridan, Freddie Jones, Nigel Hawthorne, John Hurt, John Huston, Arthur Malet, John Byner, Lindsay Rich, Brandon Call, Gregory Levinson, Eda Reiss Merin, Adele Malis-Morey, Billie Hayes, Phil Fondacaro
Duração: 80 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.