Crítica | O Camponês de Paris, de Louis Aragon

estrelas 4,5

(…) o Surrealismo, filho do frenesi e da sombra. Entrem, entrem, é aqui que começam os reinos do instantâneo.

Quando se lê “surrealismo” geralmente vem à mente seu caráter visual, mais conhecido pelas pinturas de Dali e Magritte ou pelo clássico Um Cão Andaluz, do então estreante diretor Luis Buñuel, em 1928. Como movimento político e artístico, porém, a última das chamadas vanguardas teve em 1924 o seu primeiro manifesto, marco de sua história que teve em homens de letras como André Breton – fundador do movimento – e Philippe Soupault referências modernistas de grande importância. Na literatura, um dos nomes mais destacados é o de Louis Aragon, autor de O Camponês de Paris, capaz de traduzir em palavras o poder imagético do surrealismo.

Por mais que o próprio autor diga “decididamente” não admitir a crítica, e por mais que uma análise tradicional talvez feche os olhos para o caminho percorrido nesta obra, principalmente em sua forma, trazer à luz Aragon é sempre um exercício magnífico de uma reflexão que busca sair dos limites normalmente estabelecidos para si. Perder-se no texto não só acontece diversas vezes, como é recomendável. Já contraditório em seu título, a obra não cansa de trazer uma percepção onírica e inebriante em cada esquina de suas descrições, servindo como contraponto em variadas discussões, gerando o dissenso e, principalmente, vestindo a fugacidade como forma crítica do louvor ao racionalismo humano, tão intenso nos anos 20 e que permanece extremamente forte.

Não quero mais me abster dos erros de meus dedos, dos erros de meus olhos. Sei agora que eles não são armadilhas grosseiras, mas sim curiosos caminhos em direção a um objetivo que nada, além deles, pode me revelar.

Dividido, basicamente, em dois espaços – passagem e jardim – e com mais dois capítulos de caráter mais panfletário – prefácio e o último capítulo, “O sonho do camponês” – O Camponês de Paris, publicado em 1926, é melhor compreendido se tais locações forem olhadas como intersecções de diversos lugares, tudo graças ao peculiar olhar de seu autor que traz à urbanidade camadas e mais camadas que adicionam dimensões imaginárias sem vergonha alguma. Dentro deste surrealismo, o efêmero expande-se e toma seu tempo, projetando sua sombra nas contradições cotidianas lentamente delineadas por Aragon por meio de abundantes aliterações, topônimos e tipografias das mais distintas. Fontes e tamanhos diferentes, além de cardápios, propagandas, anúncios e placas, como que recortados e colados em um livro, dão uma orientação do objetivo pouco convencional desta obra e do movimento surrealista em si.

Para traduzir a rapidez desta Paris, duas estratégias são recorrentemente usadas: a percepção do protagonista, evocada como metáfora para pinçar o conteúdo psicológico da sua jornada diária de forma ácida, como um camponês em Paris, ou um estrangeiro em terras estranhas; e a forma do texto, que traz em seu bojo a idiossincrasia surrealista mais famosa: a escrita automática, uma espécie de fluxo do inconsciente que ignora qualquer tipo de coerção metódica capaz de restringir o seu alcance imaginativo. Para o leitor acostumado com o extremo oposto disto em todo e qualquer gênero literário, a escrita de Aragon pode cansar. Da mesma forma que não é recomendável a ansiedade para ler o presente livro – aliás, para nenhum livro, convenhamos – também não ajuda muito analisar minuciosamente a intenção e o sentido de cada letra. Muito mais do que esclarecer, faz-se necessário deixar ressoar uma frase aqui, outra acolá, sem medo de abordá-las em mais do que apenas um ponto de vista, mesmo se o resultado final for a discordância. No intuito de nos tirar o chão situando sua poesia em meio ao caos, o autor consegue atingir verdadeiras pérolas.

Vendo entrecruzarem-se além do vidro os passos do mistério e da devassidão, o que buscariam no fundo de seu espírito esses sedentários roídos pela idade e pelo ócio do coração?

O hedonismo latente em todo o escrito toma ora formas de extrema poesia, ora cruas descrições que beiram a violência. Mantém-se, porém, o sarcasmo e o cinismo em cada experiência, sejam no bordel, sejam na barbearia. São nos apontamentos sobre tais atividades que o cotidiano tedioso se revela, marcado pela euforia que a crença no acaso começa a trazer, efêmera como as ideias que ventilam na mente do observador, permeadas por niilismo que logo se esvai em pura contemplação e sensação. Estetizando seu cotidiano, Aragon enxerga-se com cada vez mais convicto de sua solidão.

O nada, pontuado de maneira pessimista em uma página, logo se torna um sentimento de inutilidade na outra – ainda assim, um sentimento a ser aproveitado. Neste aprofundamento e louvor ao que nos afeta irracionalmente, o autor também dá pistas da inexistência de uma porta de saída para o desespero que se aproxima. Sobram críticas à Kant, um “mosquito” que “toma os pântanos por terra firme. Aragon não hesita em avisar ao filósofo de Konigsberg: “Portanto, você jamais se enterrará na areia movediça! É que você não conhece a força infinita do irreal. Sua imaginação, meu caro, vale mais do que você imagina.”.

Antecipando a relevância de questões a serem levantadas por seus conterrâneos existencialistas dos anos 50 – do Sísifo à náusea – e trazendo à baila uma série de marteladas implacáveis dos pensamentos mais influentes do século XIX, o autor trata com leveza e satiriza a seriedade constante do mundo em sua volta. Da descrição contínua para, em determinado trecho, uma conversa do homem com suas faculdades, a vontade, a inteligência e a sensibilidade, sobre conhecimento e imaginação. Metalinguagem pura e espetacular que desemboca em um discurso da própria imaginação, como personagem. Emendando ácidas críticas à história, geografia e, principalmente, ao jornalismo, Aragon logo alerta:

Mas se um dia minhas palavras se tornarem sagradas e elas já são, então que me ouçam ao longe, rindo.

No labirinto traçado de forma pouco cuidadosa, há de quase tudo. Por mais, todavia, que o poder literário visto na obra percorra diferentes zonas, a sensação de vertigem e repulsão causada pelo excesso de racionalismo em sua volta torna-se uma constante. Vista como enfermidade, a razão ganha o seu tradicional contraponto sensual que chega ora com extrema euforia, ora com resignação, tendendo mais para o primeiro do que para o segundo. Mas é na simplicidade diária, no cuidado em fazer do pouco, muito, que a vertigem passa. É impossível não lembrar de Nietzsche em trechos como este: “(…) finalmente, numa noite a noite o olhou, a noite que se olha nos jardins como nos espelhos, que se multiplica pela cruz de suas árvores, a noite que reencontra aqui sua lenda e seu semblante de outrora”.

Existe uma semente de revolta forte não só nas entrelinhas. Analisar o texto sobre essa chave pode gerar interpretações em outro sentido que, ao meu ver, tendem a nublar um elemento primordial deste texto em específico, ainda que não do movimento surrealista como um todo. A busca do sonho, a valorização dos sentidos, o ódio ao sistema metódico coercitivo são, sem dúvida, fatores importantes da crítica, contanto que levadas em conta a poesia e a preocupação estética do escritor.

Diríamos que para Deus o mundo não passa da ocasião de alguns rabiscos de naturezas mortas. Há dois ou três pequenos truques que ele não cansa de empregar: o absurdo, a balbúrdia, o banal…não há meios de livrá-lo disso.

É claro que tratar de boa parte do conteúdo de O Camponês de Paris sem analisar o contexto político e o cenário ideológico onde o próprio autor se encaixava é impossível. No entre guerras, a crítica moderna já dava indícios de sua intenção em desqualificar a primazia da razão, da mesma forma que o embate ideológico entre comunistas e capitalistas começava a se desenhar com traços cada vez mais fortes. Aragon, assim como André Breton, tiveram fortes laços com o ideal esquerdista, ainda que a briga partidária tenha sido um dos fatores preponderantes da separação dos dois. Ainda assim, é fácil identificar no texto o direcionamento de alguns pontos do autor, sobretudo ao utilizar a dinâmica de opressor/oprimido, ressaltando-se que, mesmo com tal questão começando a desabrochar, O Camponês de Paris se mantém como uma obra, em sua essência, entusiástica e onírica, sem perder o sentido de sua denúncia existencial que vai além da militância, evidentemente, bruta e incapaz.

Deixando-se tocar pelo acaso e ser atravessado “pelos ventos e pela chuva”, o camponês da Paris de Aragon é uma amálgama retratada por uma incessante transformação que lota um dia intenso de mero passeio pela cidade. Uma amálgama de cores, sensações e louvores descritas por um rodriguianismo pulsante no aparente escopo pequeno em que aborda a existência.

Morte, redonda como meu olho. Eu te esquecia já.

O Camponês de Paris (Le Paysan de Paris – França, 1926)
Autor: Louis Aragon
Editora: Editions Gallimard
Editora no Brasil: Imago
Páginas: 229

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.