Crítica | O Cão e a Raposa

O Cão e a Raposa é talvez um dos filmes mais lembrados dentre os lançamentos do Estúdios Disney nos anos 1980 (excluindo, obviamente, A Pequena Sereia). Provavelmente a associação mais imediata do espectador é a de que o filme se destaca pelo sentimentalismo acentuado e por sua tonalidade triste. Com sua produção trazendo vários marcos da crise que assolava o estúdio em sua “era sombria” — dentre elas o conflito entre a velha e a nova guarda de animadores, desavenças entre os produtores e a partida de Don Bluth, que levou consigo uma boa parcela da equipe após as diferenças criativas atingirem seu ponto mais alto durante o período —, o filme teve seu lançamento adiado e obteve, à época, uma recepção morna da crítica e do público, com um desempenho de bilheteria bastante inferior ao do antecessor Bernardo e Bianca. Que ele ainda sim tenha conseguido se safar do esquecimento de uma forma que seus companheiros oitentistas não o tenham aponta para o fato de que, mesmo sob os efeitos de uma produção conturbada, o núcleo sentimental da narrativa conseguiu ressoar com as audiências.

O filme adapta o romance homônimo de Daniel P. Mannix, lançado originalmente em 1967.  A obra original é uma espécie de Moby Dick rural norte-americano, um conto realista sobre um caçador em busca de vingança contra uma raposa que matou seu cão favorito. Recheado de assassinatos brutais de animais e com temas totalmente fora do escopo infantil, é óbvio o quão inapropriada qualquer adaptação do material seria se tentasse ser minimamente fiel ao material de base. Assim, a versão disneyana acabou optando por um conto totalmente reformulado que gira em torno da amizade inusitada entre uma raposa e um cão de caça, e os conflitos que seu amadurecimento inevitavelmente trariam.

Com isso, o filme traz uma abordagem que se aproxima do caráter contemplativo e intimista visto em A Dama e o VagabunndoAssim como no filme de 1955, temos aqui uma história que gira em torno do amadurecimento de animais antropomorfizados em um ambiente caseiro, em uma narrativa com pouca aventura e sem um antagonista bem definido (mais sobre isso em breve). Ao contrário do que ocorre no antecessor, no entanto, O Cão e a Raposa não consegue se isentar de ressoar temas sociais e mesmo de levantar questões morais no desenvolver de sua trama, de forma que a contemplação e o olhar naturalista sobre a vida animal como alegoria acabam dividindo espaço com um drama essencialmente e explicitamente humano. O meio-termo encontrado entre esses dois polos temáticos, se é verdade que traz momentos dramáticos eficientes, acaba ao mesmo tempo por proporcionar uma narrativa um tanto arrastada e indecisa a respeito da própria tonalidade, com resultados mistos no que tange tanto à realização da história quanto à lição de moral subjacente.

Adotada pela velha Tita após sua mãe ser morta por um caçador, o filhote de raposa Dodó acaba fazendo amizade com Toby, um filhote de cão farejador recém-adquirido pelo vizinnho, o caçador Samuel. A amizade dos dois é brevemente retratada em sequências (cheias de foreshadowing) que exploram o quanto os filhotes com destinos tão opostos desfrutam de uma experiência comum, ainda inocentes a respeito de seus lugares no mundo. Já nesse primeiro ato temos um episódio em que Dodó irrita o cão mais velho Chefe, resultando em Samuel abrindo fogo contra a raposa e ameaçando Tita — mas o folk cartunesco garante que está tudo bem e que o chumbo não atingirá a raposinha da mesma forma que fez com sua mãe (ufa!). Trata-se de um bom exemplo da forma como a direção tenta atenuar a carga dramática da história, porém sem saber muito bem o que oferecer no lugar.

Após um inverno particularmente longo em que Toby viaja com o dono para seu treinamento como cão de caça, o reencontro dos dois acaba resultando em uma tragédia quando, após uma nova perseguição, o cão Chefe acaba caindo de uma ponte após quase ser atropelado por um trem (se essa e a versão para a família, adivinhe o que acontece no livro original). Por sorte, seguindo o exemplo de Fiel em A Dama e o Vagabundo, trata-se de uma “morte temporária” apenas para efeitos dramáticos, rapidamente revertida em uma patinha enfaixada e nada mais. Mas isso não impede Samuel de obrigar Tita a se livrar de Dodó, resultando em uma das cenas mais tristes do cânone das animações Disney. Não satisfeito, o caçador decide levar Toby até a reserva florestal para efetuar sua vingança, colocando amigo contra amigo em uma caçada até a morte. Ah, o entretenimento infantil!

A narrativa é assim rica em temas e situações mais pedregosas do que se esperaria encontrar em uma animação do estúdio. O problema é a forma como elas oscilam no desenrolar das cenas, que enfrentam problemas tanto de pacing quanto de tonalidade. A impressão que se tem é que o essencial do roteiro exigiria ou uma exploração mais detida do elemento dramático — com trilha sonora e enredo condizentes com a opção, o que resultaria provavelmente em um filme ainda mais deprimente —, ou uma estrutura mais tradicional com um conflito central contra uma figura antagonista que emprestasse à história ares mais aventurescos, garantindo assim uma tonalidade mais leve através do próprio enredo. O meio-termo encontrado acaba intercalando cenas dramáticas com sequências cartunescas absolutamente descartáveis e fora de lugar, que acabam parecendo simples preenchimento de tempo para uma fábula central bastante simples e direta em seus temas e mensagens.

A sequência de abertura da animação já indica a mudança de abordagem do filme em relação a outras produções do estúdio, os créditos alongados não sendo mais embalados por nenhuma fanfarra ou orquestramento épico mas sim pelo mais puro silêncio, que acompanha uma bela exploração panorâmica de um cenário natural, utilizando o que parecem ser técnicas mistas de animação e fotografia. O ar sóbrio do filme nesse momento inicial convence e intriga o espectador, e seria uma tonalidade que, se perseguida por toda a película, poderia resultar em uma produção mais coesa. Contudo, logo nos primeiros diálogos, após a morte da mãe de Dodó, a impressão que se tem é a de um trabalho menos polido do que o que se poderia esperar do estúdio.

O elenco de apoio fraco mal sustenta o trio de personagens centrais (Dodó, Toby e Chefe), enquanto que, como exemplifiquei, a direção tenta dar ares festivos a momentos que pediriam por maior seriedade — isso quando não está entrando de cabeça nas sequências longas e injustificadas de perseguição dos pássaros Dico e Bruno contra a lagarta Squeeks. Parte desse efeito provavelmente deve ser atribuída à ausência de qualquer número musical minimamente marcante. Fator-chave na caracterização dos personagens e recurso narrativo essencial a muitas das grandes obras do estúdio, as sequências musicais se fazem presentes aqui de forma muito tímida e sem energia. A maioria delas se resume a lições de fala cantada por parte da Mãe Coruja ou de Tita, e mesmo a cena mais marcante da animação — quando Tita vai até a reserva para abandonar Dodó — recebe um acompanhamento musical aquém do que o momento pediria.

A qualidade da animação em geral segue os padrões que o estúdio vinha adotando na época, refletindo o momento de transição tanto das mentes criativas quanto das tecnologias de animação em um visual menos coeso e detalhista do que o encontrado em suas grandes produções passadas. Chamam a atenção os contornos menos definidos dos personagens, atenuados com as cores do próprio preenchimento e dando uma impressão de maior integração com os fundos, com um resultado que é interessante mas que acaba tendendo a uma profundidade mais “chapada”. Adaptando-se a essa direção de arte, temos enquadramentos mais fechados. A sequência do combate contra o urso ao final do filme traz um excelente resultado desssa nova abordagem e exemplifica bem o potencial da então nova guarda de animadores da Disney.

O desfecho da história consegue trazer um bom impacto dramático, a despeito da tonalidade inconstante e das insuficiências da narrativa. Ao longo do desenvolvimento do enredo, o conflito entre Tita e Samuel é deixado totalmente de lado, o que não deixa de ser estranho uma vez que foram as ações inconsequentes de ambos o que levaram Dodó e Toby até a sua situação final de iminente tragédia. As cenas de Dodó se adaptando à vida selvagem chegam um tanto tarde na sequência de eventos do filme, e com isso acabam soando mais como uma tentativa de emular mais um elemento de Bambi (após a morte da mãe e todo o lance da “Mãe Coruja”) feita às pressas.

O arco de Dodó ao longo da animação acaba sendo próximo de uma tragédia em que o personagem é feito de vítima pela própria falta de noção por não saber o “papel social” que fora estipulado para ele. Com o destaque no desfecho sendo o auto-sacrifício do personagem em nome da amizade por Toby, temos uma demonstração de amor incondicional que pode ser tocante e que orna muito bem com a narrativa geral, mas que acaba reafirmando uma postura geral do filme que é realística o suficiente para não ser nada inspiradora. Trata-se de uma postura conformista e conservadora em relação aos papéis sociais de cada um, na qual Dodó é apresentado como estando inerentemente errado em desejar a vida com Tita e o contato pacífico com Toby.

O problema sendo menos essa opção do roteiro do que a forma como a trama é desenvolvida em si, o fato é que a sequência tenta uma justaposição de um final legitimamente amargo com a fanfarra de um “final feliz Disney” tradicional, resultando em uma mensagem mista. A amizade entre Tita e Samuel retratada em sua aparição final tenta jogar para baixo do tapete as ações claramente antagonistas do caçador e do próprio Toby. Eles estavam tentando assassinar a sangue frio o nosso protagonista há alguns minutos atrás! Mas com o peso narrativo da trama sendo colocado todo na relação de amizade entre a raposa e o cão, isso tudo acaba sendo deixado de lado e o impacto emocional acaba prevalecendo ao menos ali no ponto onde parece importar mais. E funciona!

O Cão e a Raposa não é tão grandioso em termos visuais, trazendo uma animação que não impressiona tanto quanto poderia, e deixa bastante a desejar na frente sonora com dublagens originais pouco notáveis e os números musicais talvez menos inspirados de todo o panteão disneyano até o seu lançamento. Mesmo por entre as limitações técnicas e as insuficiências criativas da produção, o núcleo emocional do filme consegue ser bem realizado e envolve o espectador do início ao fim, garantindo que a experiência seja memorável — nem que seja pela tonalidade inesperadamente deprimente para um clássico animado Disney.

O Cão e a Raposa (The Fox and the Hound) – EUA, 1981
Direção: Ted Berman, Richard Rich, Art Stevens
Roteiro: Daniel P. Mannix, Larry Clemmons, Ted Berman, David Michener, Peter Young, Burny Mattinson, Steve Hullett, Earl Kress, Vance Gerry
Elenco: Mickey Rooney, Kurt Russell, Pearl Bailey, Jack Albertson, Sandy Duncan, Jeanette Nolan, Pat Buttram, John Fiedler, John McIntire, Richard Bakalyan, Paul Wnchell, Keith Coogan, Corey Feldman
Duração: 83 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.