Crítica | O Capelão das Galeras

estrelas 5,0

Vencedor do Oscar honorário de Melhor Filme Estrangeiro antes da categoria ser criada, O Capelão das Galeras nos traz um olhar sobre a vida de Vicente de Paulo, que postumamente seria canonizado pelo Papa Clemente XII em 1737. Acompanhamos, no filme, as lutas do sacerdote em seu incessante trabalho ajudando os pobres em meio a uma sociedade estamental marcada pela Peste Negra, conforme ele próprio se despoja de qualquer título ou riqueza material. Não se trata de um filme religioso e sim de uma obra sobre a caridade e o verdadeiro valor do ser humano.

É curioso, em pleno século XXI como o longa-metragem de Maurice Cloche se sustenta de forma praticamente única. A grande maioria do que assistimos na atualidade, com o cristianismo como um dos principais elementos, são obras que buscam evangelizar ou retratar determinados trechos da Bíblia – vide Deus Não Está Morto e Os Dez Mandamentos. Do outro lado temos a Igreja no centro do palco na horda de filmes sobre exorcismo e afins. Curiosamente pouco vemos sobre os homens e mulheres do clero que lutaram pelo próximo – não que esses sejam uma raridade, simplesmente não aparenta ser o foco atual.

A falta de estudo, de conhecimento – tanto por ignorância quanto falta de interesse – gera, portanto, um preconceito acerca do cristianismo, lembramos de sua história sangrenta: as cruzadas, a Inquisição, os abusos de poder e não de aspectos positivos da longa história da instituição. Todo órgão, especialmente os mais antigos, contam com suas terríveis marcas, julgar uma religião unicamente por seus erros, especialmente os passados, é o mesmo que dizer que todos os alemães são culpados pelo nazismo, por exemplo. E não, não pertenço a qualquer religião e não estou tentando angariar fieis, simplesmente tentando expor o que talvez seja a maior qualidade de O Capelão das Galeras.

Embora Vicente, vivido por Pierre Fresnay, seja motivado pela sua própria personalidade a fazer o que faz, entrando, inclusive, em conflito com membros da Igreja, sua fé o sustenta. Ele é guiado pelo que acredita e o roteiro de Jean Bernard-Luc e Jean Anouilh procuram deixar isso claro ao longo da projeção. Sua perseverança e forte senso de ética o guiam ao longo da obra ao ponto que enxergamos claramente a angústia de ver outro ser humano em agonia. Fresnay retrata o santo de forma magistral com uma constante calma, simbolizando perfeitamente um homem que está em paz consigo mesmo, mas que é constantemente abalado pelo mundo à sua volta. Sua feição retrata com uma naturalidade ímpar o impacto de cada acontecimento e os dilemas morais que se encontra.

A direção de Maurice Cloche procura evidenciar esses momentos com seus constantes close-ups, que contrastam evidentemente com os planos mais abertos, em geral utilizados para ilustrar a desigualdade social da sociedade retratada. Enquanto a nobreza vive em suas mansões com fartura, o pobre sofre com a peste e a fome, criando não só no protagonista, como no espectador uma angústia incessante. Enquanto isso, a trilha sonora precisa de Roger Desormière marca as diferenças internas desse universo ao utilizar melodias clássicas mais vivas para o rico e um tom desolador para o pobre. Chega a ser assustador enxergar como realidades tão distantes estão presentes tão próximas umas das outras, quando parece que estamos assistindo retratações de continentes diferentes.

Com isso, o filme elucida o quão perdidos estaria essa população não fosse a intervenção de São Vicente de Paulo, demonstrando que a Igreja, como qualquer coisa em nosso mundo não é totalmente ruim ou totalmente boa. Vivemos na gigantesca área cinzenta de um mundo não maniqueísta e a vilanização só há de trazer mais ódio para um universo repleto de rancor. É preciso enxergar a pluralidade da realidade na qual vivemos, enxergar porque algo é assim e agir para melhorá-la, não simplesmente culpar o próximo. Vicente não criou uma revolta contra a nobreza, ele ajudou o pobre em seu momento de maior necessidade.

O Capelão das Galeras (Monsieur Vincent – França, 1947)
Direção:
 Maurice Cloche
Roteiro: Jean Bernard-Luc, Jean Anouilh
Elenco: Pierre Fresnay, Aimé Clariond, Jean Debucourt, Lise Delamare, Germaine Dermoz
Duração: 111 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.