Crítica | O Casamento do Homem-Aranha

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estrelas 3,5

O casamento de Peter Parker e Mary Jane Watson foi um evento que extrapolou as páginas dos quadrinhos. Guardadas as devidas proporções ao que a DC buscou fazer com morte do Superman alguns anos depois, a Marvel – na figura de Stan Lee, sempre ele – assumiu seu lado marqueteiro com convicção. Esta crítica cobre da curta construção da história nas edições #290-292 de The Amazing Spider-Man ao grande evento na vigésima primeira edição anual que, mesmo estando longe de ser uma brilhante história, guarda em si belos momentos e um marco na vida do Cabeça de Teia.

Foi em um belo dia de sol que Peter Parker, olhando para sua vida em um raro momento de tranquilidade e percebendo a plenitude que sua jornada havia tomado, resolve cuidar mais de Peter do que da figura do herói mascarado. Chegara a hora de amadurecer e de encarar mais uma responsabilidade – uma mais banal, sutil e sem graça aparente. Ao fim do #290, toma a decisão de pedir MJ em casamento, o que suscita a inevitável pergunta: é uma boa ideia super-heróis casarem?

Antes, vamos aos fatos.

No pequeno arco de três edições escritas, David Michelinie inventa um roteiro clichê para circundar o pedido de Parker à MJ com as inseguranças dos noivos, sem deixar de encher a vida do herói de lembranças doídas e escolhas trágicas – para variar – entre dois bens: atender o pedido desesperado da moça e ir para Pittsburgh ou ficar em Manhattan e deter Alistair Smythe, apenas presente porque o arco pedia um vilão meia-boca? O roteirista também pergunta: ajudar Mary Jane a fazer a coisa errada, mesmo ela considerando certo, seria a coisa certa a se fazer? Cenários repetidos e rapidamente construídos, mas que não deixam de entreter.

Deixando o antagonista de lado, a história do casamento em si é uma extensa reflexão sobre a personalidade dos dois personagens. Pode-se ler as edições do pedido e do casamento em si como grandes resumos do caráter e da fragilidade que contribui para a insegurança tanto de um quanto do outro. Do lado da garota, problemas com a família e a profissão – e o lado festeiro – não ajudam muito. Do lado do Aranha, melancolia, ciúme e medo de machucar os próximos sempre trazem de volta dúvidas e mais dúvidas. As despedidas de solteiro dos dois mostram bem como os opostos se atraem de alguma maneira.

É claro que o final é “feliz para sempre”, literalmente, pelo menos até a Marvel mudar de ideia em 2008. Isso não impediu, felizmente, a equipe criativa de trazer poucas, mas boas inferências sobre Gwen Stacy no processo todo, uma personagem que não poderia ficar de lado em um evento desses. O final pode dar o tom de conto de fadas à história, mas ver Peter refletindo sobre sua vida nada fácil ao segurar o microscópio que ganhara de seus tios, há muito tempo, é um pequeno traço de sabedoria na arquitetura dos motivos que o levaram a pedir MJ em casamento.

Parker e Mary Jane deixaram de correr e se entregaram à chance da felicidade, sabendo de todos os riscos. O casamento flui organicamente, algo nem sempre garantido quando se trata de quadrinhos de super-heróis mascarados. Há tempo até para momentos cômicos, típicos de uma comédia romântica sem muita afetação, como os dois chegando atrasados e se encontrando na calçada em frente à igreja. Outro momento é esta pérola de Paul Ryan, em um pesadelo do herói:

casamentohomemaranha

Se é uma boa ideia colocar uma aliança no dedo de Parker…eu acredito que sim. A desculpa para acabar com o casamento décadas depois – obra de Joe Quesada em uma polêmica história que envolve Mefisto e, adivinhe, outra escolha entre dois bens – até me parece plausível, mas desnecessária. Quesada dizia que o Aranha era um herói feito para jovens e que o casamento representava uma espécie de trava, o que não deixa de ser verdade.

Também não deixa de ser verdade, contudo, que Peter casado e amadurecido não vira, necessariamente, um personagem desinteressante, austero e pleno. A bem da verdade, o período dos dois casados rendeu bons frutos em termos narrativos, além de diferenciar, sutilmente, o próprio Aranha de outros heróis mais desgraçados que ele, que o diga o Matt Murdock do vol.2.

Tal discussão, enfim, não cabe exatamente aqui – por mais que eu não veja com maus olhos qualquer conto em que o capeta apareça apenas para causar uma tragédia na vida de qualquer herói. O ponto é que o casamento foi um sucesso que, como disse, extrapolou as páginas da Marvel. É só ver o largo sorriso do já velhinho Stan Lee no Shea Stadium, em 1987, para notar a veia publicitária da história toda:

O Casamento do Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man #290-292 e Annual #21) — EUA, 1987
Editor-chefe:
Jim Shooter
Roteiro: David Michelinie
Arte: John Romita Jr. (#290/291), Alex Saviuk (#292) Paul Ryan (Annual #21)
Arte-final: Vince Coletta
Cores: Bob Sharen (#290/Annual #21) George Roussos (#291/292/)
Letras: Rick Parker
Editora original: Marvel Comics
Páginas: 85

ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.