Crítica | O Casamento do Meu Melhor Amigo

O Casamento do Meu Melhor Amigo

estrelas 4

No ano de 392, o cristianismo tornou-se uma religião oficializada e mudou o hábito dos europeus e institui o casamento. A união entre homens e mulheres representava o complexo jogo entre política e religião, bem como uma poderosa estratégia de evangelização. Na contemporaneidade, tais questões ainda estão presentes, com casais ajustados de acordo com os interesses de seus familiares, mas muito desta configuração inicial se modificou.

As mulheres são um poderoso agente de mudança dentro deste processo. Donas de carreiras brilhantes, elas circulam lugares que antes apenas os homens tinham acesso, mudaram as suas trajetórias, mesmo que muitas ainda estejam presas aos formatos tradicionais. Julliane, personagem interpretado por Julia Roberts em O Casamento do Meu Melhor Amigo, é um pouco deste pedaço de contemporaneidade, mas como algumas mulheres do passado, também quer um casamento bem sucedido.

O alvo da sua conquista matrimonial é o seu grande amigo Michael (Dermot Mulroney). Há muitos anos eles combinaram que quando chegassem aos 28 anos, casariam se ainda estivessem solteiros. No tal dia do aniversário ela recebe um telefonema com o amigo dando-lhe o anúncio indesejado: além de se casar, ele quer que ela seja a madrinha de sua cerimônia. A noiva, Kimberly (Cameron Diaz) também está curiosa para conhecê-la, o que torna tudo ainda mais tenso para Julianne.

O roteiro, desenvolvido por Ronald Bass, o mesmo de Rain Man, Lado a Lado e Quando Um Homem Ama Uma Mulher vai dar conta de desenvolver as confusões que engendram a narrativa.  Sendo assim, diante das circunstâncias, Julianne aceita o convite, tendo em vista desfazer o romance. O confidente é George Downes (Rupert Everett), um amigo irreverente que vai compartilhar cada momento do projeto de sua amiga. O personagem, responsável por alguns dos melhores momentos do filme, configura-se como um coadjuvante com função dramatúrgica coerente, dando suporte para as ações e conflitos que envolvem Julianne, Michael e os familiares que fazem parte dos preparativos para a cerimônia de casamento.

Para quem não assistiu ainda, uma dica: não se engane com o rosado número musical de abertura. É pura ironia. O final é daqueles de dar um nó na garganta, principalmente para os que já viverem um momento de sentimentos não correspondidos da mesma maneira que os projetados. Ela vinha de uma linha de relacionamentos mal sucedidos e o fracasso com o amigo amplia a sua falta de perspectiva. O desempenho encantador de Julia Roberts torna tudo mais triste ao final, mesmo que ainda haja esperança para seu personagem, afinal, ela é uma jovem e bem sucedida crítica gastronômica que tem tudo para alavancar um bom relacionamento.

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora, O Casamento do Meu Melhor Amigo acerta em cheio nas suas músicas, com destaque para The Way You Look Tonight, de Tony Bennett; If You Wanna Be Happy, de Jimmy Soul/ I´ll Be Okay, de Amanda Marshall; além da regravação de I Say Little Prayer, de Aretha Franklin, na voz da contemporânea Diana King. Há, inclusive, uma versão desta última cantada no restaurante por Rupert Everett, num dos melhores momentos musicais do filme.

O filme completou 20 anos recentemente e na ocasião, o cineasta P.J. Hogan revelou que teve que refilmar o final porque as pessoas odiavam Julianne, não compreendiam as suas motivações e achavam injusta a versão apresentada. Diante dos pedidos, Hogan modificou a estrutura e entregou o final que conhecemos.

Mesmo tendo custado muito para uma comédia romântica, U$38 milhões, o filme rendeu ainda mais, tornando-se um relativo sucesso de crítica de bilheteria. À primeira vista pode parecer mais uma comédia romântica bobinha, mas acredite, o filme consegue ir além das trivialidades.

O Casamento do Meu Melhor Amigo (My Best Friend’s Wedding)- Estados Unidos/1997
Direção: P. J. Hogan
Roteiro: Ronald Bass
Elenco: Julia Roberts, Cameron Diaz, Dermot Mulroney, Philip Bosco, Rachel Griffiths, Rupert Everett
Duração: 102 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.