Crítica | O Caso das Amoras Pretas (Agatha Christie’s Poirot 1X04)

PLANO CRITICO Four and Twenty Blackbirds – Agatha Christie’s Poirot O CASO DAS AMORAS PRETAS PLANO CRITICO

Parte da coletânea A Aventura do Pudim de Natal, o conto O Caso das Amoras Pretas (ou Four and Twenty Blackbirds, no original) não é exatamente uma grande história. O princípio utilizado pela escritora, de pegar uma caraterística importante de Poirot (o fato de ele ser um homem de hábitos padronizados) e tornar isso a matéria de um curioso assassinato, é interessante. Mas o caminho para a resolução do crime não instiga tanto quanto a proposta. E é neste ponto que o leitor fica decepcionado. Apesar de a história ser, no todo, boa, não é daquelas que nos fazem ter os olhos brilhando após a última página.

Diante dessa situação, foi com uma certa relutância que comecei a ver este episódio da série Agatha Christie’s Poirot. Esperava um desenvolvimento um pouco travado, como no conto, e isso não seria nada interessante para um capítulo de 50 minutos de duração. Mas eis que o roteirista Russell Murray conseguiu encontrar o ponto certo para que a trama pudesse avançar e manter o espectador atento. Este é um dos casos onde as mudanças de pontos do original e a adição de alguns eventos depõem a favor da adaptação, que consegue trabalhar com novidades e ainda manter a essência de sua fonte, que é aquilo que esperamos de toda adaptação que se preze.

Como já salientei, embora o conto não tenha um desenvolvimento tão bom, sua premissa é interessantíssima. Aliás, a intriga colocada por Agatha Christie aqui é uma de suas melhores, porque desafia o leitor e espectador com o máximo de pistas óbvias e não óbvias, fazendo com que deixemos escapar o elemento simples e que apostemos na versão mais difícil e impossível, um erro de “detetives inábeis” que não aprenderam a lição ensinada pela Cozinheira de Clapham. O suspense aparece quando Gascoigne, um recluso pintor, é encontrado morto, supostamente tendo caído da escada. Após saber dos hábitos do velho, da mudança repentina desses hábitos e da morte que em nada levantara suspeita dos profissionais que investigaram, Poirot entra em cena, tentando achar falhas em um “caso já resolvido” e irritando o amigo Inspetor Japp. Quando uma outra morte aparece e quando se chega à conclusão de que todo mundo se beneficiaria com a morte do pintor, a coisa começa a ficar mais difícil de se decifrar. Mas não para Poirot.

Ao longo de todo o episódio, temos uma simpática brincadeira acontecendo, algo abraçado com muita graça pelo excelente David Suchet, que realmente parece estar se divertindo muito. O diretor Renny Rye assume um ar menos formal possível, colocando o máximo de comédia situacional dentro do quadro, criando um contraste com a trama macabra que está em andamento, a forma como as pessoas reagem e como Poirot se coloca diante do mistério que tem em mãos. Há uma pequena sequência, em um enterro, que parece destoar consideravelmente dessa dinâmica, mas seu efeito negativo é pontual, não chega a atrapalhar de verdade a história, mesmo que seja algo que a gente vá apontar como tropeço do diretor na avaliação final.

O elenco afiado e a introdução e retirada dos suspeitos tornam esta versão de O Caso das Amoras Pretas uma peculiar investigação de um crime cheio de coincidências, conveniências plenamente aceitáveis e uma camada cômica que funcionou perfeitamente nesse cenário. Uma história de um homem de hábitos investigando a morte de um homem de hábitos. Sem os grilhões que seguram o miolo do conto, o episódio consegue avançar satisfatoriamente e, apesar de seus próprios tropeços, nos entrega uma versão bem mais divertida que a original, e com um final que nos faz ver Poirot de forma ainda mais estupefata.

O Caso das Amoras Pretas (Four and Twenty Blackbirds – Agatha Christie’s Poirot 1X04) — Reino Unido, 29 de janeiro de 1989
Direção: Renny Rye
Roteiro: Russell Murray (baseado na obra de Agatha Christie)
Elenco: David Suchet, Hugh Fraser, Philip Jackson, Pauline Moran, Richard Howard, Tony Aitken, Charles Pemberton, Geoffrey Larder, Denys Hawthorne, Holly De Jong, Clifford Rose, Philip Locke, Hilary Mason, Cheryl Hall, Marjie Lawrence
Duração: 50 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.