Crítica | O Cavaleiro dos Sete Reinos, de George R. R. Martin

estrelas 4

Há spoilers.

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Para os fãs mais fervorosos, contos de expansão do universo de Westeros criados por George R.R. Martin não são novidades. Os primeiros traduzidos oficialmente aqui no Brasil, O Cavaleiro Andante, A Espada Juramentada e o Cavaleiro Misterioso, se juntam na coletânea O Cavaleiro dos Sete Reinos, uma leitura fluida, satisfatória e que dá água na boca de quem já é familiarizado com os nomes de tantas casas.

Noventa anos antes de A Guerra dos Tronos, temos aqui um personagem central que nos guia por um reino unido sob a bandeira Targaryen. Dunk, escudeiro de um cavaleiro que morre logo no início do primeiro conto, inicia sua própria jornada como cavaleiro andante, reticente, inseguro e com notável coragem. É por meio de seus olhos que vemos uma Westeros nova, da mesma forma que Martin mostra diferentes perspectivas psicológicas em cada capítulo das suas Crônicas mais famosas. O primeiro a se juntar ao protagonista é Egg, um mero menino de cabeça raspada encontrado em um bar com seu bêbado irmão que não para de falar de seus sonhos. Para os leitores da série principal, é fácil notar pequenas pitadas de profecias e coincidências. Vivenciar o lendário reinado dos Targaryen – mesmo sendo uma pequena parcela e com incidência maior no terceiro conto – também é um deleite para quem sempre ouviu falar do dragão de três cabeças pelas vozes dos outros. A família vai finalmente além de Daenerys e Viserys, se humaniza e torna a Rebelião de Robert, até certo ponto, algo a ser lamentado, ainda que tanta água importante role até o fatídico duelo no Tridente.

Como uma aventura medieval de alto nível, ainda que despretensiosa, a obra encanta. O mais divertido é ver o honesto e desastrado Dunk tentar se virar nas ordinárias negociatas, no trato com lordes e no seu desejo em se tornar alguém na vida. Ao mesmo tempo que suas dificuldades se tornam o centro das tramas, também somos agraciados com traços de política e descrições de personagens importantes na linhagem Targaryen. Ver um Julgamento dos Sete, cheio de lordes como Lyonel Baratheon, Aerion Targaryen e tantos outros, é empolgante não só pelos nomes, mas principalmente pelas diferentes personalidades que Martin se importa em delinear. Mesmo em casas vassalas, que ditam o tom do segundo conto, é fácil cair na sedutora escrita e se importar com personagens recém aparecidos.

Flashbacks de Dunk já se sustentariam em um conto solo, mas a presença de Egg, aquele que se tornaria Aegon, o Improvável, um dos mais benevolentes reis que o reino teria e futuro avô de Aerys II, o famigerado Rei Louco, causa mais uma mistura improvável e uma relação fantástica. Um garoto maduro, aventureiro, fiel escudeiro, recebe conselhos do duro Dunk, que se tornaria Sor Duncan, o Alto – o epíteto já denuncia a falta de talento ou de título do cavaleiro – um dos maiores cavaleiros da Guarda Real, citado, inclusive, por Jaime Lannister na quarta temporada da HBO, mas também aconselha o claudicante cavaleiro andante, ainda em busca de confiança e de grandes feitos. E conto o futuro de ambos porque realmente creio que saber de tal história traz ainda mais prazer nas preciosas linhas de diálogo que Martin trata com cuidado, da mesma forma que ocorre com Arya e Sandor Clegane, e Jaime e Brienne. Mostrar a fundo tais figuras históricas talvez seja a principal assinatura do autor. Trata-se de um relacionamento sincero, conflituoso por vezes, mas altamente divertido por formar a personalidade de ambos os personagens.

“- (…) Coisas difíceis só se tornam ainda mais difíceis se você as adia.

Egg chutou o chão, o rosto tão caído quanto o grande chapéu de palha.

– Sim, sor. Como queira. ”

No que se refere à qualidade da história, A Espada Juramentada é, certamente, a mais fraca. Ainda assim, flui tranquilamente, do mesmo modo como os outros dois contos que, por envolverem mais a política de Westeros – temos até Lorde Corvo de Sangue, um dos personagens mais fascinantes de toda a mitologia – entretêm mais fácil e são mais chamativas para os paranoicos por teorias e pistas falsas martinianas. Todas, porém, são muito melhor aproveitadas caso se tenha conhecimento básico do universo criado. Se você for um fã, ou se já teve curiosidade de procurar a árvore genealógica de cada família, certamente tirará mais ainda de cada conto, mesmo se tratando de três curtas aventuras.

O padrão Martin segue aqui, com descrições típicas envolvendo dilemas psicológicos, alta variedade de personalidades, escrita simples e cheia de referência à geografia do local e tingimentos, ainda que discretos se comparado às Crônicas, de implicações importantes para a política central advindas de decisões improváveis em núcleos menores. Mesmo tendo uma cara de conto infantil, o autor não subestima o seu público nem se preocupa em esconder as consequências graves que batalhas podem ter. E aqui, novamente, ressalta-se as belas descrições dos duelos individuais que Martin, convenhamos, trata com maior qualidade do que guerras campais.

Em conclusão, O Cavaleiro do Sete Reinos é, para os fãs, um calmante no que se refere ao atraso do sexto livro. Pode servir, também, como porta de entrada para o universo expandido de Westeros, que conta com muitos outros contos ainda não traduzidos, caso este fã seja mais casual e ainda não soubesse de tais existências. Já como porta de entrada, é recomendável a leitura da série principal, mesmo se todas as temporadas da televisão já tiverem sido vistas. A presente obra serve mais como um adorno, uma agradável leitura que mostra o rico universo a ser explorado por décadas e mais décadas. A genialidade de Martin reside, e isso fica evidente aqui, em usar toda a cronologia histórica que criou apenas como contexto para figuras marginais, como bastardos e anões, mostrarem o que é a nobreza em sua essência.

O Cavaleiro dos Sete Reinos (Knight of Seven Kingdoms)
Autor: George R. R. Martin
Editora: Leya
Páginas: 416


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ANTHONIO DELBON . . . Ressentido como Vegeta, não suporto a beleza nos outros. Escondo minhas taras em falsas profundidades e não titubeio em dizer um taxativo não aos convites para experimentar os gostos do mundo. O mundo tem gostos demais, livros demais, críticas demais. Escrevo porque preciso – viver, não sobreviver - e viajo fluidamente sem sair do lugar. Na madrugada, nada melhor do que a guitarra de Page ou a voz de Yorke para lembrar da contingência do pó, ainda que nossa tragicômica vida mereça ser mantida, seja por distração ou por vício, como diria Cioran.