Crítica | O Cavaleiro Solitário

estrelas 2

Como todo bom espectador sabe, há diretores e diretores no que concerne ao universo hollywoodiano. Alguns sabem aproveitar o bom momento de suas carreiras, e carregam este êxito por um bom tempo. Outros acabam se deixando levar pela ambição desvairada, e acabam levando suas carreiras para o fundo do poço. Exemplos não faltam, e dentre eles podemos citar nomes como os de Tim Burton, M. Night Shyamalan, e a julgar pelo resultado do filme em questão, O Cavaleiro Soitário, o diretor Gore Verbinski parece estar indo pelo mesmo caminho.

Obviamente, um único fracasso como o de O Cavaleiro Solitário não é o suficiente para nos fazer desacreditar do potencial do diretor (embora para os produtores de Hollywood, seja), mas é realmente preocupante quando um realizador claramente promissor e talentoso aceita comandar uma produção de objetivos duvidosos, especialmente no que concerne a reciclagem de fórmulas antes utilizadas pelo próprio diretor.

Curioso notar que, apesar de seu fracasso retumbante (tanto de público quanto de crítica), O Cavaleiro Solitário é um filme milimetricamente feito para se tornar um grande sucesso entre o público: temos o megalomaníaco Jerry Bruckheimer como produtor, Gore Verbinski na direção (é ele o responsável pela excelente refilmagem O Chamado e a bem-sucedida franquia Piratas do Caribe), e o astro Johnny Depp como protagonista. Á primeira vista, uma receita infalível. Mas como tudo deu tão errado?

A resposta é estupidamente óbvia: estes três nomes, todos envolvidos na já mencionada franquia Piratas do Caribe, parecem sofrer de um certo desespero em repetir o mesmo êxito dos filmes estrelados pelo pirata (digo, capitão) Jack Sparrow, nem que para isso seja necessário repetir, descaradamente, tudo aquilo que deu certo na franquia, mas que desta vez, pouco fluem num roteiro que parece ter se perdido na imensidão do Velho Oeste. No que concerne a tramas ambientas neste período, o trio se saiu muito melhor no divertido Rango.

Com os mesmos roteiristas da franquia Piratas do Caribe (!), O Cavaleiro Solitário peca justamente ao se deixar levar por sua própria ambição. O orçamento para a realização do filme foi generoso (algo em torno de US$ 250 milhões) e a duração da metragem extrapola os limites, chegando razoavelmente perto dos 180 minutos de projeção. Bruckheimer, Verbinski e Deep se enganam ao acreditarem piamente que conhecem os desejos do grande público, e criam uma aventura que embola nas próprias pernas e se deixa levar pelo “quanto mais, melhor”. Um grande engano.

A começar pela composição de Johnny Deep para o índio Tonto, tudo remete a tentativas já desgastadas de agradar o espectador. Há diversas reviravoltas ao longo da projeção, sequências de ação pra lá de mirabolantes e um bom número de piadinhas soltas ao longo do roteiro, porém tudo inserido de maneira bagunçada e excessiva, e a duração, que até começa razoavelmente divertida, se torna rapidamente maçante, mesmo para os menos exigentes.

O curioso é que os roteiristas Ted Elliott e Terry Rossio parecem ter total consciência da falta de apelo dos personagens e, para tanto, gastam um tempo precioso na apresentação dos mesmos, tentando situá-los em meio a trama, mas apenas impedindo que a narrativa assuma um ritmo mais orgânico. Quando decide engrenar, o filme atira (literalmente) para todos os lados, oscilando entre um filme de ação que homenageia os clássicos faroestes dos anos 30 e uma espécie de paródia que visa utilizar as características de um gênero considerado perdido para gerar humor. As duas tentativas raramente funcionam.

Num conjunto, O Cavaleiro Solitário é um filme deveras problemático, pois pouquíssima coisa funciona de forma orgânica. É de se elogiar o bom trabalho técnico da produção (embora alguns efeitos especiais soem cartunescos demais) e o carisma de Armie Hammer como John Reid, mas no geral, tudo conspira para uma experiência dolorosamente longa e instantaneamente esquecível.

Que Verbinski, Bruckheimer e Depp reencontrem a fórmula ideal para conseguir agradar o público e a crítica da mesma maneira que já fizeram.

O Cavaleiro Solitário (The Lone Ranger, EUA, 2013)
Roteiro: Ted Elliott, Justin Haythe e Terry Rossio
Direção: Gore Verbinski
Elenco: Johnny Depp, Armie Hammer, Helena Bonham Carter, James Bagdale Dale, William Fitchner, Tom Wilkinson, Barry Pepper, James Frain, Ruth Wilson
Duração: 149 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.