Crítica | O Cavalo de Ferro (1924)

estrelas 4

John Ford já tinha sete anos de experiência como diretor quando dirigiu O Cavalo de Ferro, um épico western com dois subgêneros temáticos no enredo, Union Pacific e cavalry and indian story. O filme tem mais de duas horas de duração e é dividido em um momento de apresentação quase romântica dos personagens e uma apresentação dos indígenas como vilões — abordagem com reflexos incômodos semelhantes a O Nascimento de Uma Nação (1915); e outro momento, o melhor do longa, de louvor aos pioneiros colonos, à construção da primeira ferrovia transcontinental e o progresso que ela traria consigo não só para o herói do filme (que realizava um sonho de família) como para o próprio país.

Para um espectador de um outro século, é necessário um olhar historicamente condescendente para com o diretor e para com a obra, que, como já foi dito, tem uma abordagem incômoda e tendência racista, algo que não é um “privilégio” de O Cavalo de Aço e que, em uma análise histórica, poderá ser facilmente vista como um sinal de seu tempo, basta olharmos o tratamento dado aos índios em praticamente todos os westerns em que apareciam, abordagem que foi mudando à medida que a mentalidade social também foi mudando. O próprio John Ford deixou para trás esse tipo de visão ao final dos anos 20, passando então a adotar uma postura neutra em relação aos nativos. Mas este é apenas um lado da moeda.

A obra se inicia com uma conversa entre proprietários estadunidenses, amigos de um homem chamado Abraham Lincoln, que em breve se tornaria presidente do país. O sonho da construção de uma ferrovia transcontinental é expostos logo nos primeiros minutos da obra como uma utopia, um feito hercúleo (lembra-nos Fitzcarraldo), o que evidentemente é um recurso emotivo para a criação do herói do filme e da imagem dos americanos como lutadores destemidos (apesar de sua inspiração real e veracidade de abordagem). O jogo entre esses dois momentos dão o tom do filme, que demora um pouco para emplacar mas que de seu intervalo para frente segura com facilidade o especador.

Todos os recursos e ingredientes míticos do western estão presentes no longa com um toque quase familiar como plano de fundo. Os índios Cheyennes como vilões; os índios Pawnees (lembra-nos Parks and Recreation) como aliados; Buffalo Bill e personagens e locais que nos remetem às famosas vilas do western clássico, com seu dentista suspeito, seu Saloon e brigas entre dois homens ou duas facções, mote dramático que no caso de O Cavalo de Ferro impulsiona tanto os percalços do amor entre o mocinho e a mocinha quanto as dificuldades da construção da ferrovia.

É interessante ver como um western épico de 1924 claramente já apelava para eventos que conquistariam o público. Em dado momento da história, na gloriosa batalha entre os Cheyennes, os colonos e o Pawnees, o ator George O’Brien aparece sem camisa e sem uma real justificativa para isso. Alguns cortes depois e seu parceiro de briga também aparece descamisado, o que realmente me impressionou em ver num filme de início do século XX, dado tom conservador da sociedade da época e o uso desse mesmo tom no cinema, ao menos na maioria esmagadora de suas obras.

A conquista territorial é um motivo cênico extremamente bem utilizado por Ford, que faz belas panorâmicas dos cenários desabitados do extremo leste da Califórnia e sua divisa com o Estado de Nevada, à época, ainda em “colonização”. Nesse ponto, o filme é também um documento histórico e um deleite visual. A travessia dos rebanhos de búfalos, bois e vacas, a chegada do trem, a instalação do telégrafo, a construção da cidade e estabelecimento das relações sociais são pontos mostrados com grande acuidade durante a reprodução, o que, convenhamos, não era algo assim tão absurdo para um cineasta de 1924, haja visto que tais eventos tinham tido lugar a apenas 62 anos dele. Nesse ponto, vale destacar que o filme usa (e isso é dito, inclusive, em um dos intertítulos) as duas locomotivas originais da época da inauguração da ferrovia, o que corrobora a nossa visão do filme também como um documento histórico.

Com um número de falhas pequenos para um filme tão longo, um ótimo elenco e uma direção precisa e escrupulosa de John Ford, O Cavalo de Ferro é um dos primeiros grandes westerns do cinema, um filme de mocinhos e bandidos, de luta clara do mal contra do bem, de avanço da tecnologia contra a selvageria; um produto de uma época onde as coisas não tinham ultrapassado a fronteira do “talvez” e do difuso e nebuloso encadeamento das relações políticas e sociais para além do Mississippi.

O Cavalo de Ferro (The Iron Horse) – EUA, 1924
Direção: John Ford
Roteiro: Charles Kenyon, John Russell, Charles Darnton
Elenco: George O’Brien, Madge Bellamy, Charles Edward Bull, Cyril Chadwick, Will Walling, Francis Powers, J. Farrell MacDonald, Jim Welch, George Waggner
Duração: 133 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.