Crítica | O Cemitério Maldito

estrelas 2,5

Stephen King, fenômeno literário que atravessou gerações entre 1970 e os dias atuais, já teve o melhor e o pior de sua produção levada ao cinema. Há casos bem sucedidos, como O Iluminado, Carrie – A Estranha O Nevoeiro, mas também há equívocos, responsáveis pela possibilidade de se criar uma lista gigantesca de produções que podem ser denominadas como rabiscos dramatúrgicos: filmes exagerados, com roteiro mal desenvolvido e direção desequilibrada. O Cemitério Maldito não chega a ser tão desinteressante quanto os itens desta lista, mas também está muito longe de ser memorável, tais como os três filmes citados anteriormente.

Com uma trama macabra sobre luto e perdas irreparáveis, a narrativa capricha no clima fantasioso e repleto de trevas para nos contar a história de um grupo de pessoas que planejam uma mudança para as suas vidas, mas as coisas vão além do planejado. O enredo não traz grande complexidade: a família Creed se muda para uma casa em Ludlow, no Maine. Entre as primeiras conquistas neste novo local está a amizade do simpático Ju Crandall (Fred Gwynne). Responsável por falar sobre o local, o velho e sábio homem conta os mistérios que envolvem um cemitério localizado nos arredores da residência, construído para que as crianças que tiveram os seus animais de estimação, atropelados na estrada que fica próxima ao local, sepultarem os seus bichos.

Certo dia, o patriarca da família, o Dr. Louis Creed (Dale Midkiff), é avisado que a vida da sua família corre perigo. O responsável pelo recadinho sobrenatural é um paciente que morre em pleno atendimento, o que o deixa abalado e apreensivo. Após a revelação minimamente bizarra, eventos ainda mais estranhos tomarão conta do novo lar, levando os integrantes da família ao caminho tortuoso do macabro e da destruição. Os padrões que configuram o american way of life tornam-se tão líquidos quanto a teoria de Bauman: uma sucessão de acontecimentos mortais vai guiar a família para uma situação insólita, destruindo a morada inicial, plena e abastada.

O roteiro, construído por Stephen King, buscou seguir à risca algumas determinações do escritor que, segundo relatos, estava cansado de ver as suas obras gerarem filmes ruins no cinema. O material literário é o ponto de partida que subsidiou o filme, mas a série de mudanças realizadas teve como proposta atender a transposição de linguagens, algo que toda boa tradução intersemiótica deveria se preocupar. No que tange aos elementos da linguagem cinematográfica, O Cemitério Maldito não faz mais que o trivial: a música de Elliot Goldenthal é pontual e básica, os efeitos visuais e a cenografia “cumprem os requisitos” e a direção de Mary Lambert transforma o roteiro de Stephen King num suspense climático e mediano.

Lançado em 1989, Cemitério Maldito tornou-se um dos clássicos da TV aberta, sendo exibido exaustivamente no Brasil em sessões que prometiam cenas apavorantes, quando, na verdade, o que tinha a oferecer era nada mais que alguns picos de sustos e situações inusitadas. E só. Outro filme que tinha as bases da sua história nos minimacs, os cemitérios indígenas dos nativos americanos, é O Iluminado. A produção conseguiu construir um clima muito mais propenso ao terror, mas aí é pedir demais de Mary Lambert, afinal, Stanley Kubrick é Stanley Kubrick, não é mesmo?

Cemitério Maldito (Pet Sematary) – Estados Unidos, 1989
Direção: Mary Lambert
Roteiro: Stephen King (baseado no romance O Cemitério, de Stephen King)
Elenco: Dale Midkiff, Denise Crosby, Fred Gwynne, Brad Greenquist, Miko Hughes, Blaze Berdahl, Liz Davies, Stephen King, Michael Lombard,  Susan Blommaert, Mara Clark, Kavi Raz
Duração: 103 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.