Crítica | O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu

estrelas 3

Obs: Como esse filme ainda não foi lançado no Brasil, optei por usar o título usado em Portugal, para evitar o uso do título em inglês ou o original sueco.

Baseado em obra literária sueca de Jonas Jonasson lançada em 2009 e que se tornou um bestseller no ano seguinte, essa co-produção entre a Suécia, Rússia, Reino Unido, França e Espanha é uma melancólica comédia sobre o envelhecimento e a solidão. Bem-sucedido mundialmente, ele foi projetado na sessão de gala da Berlinale em 2014, ganhando ainda mais atenção e reconhecimento e chegando a concorrer ao Oscar de Melhor Maquiagem em 2016.

O filme pode ser encarado com uma versão simplificada e de baixo orçamento de Forrest Gump em termos de estrutura macro. Afinal, a história lida com um senhor, às vésperas de comemorar seu centésimo aniversário, que foge do lar de idosos onde mora para ver o mundo possivelmente pela última vez e, no processo, aprendemos sobre sua participação em eventos-chave ao redor do mundo, como a Revolução Espanhola (de ambos os lados) e o Projeto Manhattan. Todos os eventos passados são trabalhados em flashbacks narrados pelo tal idoso, Allan Karlsson, vivido, graças a pesada, mas eficientíssima maquiagem por Robert Gustafsson, ator sueco de 49 anos quando da filmagem. Com isso, diferente da obra de Zemeckis, o roteiro faz uso do narrador não confiável, artifício que permite exageros e improbabilidades, como se estivéssemos assistindo a um conto de fadas moderno.

No presente, a narrativa não é menos absurda, com Allan envolvendo com um assassinato e muito dinheiro achado e variados tipos que, de uma maneira ou de outra, acabam formando um grupo disfuncional quase aleatório que navegam de acordo com o vento. Com isso, as histórias paralelas vão, aos poucos, se tangenciando e se comunicando, quase que uma comentando a outra.

E todo esse quase Teatro do Absurdo tem o lado fabulesco amplificado por uma fotografia que consegue manter tons alegres e artificiais até mesmo quando Allan é enviado para um gulag soviético e faz amizade com o idiotizado “irmão” de Albert Einstein, Herbert (David Shackleton). A proposta, portanto, é divertir o espectador com uma história leve e descompromissada de tom farsesco que, porém, não deixa de ser entremeada com um olhar simpático sobre o processo de envelhecimento e da mensagem que a vida deve ser aproveitada em sua plenitude sempre. Há uma simplificação exagerada na mensagem passada – afinal, Allan é um ser amoral, que luta contra e a favor de Franco com a mesma facilidade que ajuda Oppenheimer a construir a bomba atômica -, mas que estranhamente funciona, convence e diverte, com direito a excelentes tiradas aqui e ali que Gustafsson solta com enorme facilidade e muito confortável debaixo de todo seu látex envelhecedor (por diversas vezes esse idoso lembra o de Jackass Apresenta: Vovô Sem Vergonha cujo trabalho de maquiagem, por sinal, também concorreu ao Oscar em 2014).

Ainda que essa mistura singular de Forrest Gump com Jackass chame atenção, parece faltar ao roteiro material episódico suficiente para justificar a duração da película. Com quase duas horas de duração, O Centenário parece ser longo demais, esticado demais com repetições de acontecimentos que acabam não agregando muito em nenhum das duas narrativas. Não que o vai e volta no tempo não traga bons momentos, mas é inafastável a sensação de que estamos assistindo a uma junção de esquetes que, por mais bem construídos que sejam, não trazem uma impressão de conjunto perfeita. Talvez tenha sido uma escolha deliberada do roteiro, talvez seja um mandamento da obra primígena, mas, no final das contas, o vovô centenário poderia facilmente ser um personagem fixo do próprio programa Jackass ou de um Saturday Night Live da vida. É fascinante por alguns minutos de cada vez, mas não em uma sentada de duas horas.

De toda maneira, é, ainda, uma fita que consegue fazer o espectador refletir um pouco sobre a vida – passada, presente ou futura – e, por isso, O Centenário ganha pontos por tentar sair do óbvio e do lugar-comum. Nada de sentimentalismo barato, apenas a apresentação de fatos embrulhados em uma fábula com lição de moral. Some a isso um Gustafsson à vontade e seu papel, claramente divertindo-se como o senhor do dobro de sua idade que tem que viver e voilà, eis que surge um bom passatempo descompromissado.

O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu (Hundraåringen som klev ut genom fönstret och försvann, Suécia/Rússia/Reino Unido/França/Espanha – 2013)
Direção: Felix Herngren
Roteiro: Felix Herngren, Hans Ingemansson (baseado em romance de Jonas Jonasson)
Elenco: Robert Gustafsson,  Mia Skäringer,  Iwar Wiklander, David Wiberg,  Jens Hultén, David Shackleton, Ralph Carlsson, Georg Nikoloff,  Alan Ford, Simon Säppenen, Sven Lönn
Duração: 114 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.