Crítica | O Cetro de Ottokar

estrelas 4,5

Tintim não é o defensor da ordem estabelecida, mas o defensor da justiça e o protetor das viúvas e dos órfãos. Se ele corre em defesa do rei da Sildávia, não é para salvar o regime monárquico mas para impedir uma injustiça: aos olhos de Tintim, o ‘mal’, aqui, é o roubo do Cetro.

Hergé

Escrito por Hergé entre agosto de 1938 e agosto de 1939, O Cetro de Ottokar é um dos muitos álbuns do autor que trabalham com um contexto histórico. Assim como o Estado derivado da Revolução Russa em Tintim no País dos Sovietes; a guerra sino-japonesa em O Lótus Azul; e a Guerra do Chaco, além de outros eventos ocorridos na América Latina em O Ídolo Roubado, o presente álbum traz um oportuno subtexto político, desta vez, os complicados e preocupantes eventos que levaram o mundo à Segunda Guerra Mundial.

Se observarmos os desenlaces geopolíticos dos anos 1930, veremos uma cadeia de ventos que demonstravam um perigo bem maior que as guerras locais e outros conflitos menores. Do Incidente de Mukden, em 1931 (trabalhado por Hergé como um dos eventos de O Lótus Azul), que lançou a semente do que seria a guerra entre japoneses e chineses; à invasão da Polônia pelos nazistas em 1º de setembro de 1939, podemos colocar como fatos preocupantes, as políticas de anexação e ocupação empreendidas por Adolf Hitler (Bacia do Sarre, Áustria e Sudetos da Checoslováquia), e em menor escala, por Benito Mussolini (Etiópia – na época, Abissínia –, Albânia, e por 8 dias, a Grécia).

Levando em consideração todos esses eventos, percebemos como O Cetro de Ottokar é um espelho de sua época, uma metáfora da Europa em pé de guerra. A história se passa entre dois países fictícios, o Reino da Sildávia (uma monarquia constitucional) e a República da Bordúria (uma ditadura militar). A localização destes países é na Europa Oriental, na região dos Bálcãs.

 

Tintim vai até a Sildávia por uma cadeia de eventos curiosos, mas nada muito dramático ou terrivelmente ameaçador. Diferente dos álbuns anteriores, o perigo que o repórter corre em O Cetro de Ottokar não é assim tão chocante no início da narrativa. Ele é movido pela curiosidade, e mal sabia que teria em mãos um caso essencialmente político: um grupo de bórduros e seus cúmplices pretendiam roubar o Cetro de Ottokar IV (uma espécie de legitimação do poder do rei sildavo) e então dar um golpe de Estado no rei Muskar XII. O líder da conspiração chama-se Musstler (MUSSolini + HiTLER), líder da Guarda de Aço que organiza toda uma rede de aliados e espiões para fazer com que a coisa toda funcionasse.

Essa organização de extrema-direita nomeada por Hergé de Guarda de Aço, realmente existiu, mas com o nome de “Guarda de Ferro”, ou “Legião do Arcanjo Miguel”. O grupo foi uma organização fascista e antissemita da Romênia, em atividade de 1927 até o início da II Guerra Mundial. Mais uma vez é possível identificar a ocorrência de um evento real representado numa  história de Hergé.

Além de todo o cuidado em criar as devidas metáforas políticas e ainda entregar uma história interessante, o autor conseguiu pensar na geografia, história e demais organizações de dois países que ele mesmo inventou, além do idioma sildavo, com o qual brinca, apresentando diálogos, placas e outras escrituras numa peculiar grafia que lembra bastante a do alfabeto cirílico. Existe até um amplo estudo etimológico feito pelo ideolinguista Mark Rosenfelder sobre o idioma criado por Hergé.

O Cetro de Ottokar é, ao lado de O Lótus Azul, uma pérola dentre As Aventuras de Tintim nos anos 1930. É um álbum já maduro do autor, que traz consigo o seu aprimoramento artístico – os desenhos feitos da Sildávia são maravilhosos, além da muito eficiente diagramação – e uma forma muito inteligente de encarar e representar criticamente o mundo em que vivia. Além disso, é possível retirar do álbum elementos de sobra para uma discussão interessante sobre arte e política, ainda mais quando estamos falando de uma história em quadrinhos feita para crianças.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.