Crítica | O Chamado 2

estrelas 3

Depois de abrir as portas para a nova vanguarda do terror, ou seja, as refilmagens de produções orientais, O Chamado deixou no ar um clima de possível continuação. Nós, espectadores, já sabíamos dessa possibilidade desde a estreia do filme. Segundo informações da mídia veiculadas na época, se o primeiro filme fizesse sucesso, todos os atores precisariam voltar para uma continuação. Isso estava no contrato e por isso Naomi Watts retornou para um novo encontro com a macabra Samara Morgan (Daveigh Chase).

O filme começa seis meses após os eventos que colocaram Rachel (Naomi Watts) e o seu filho Aidan (David Dorfman) em perigo. Os dois decidem deixar para trás as lembranças desagradáveis do encontro com Samara Morgan, um espírito maligno que atacava as pessoas através do uso de uma maldita fita VHS. Em Seattle, nova estadia, eles se fixam em Astoria, uma comunidade litorânea. Rachel consegue um emprego como jornalista e se dá conta de que o mal não ficou para trás após uma ocorrência de morte registrada na cidade, envolvendo uma lendária fita que ela conhece muito bem.

Agora, será preciso lutar para salvar a sua vida e a do seu filho, pois por mais inacreditável que seja, Samara decidiu manter a jornalista em sua saga vingativa. Os motivos? Só Ehren Krueger sabe. Roteirista conhecido por desvirtuar a saga Pânico (os dois primeiros roteiros foram de Kevin Williamson) e quase estragar tudo no terceiro episódio, Krueger decide montar um audacioso quebra-cabeça confuso.

Há a esperada montanha-russa de emoções, alguns gritos e Naomi Watts dando dignidade ao fiasco de roteiro. Os estadunidenses importaram o diretor Hideo Nakata na busca de manter a “essência” dos filmes orientais, mas isso não resolve muita coisa. Descobrimos que Samara é filha de Evelyn (Sissy Spacek, a Carrie – A Estranha, lembra?), uma mulher que vive num hospício e tentou, no passado, matar a versão baby da menina má afogada. Seguindo uma linha paródica, parece que desde pequena “todo mundo odeia a Samara”.

O filme tem seus bons momentos: há uma cena de perseguição com cervos eficiente, além de uma boa explicação para a água como elemento condutor da narrativa. A direção de fotografia continua um primor e o trabalho sonoro é bem conduzido. O problema é que ao sentar para assistir ao filme, esperamos algo parecido ou superior ao primeiro episódio, pois a continuação precisa nos surpreender de alguma forma. É aí que percebemos que nada acontece.

Esse panorama já é estabelecido poucos minutos após a abertura do filme, que se propõe a reprisar a cena de abertura do primeiro, com duas pessoas assistindo ao amaldiçoado vídeo. Um rapaz pretende apresentar a fita para uma amiga (ou namorada?), no interesse de se livrar dos problemas agendados para sete dias após o contato com as imagens. O problema é que a garota (Emily VanCamp, a vingativa protagonista da série Revenge, em começo de carreira) vendou os olhos com as duas mãos e não viu nada, o que culmina na morte súbita do rapaz.

Essa garota, assim como os demais coadjuvantes, são quase todos descartáveis. Desperdiçados pelo roteiro, estes personagens servem apenas para a contagem de corpos de Samara, como se ela quisesse imitar um episódio da série Halloween ou Sexta-Feira 13. Não há a luta contra o tempo do filme anterior, nem tampouco os telefonemas sinistros. A fita VHS surge como elemento de ligação entre as produções, mas com nenhuma função narrativa plausível.

Se observarmos atentamente, O Chamado 2 pode ser um filme pedagógico, pois nos leva a refletir, através de uma fábula macabra, a constituição da família padrão como único modo de vida adequado dentro da sociedade. É muito comum, nos filmes de terror, o “mal” se estabelecer em lares que fogem desse padrão. Veja os casos de Carrie – A Estranha, O Exorcista e O Sexto Sentido. Há sempre o pai ausente. É algo para se pensar, já que como filme de terror, a continuação fica nos devendo o que a campanha publicitária nos prometeu: sustos genuínos e tensão do começo ao fim.

Para os amantes das teorias macabras de bastidores de filmes de terror, os acontecimentos durante as filmagens de O Chamado 2 são interessantes: houve uma inundação no estúdio no sétimo dia de produção. Acidente? Uma figurinista foi atacada por cervos enquanto chegava no estacionamento para um dia de trabalho. Maldição? Coincidências ou não, em alguns momentos, a realidade é mais assustadora que o filme, pois a narrativa que deveria nos deixar de cabelos em pé se propõe a repetir os melhores momentos do primeiro filme e acrescentar informações que funcionariam muito mais se continuassem sugeridas.

Desde quando a crítica acentua para os cineastas e produtores que a sugestão é mais interessante que o fato explícito? Alfred Hitchcock já sabia disso muito bem desde os anos 1940 e por isso tornou-se um ícone do cinema. Samara estará para sempre em nosso imaginário, mas apenas pela produção oriental que deu origem ao primeiro episódio da saga na versão estadunidense.

O Chamado 2 tem um clima misterioso, mas se perde nos problemas textuais apontados anteriormente. Em entrevistas, Naomi Watts fala sobre a personagem macabra com certa ironia, o que nos leva a entender que de alguma forma, ela está ali apenas por obrigação contratual, pois os seus relatos não convencem como na intensa atuação para o filme. Coisas de uma boa atriz.

Agora vejamos se o terceiro filme consegue salvar a franquia. O campo do cinema de terror já possui coisas demais para se preocupar, afinal, filmes como A Forca, A Entidade 2 e Annabelle deixaram bem claro que será preciso mais uma volta por cima. Nós, espectadores, estamos esperando.

O Chamado 2 (The Ring Two) — Estados Unidos – 2005
Direção: Hideo Nakata
Roteiro: Ehren Krueger.
Elenco: Naomi Watts, Simon Baker, Elizabeth Perkins, Kelly Stables, Sissy Spacek, Daveigh Chase, Emily VanCamp, James Lesure.
Duração: 107 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.