Crítica | O Chamado (2002)

O Chamado

estrelas 4

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Um aviso aos leitores: não irei fazer nenhum tipo de observação comparativa com a versão japonesa. A crítica presente é uma análise da refilmagem O Chamado, um filme de terror sobrenatural que estreou em 2002 e abriu as portas para a tradução ocidental dos manuais de terror orientais. Mesmo que a transição cultural falhe em alguns aspectos, há alguns elementos que engendram esta nova vanguarda e que precisam ser descortinados.

No filme, Rachel (Naomi Watts) é uma jornalista que decide investigar a estranha morte da sobrinha. Logo de início, ela percebe que o acontecimento está relacionado a outras pessoas que assistiram a um vídeo que faz todas as pessoas que assistiram morrer sete dias depois. Mito urbano ou não, a situação se espalha como um vírus e a personagem precisa achar uma forma de resolver o caso, principalmente depois de um descuido que leva o seu filho Aidan (David Dorfman) a assistir ao material.

O que há de tão misterioso nesse vídeo? Para quem assiste, são alguns segundos de imagens aparentemente desconexas, com tons surrealistas e muito semelhantes ao mundo dos pesadelos. Rachel também precisa assistir ao vídeo para entender o que pesquisa. Como resultado, ela precisa lutar duplamente contra o tempo para salvar não somente o seu filho, mas para se manter ilesa. E nesse processo de investigação é que o filme nos segura, pois é bem dirigido, dinâmico, inteligente e cria alguns quebra-cabeças imagéticos que possuem uma razão de ser, diferente de filmes pretensiosos que nos confundem apenas para dizer “eu sou cult”.

Quando assisti ao filme pela primeira vez na época do lançamento, tornei-me um admirador instantâneo do estilo: fotografia azulada, iluminação sombria, cenários góticos como a cabana na floresta e movimentação e enquadramentos de câmera eficazes e competentes. As 112 incursões sonoras não atrapalham a narrativa, pois seguem o drama dos personagens, ao invés de tentar produzir sustos gratuitos. Hans Zimmer, profissional renomado em Hollywood, assinou o trabalho de som, ao lado do ótimo diretor de fotografia Bojan Bozelli e do montador Craig Wood, todos bem relacionados, como num bom e velho trabalho de equipe. O trabalho de direção de Gore Verbinski não fica devendo nada, sendo um dos motivos do sucesso comercial e crítico deste filme, com direito a algumas referências a Hitchcock.

O famoso Ehren Krueger não estraga o texto com situações absurdas, nos entregando personagens interessantes. Rachel é intensa, mas não é perfeita. É uma mãe relapsa e com uma relação estranha com o pequeno Ainda, um menino silencioso e triste, uma espécie de imagem especular de Samara Morgan (Daveigh Chase), a responsável pela maldição do vídeo. Noah (Martin Hendersen) é o pai distante do garoto, mas à medida que a narrativa avança, o personagem evolui, pois precisa tomar as rédeas da situação e assumir a postura que evita há tempos, ou seja, a paternidade negada de maneira sutil.

Dentre os detalhes interessantes temos a imagem como uma ameaça a ser temida. O clima fantasmagórico é complexo, pois o mal é midiatizado, como numa crítica à televisão. Isso fica aparente quando Rachel visita a fazenda do pai de Samara e numa discussão, ele desabafa a sua opinião sobre os profissionais da mídia: “O que querem os repórteres? Pegam a tragédia de alguém e espalham como doença”. Há uma cena onde Rachel observa o edifício vizinho e todos os apartamentos visíveis estão com os seus televisores ligados, com as pessoas fazendo as mais diversas atividades. Numa era de depressão e solidão, a televisão se tornou o parente caladão e onipresente.

O Chamado não precisa apelar para a violência: essa é uma das suas vantagens. O filme abriu caminho para filmes como A Chave Mestra, Água Negra e O Chamado 2, inevitável continuação ineficaz e inferior a este primeiro episódio. A produção também deu gás na carreira da ótima Naomi Watts, pois o papel havia sido oferecido primeiro as atrizes Nicole Kidman, Julia Roberts e Jodie Foster, mas todas rejeitaram, haja vista que estavam envolvidas em outros projetos. Bom para a atriz australiana que logo começaria a galgar a sua carreira e garantir o seu espaço na disputada indústria cinematográfica.

O Chamado (The Ring) — Estados Unidos, 2002
Direção: Gore Verbinski
Roteiro: Ehren Krueger
Elenco: Naomi Watts, Martin Henderseon, Daveigh, Rachel Bella, Lindsay Frost, Jane Alexander, Brian Cox
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.