Crítica | O Chamado 3

estrelas 1

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Um dos aspectos que torna Ringu um filme tão assustador é a forma como seu terror é construído com uma abordagem mais psicológica, que dispensa sustos a favor de uma atmosfera ameaçadora que permeia toda a projeção. O longa-metragem atinge seu ápice quando Sadako rasteja para fora da televisão, certamente uma das cenas mais icônicas do cinema de terror, que consegue nos dar calafrios até hoje. A versão americana, dirigida por Gore Verbinski, consegue captar bastante do clima do original, fazendo um ótimo trabalho de localização com pequenas mudanças que tornam a obra apenas diferente, não necessariamente pior ou melhor

Desde a época do lançamento, porém, uma dúvida sempre me assolava quando se tratava de O Chamado. Vale lembrar que, já na estreia do filme japonês, o VHS lentamente caía em desuso, sendo gradualmente substituído pelo DVD. O que aconteceria com Samara, então? Uma possível sequência atualizaria a maldição, colocando-a no disco ao invés da fita? Chegamos, portanto, a uma nova era, no qual o streaming acaba com as mídias físicas, um mundo no qual tudo é digital, armazenado na nuvem. É nesse universo que O Chamado 3 se cria, ou melhor, tenta se criar, visto que falha miseravelmente em sua tentativa de atualizar esse conto da fita de vídeo maldita.

Para começar, o filme faz questão de dar mil voltas desnecessárias para chegar no ponto que interessa: Julia (Matilda Lutz) acaba assistindo um vídeo macabro e logo após recebe uma ligação misteriosa de alguém que apenas diz “sete dias”. Dito isso, ela precisa descobrir uma forma de se salvar dessa maldição. O problema é que até chegarmos a esse ponto, passamos por um prólogo desnecessário em um avião, uma sequência perdida em uma videolocadora, uma subtrama ligada a um grupo na faculdade que pesquisa a existência da alma através das fitas de Samara e um romance adolescente que de nada acrescenta. O que mais nos incomoda, contudo, é a digitalização das imagens do VHS.

Vejam, não haveria o menor problema em utilizar a fita nos dias atuais. Seria até interessante uma abordagem explorando a ausência de videocassetes, o que dificultaria a tarefa da protagonista de copiar e mostrar para outra pessoa – a obra ainda ganharia um toque nostálgico e vintage. O que recebemos, contudo, são vídeos que podem ser copiados na base do ctrl+c, ctrl+v, o que quebra todo o charme do original, além de soar como uma saída exageradamente fácil, visto que você pode simplesmente enviar por email o dito cujo. Se fossem abraçar o lado digital totalmente poderiam, ao menos, ter colocado o maldito como recentemente adicionado na Netflix (o que seria, no mínimo, ousado, convenhamos).

Quando passamos desses minutos iniciais de tortura, que desperdiçam toda e qualquer possibilidade de fazer algo diferente do que já vimos anteriormente na franquia, o longa começa a melhorar, entrando no território do suspense, que consegue nos envolver por um breve momento – isso até começar a apresentar outros tipos de problema. Como disse no parágrafo de abertura, o que faz de RinguO Chamado dois clássicos modernos do cinema de terror é a maneira como eles constroem uma atmosfera de tensão. Isso, contudo, não retorna em O Chamado 3, que opta pela saída fácil de inserir pequenos sustos sempre que possível e falhando magistralmente na maior parte dessas tentativas. O filme se torna mais um exemplar genérico do gênero, que pode, sim, divertir quem não espera grande coisa, mas que nos traz muita tristeza se compararmos ao que veio antes.

Tudo consegue piorar no ato final, que repete parte da fórmula de O Homem nas Trevas (ainda que talvez não tenha sido uma cópia descarada, visto que a fotografia principal da obra fora concluída em 2015) e insere uma Samara salvadora da pátria, logo após criar contradições com os filmes anteriores e insistir que a menina precisava sofrer desde que nasceu (porque só viver em um celeiro não bastava). Os segundos finais ainda abraçam parte da trama de Rasen, primeira continuação do longa-metragem japonês, porém o faz de forma tão exageradamente didática, jogando em nossa cara centenas de vezes o que está acontecendo, que chegamos a implorar para que a cena acabe – ao mesmo tempo temos o ápice da digitalização de Samara, que funciona como a tampa sendo colocada sobre o poço no qual caíra a franquia.

O Chamado 3, portanto, não acaba sendo apenas mais um filme ruim e sim uma obra que desrespeita todo o material que o precedeu, jogando fora toda a oportunidade de atualizar o terror de Samara para os dias de hoje. A atmosfera opressora que marcara os filmes originais da série não retorna aqui e o que recebemos é algo dispensável, que certamente provocará algumas risadas no espectador e nesse quesito, chega até ser possível se divertir com a obra. Agora, se você espera se arrepiar como quando Sadako rastejou para fora da tela pela primeira vez, é melhor desistir e optar pelo filme original que, ironicamente, está na Netflix.

O Chamado 3 (Rings) — EUA, 2017
Direção:
 F. Javier Gutiérrez
Roteiro: David Loucka, Jacob Estes, Akiva Goldsman
Elenco: Matilda Lutz, Alex Roe, Johnny Galecki, Vincent D’Onofrio, Aimee Teegarden, Bonnie Morgan, Chuck David Willis
Duração: 102 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.