Crítica | O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu

estrelas 3

Cinéfilo é uma categoria de pessoa apaixonada, principalmente quando se torna parte do Universo da arte que tanto admira, seja como realizador, técnico, escritor ou, em um campo periférico, como professor ou crítico. Produzir, estudar ou escrever sobre cinema é uma forma de manter acesa a paixão, dedicando-se a ela como se deve dedicar a uma arte, ajudando-a a acrescer, ser divulgada, evoluir.

Como cinéfilo e também diretor, João Botelho faz em O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (2016) uma carta de amor em movimento, uma declaração ao seu mestre e amigo Manoel de Oliveira, grande diretor português (que colecionou detratores de sua filmografia em todas as fases da carreira), falecido em 2 de abril de 2015, aos 106 anos.

O filme possui duas camadas narrativas. A primeira bastante preguiçosa, a despeito do ótimo material coletado. A segunda, muito boa, quando Botelho filma um curta (ou média?) chamado A Rapariga das Luvas, baseado em uma ideia de roteiro (Prostituição ou A Mulher Que Passa) não filmada por Oliveira e contada como “segredo” em uma entrevista.

O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu incomoda em seu primeiro ato porque traz pouca novidade. Apenas a exibição de cenas de filmes de outra pessoa não faz um bom documentário – vide a desgraça cinematográfica que é um longa totalmente entregue a este tipo de coisa, o também português Como Me Apaixonei por Eva Ras –. Tampouco é um sinal de criação artística do diretor; é apenas um engenho de montagem. Às vezes, nem isso.

Existe, porém, um pouco da boa presença de Botelho aqui, na colocação de detalhes cinematográficos recorrentes em Oliveira, de algumas dificuldades de produção que ele enfrentou, especialmente em Amor de Perdição (1979), e seu olhar único para o mundo, as coisas novas que queria mostrar para o público. Mas tudo isso é rapidamente diluído na reprodução às vezes inconsequente de cenas de Os Canibais (1988), ‘Non’ Ou a Vã Glória de Mandar (1990), Vale Abraão (1993) Palavra e Utopia (2000), O Quinto Império (2004) e O Gebo e a Sombra (2012), cenas que às vezes são colocadas ali para nos fincar um detalhe imagético que seria revisitado em A Rapariga das Luvas logo adiante.

Nos momentos em que há um verdadeiro contexto para o que vemos, aprendemos sobre a inovadora estrutura dos planos do mestre português, suas temáticas antecipadoras ou revisoras, como o construtivismo já em seu primeiro filme, Douro, Faina Fluvial (1931), um documentário em curta-metragem sobre os trabalhadores à margem do rio Douro, na cidade do Porto; o realismo (social ou poético?) em Aniki Bobó (1942); as pinceladas clássicas em Amor de Perdição e o flerte metafísico com Méliès em O Estranho Caso de Angélica (2010).

Para um diretor com uma vida tão longa como Manoel de Oliveira, mesmo tendo passado 14 anos sem filmar (entre Aniki Bobó, de 1942 e O Artista e a Cidade, de 1956) havia muito mais coisas para se levar em consideração em um documentário destinado a falar da forma e sentido de sua filmografia, pelo que entendemos o trabalho de Botelho como fraco, ao trazer bem pouco à tona. A sorte do espectador é que existe um segundo ato. E este sim mostra aquilo do que o diretor é capaz de criar.

Depois de começada a projeção de A Rapariga das Luvas, notamos que o princípio do documentário serviu de base estética e narrativa para esta parte, criando um hibridismo inicialmente difícil de aceitar, porque, afinal, são dois filmes de diferentes gêneros dentro de um só.

Mas se aceitarmos a proposta, a segunda parte flui bem e serve sim como uma homenagem digna e bela ao cinema de Manoel de Oliveira. A direção de Botelho não faz mímica do mestre, apenas usa sutilezas percebidas nos longas anteriormente comentados (o dedo dentro da rosa, o travelling pelas árvores, closes em partes do corpo como narração do estado de espírito da pessoa, enquadramentos escrupulosos e teatrais) e faz deles um caminho para conseguir sua própria obra, flertando com a de seu amigo e inspiração.

O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu é um filme dual. Ele poderia ser muito melhor se fosse um documentário em homenagem ao diretor – não há dúvidas de que havia muito mais histórias para contar sobre Manoel de Oliveira e de bque João Botelho sabia muitas delas –, ou um conjunto de curtas, com adaptações de coisas que Oliveira quis, mas não pode filmar, tendo inclusive preparado a produção, a exemplo da adaptação do conto A Igreja do Diabo (Machado de Assis), com Fernanda Montenegro e Lima Duarte no elenco. O exercício cinematográfico proposto por Botelho é interessante e não passa despercebido, mas poderia muito bem ter ido por um outro caminho.

O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (Portugal, 2016)
Direção:
João Botelho
Roteiro: João Botelho
Com: João Botelho, Mariana Dias, António Durães, Ângela Marques,  Maria João Pinho, Miguel Nunes
Duração: 80 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.