Crítica | O Círculo (2017)

estrelas 2,5

“Isso é tão Black Mirror certamente se tornou uma expressão bastante popular (e incrivelmente difícil de ser banalizada) após o seriado de Charlie Brooker catapultar as críticas e análises sociais sobre a evolução da tecnologia contemporânea a um nível capaz de atingir o grande público e nos fazer identificar e refletir os reais limites e quebras de barreiras para onde a ascensão tecnológica nos leva. Facebook, Instagram, Twitter, iPhones smartphones, tablets, chips enxertados, câmeras que nos acompanham e transformam nossa vida num reality show… tudo se tornou alvo para que os episódios da série experimentassem até onde o ser humano é capaz de ir com o poder da tecnologia em suas mãos, conceito esse que muito recentemente foi utilizado de forma inovadora e inteligente por Olivier Assayas em seu Personal Shopper.

O Círculo adentra nesta realidade tecnológica, já popular entre o público maduro devido a extrema proximidade com o que já existe em nossa atualidade (e mesmo quando nos deparamos com algo que ainda não foi inventado, é impossível evitar pensar “mas não estamos tão distantes disso”), com um pé nas ambientações distópicas que fizeram o nome de sagas como Jogos Vorazes e a malfadada Divergente (e nisso, nem a presença de Emma Watson é à toa). Baseado no livro de Dave Eggers e também roteirizado pelo mesmo ao lado do diretor James Ponsoldt (dos encantadores O Maravilhoso Agora e O Fim da Turnê), O Círculo se ambiciona a namorar sem grandes barreiras com o que a tecnoligia já nos oferece, partindo desta veracidade global para ficcionalizar uma ambientação onde Mae (Watson) consegue uma vaga para trabalhar no Círculo, uma mega empresa que lida com tudo o que há na interação virtual de hoje, seja redes sociais, compartilhamentos, buscas, jogos e por aí vai, numa alusão bastante clara à interação com o Google e o Facebook. Bailey (Tom Hanks, numa espécie de encontro entre Steve Jobs e Mark Zuckerberg) é o presidente dessa mega companhia, o qual Mae, aos poucos, começa a enxergar como um homem que pouco respeita as leis morais sobre ética e privacidade em relação aos internautas que estão conectados aos serviços do Círculo.

Os problemas de O Círculo já partem desta obrigação da sinopse em apontar a posição de Mae, protagonista e personagem pela qual acompanharemos o desenrolar de tudo, como uma questionadora das decisões tomadas pelo Círculo, quando o que realmente temos é uma personagem extremamente passiva, inócua como alguém que está experimentando uma realidade de novas leis e regras, onde o trabalho constante e a necessidade de interação e compartilhamento virtual são basicamente obrigatórias. Suas reações iniciais encontram pouca compatibilidade com o andar da carruagem que a narrativa nos proporciona, e devido a esse mau desenvolvimento da situação, o roteiro não convence dramaticamente quando Mae finalmente decide tomar atitudes em relação as ações do Círculo. São contradições que já quebram boa parte da lógica interna da trama. Mae sai da imparcialidade para ser vítima da apatia, algo fatal para uma protagonista.

E nem só dessa precariedade de desenvolvimento vive a personagem da Watson. Ty, personagem de John Boyega (de Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força), apresentado como o mentor de uma das mais inovadoras ideias do Círculo, surge em cena como mero artifício para verbalizar os mistérios e detalhes que Mae, em sua letargia, não é capaz de alcançar, em mais uma problemática na ambientação da obra, sempre seguindo caminhos didáticos e mastigados para o público, diluindo aí a força dos questionamentos que os temas, já fortes e contundentes por si só, abordam. Toda a proposta discursiva e reflexiva de O Círculo está lá (ainda bem pontuada em pequenos momentos), mas sufocada por uma direção que insiste em massificar o que há na tela. Nisso, fica até difícil comentar sobre Tom Hanks, cujo rosto e presença parecem estar ali somente para abrilhantar um personagem unidimensional e que pouco contribui para as reações necessárias ao filme (e a tentativa usar o personagem como apoio para uma catarse final é vergonhosa).

Mas é fato que, visto e analisado como um produto de grande temática feito para se comunicar com “a massa”, que é uma outra forma de apontar a superficialidade do material, O Círculo ainda se firma como um entretenimento funcional (há uma longa sequência curiosa a perseguição e captura de indivíduos criminosos), apesar de todas as suas concessões. O elenco está esforçado (Watson tem jeito para a coisa), as temáticas abordadas são contundentes o suficiente para que o espectador saia refletindo sobre algo, apesar da probabilidade disso ser esquecido logo depois pela mão frouxa do filme em relação ao que fala. As ideias estão ali, mas não a boa vontade para desenvolvê-las apropriadamente, e se for para comparar com a já cultuada e corajosa Black Mirror, pensemos no abismo de qualidade entre os dois produtos, e veremos que O Círculo não é tão Black Mirror assim.

O Círculo (The Circle) — EUA/ Emirados Árabes, 2017
Direção:
 James Ponsoldt
Roteiro: James Ponsoldt, Dave Eggers (baseado em seu livro)
Elenco: Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Ellar Coltrane, Glenne Headly, Bill Paxton, Karen Gillan,  Beck, Nate Corddry, Mamoudou Athie
Duração: 110 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.