Crítica | O Círculo de Júpiter

Enquanto O Legado de Júpiter caminhava a passo de cágado, Mark Millar ofereceu aos seus leitores uma alternativa neste mesmo universo super-heroístico que criara tão bem juntamente com Frank Quitely. Ele voltou ao passado sem Quitely, que foi substituído por Wilfredo Torres e diversos outros artistas e, ao longo de 2015 até maio de 2016, lançou 12 edições de O Círculo de Júpiter (tradução literal não oficial de Jupiter’s Circle, pois não foi publicado no Brasil ainda) contando a história dos personagens que vemos mais velhos em sua primeira minissérie.

Ainda que fosse desnecessário conhecer detalhes sobre os atos super-heroísticos de Utópico, Lady Liberdade e outros, a grande verdade é que a curiosidade era grande. Considerando o quão bem Millar havia capturado o espírito da Era de Ouro dos quadrinhos com esses seus super-heróis, vê-los então no auge de sua forma foi uma escolha acertada, ainda que a forma como o autor decidiu executar a história não tenha sido exatamente perfeita.

Estruturalmente, apesar dos dois volumes em tese cobrirem apenas uma grande história, a grande verdade é que não é bem isso que acontece, pois Millar conta histórias picotadas em pequenos episódios. Nos dois primeiros números, o autor aborda principalmente a história de Richard Conrad, o Blue Bolt, no final da década de 50. Ele é um homossexual que nunca revelou ao mundo, mesmo a seus amigos, quem ele verdadeiramente é, mantendo sua aparência exterior de heterossexual. Quando ele é chantageado por J. Edgar Hoover, o mítico diretor do FBI, que quer saber as identidades secretas de seus colegas, seu dilema começa.

Ainda que a história em si e seus desdobramentos sejam divertidos, a caracterização de Conrad pareceu-me rasa demais, dando a impressão que o homossexual, para ser homossexual, precisa ter sexualidade exacerbada, praticamente uma máquina de fazer sexo com a maior quantidade possível de parceiros diferentes, no menor tempo possível. Essa visão artificial afasta um pouco o leitor da história, impedindo sua identificação com o interessante personagem.

Nos dois números seguintes, já no começo da década de 60, é a vez de Fitz, o super-herói The Flare, que é adúltero, começando um caso com uma garota de 19 anos que é fã de super-heróis, tendo até uma fantasia própria, apesar de não ter nenhum poder. Sua vida com esposa e dois filhos, então, é deixada de lado e a narrativa lida justamente com a forma como ele e seus colegas de profissão lidam com a questão. O retrato estereotipado do adúltero – assim como do homossexual na história anterior – e também da esposa submissa incomoda bastante e, aqui, os desdobramentos da história são menos interessantes que a de Blue Bolt, ainda que os trágicos eventos mais ao final deem outro sabor à história, mas talvez tarde demais.

Nos dois números finais do primeiro volume, o foco é em George Hutchence, o Skyfox. Ele é o personagem que, em O Legado de Júpiter, é apresentado como um super-herói que havia se tornado super-vilão em razão de sua amada ter sido roubada por Walter Sampson, irmão do Utópico, que, segundo ele, teria usado seus poderes psíquicos para alcançar esse fim. É aqui que Millar finalmente acerta o tom e passa a narrar uma instigante e relevante história para esse seu universo, revelando detalhes da queda de Skyfox.

É interessante notar que Millar também percebeu isso e continua essa narrativa ao longo de quase todo o segundo volume, que perde a característica episódica e ganha maior fluidez, mesmo considerando a passagem de tempo maior. Como pano de fundo, há uma narração de Jane, primeira esposa do Utópico, sobre a vida perfeita que seu marido lhe oferece, com café da manhã sempre pronto quando ela acorda, jantares em lugares exóticos como uma das luas de Júpiter, além de uma casa sempre 100% arrumada. A paralelização dessa história com o lado anarquista de um George Hutchcence desiludido e completamente mudado empresta uma grande vitalidade ao trabalho de Millar, que entrega um belo volume 2 que inclusive introduz o conceito do equivalente de Lex Luthor neste universo, o super-vilão Dr. Jack Hobbs.

Mesmo com altos e baixos, O Círculo de Júpiter é perfeitamente integrado ao que vemos em O Legado de Júpiter, funcionando como um ótimo complemento ao que reputo ser a história principal. Mark Millar, quando quer, sabe construir universos e desenvolver personagens. Pena que isso não é uma constante.

No quesito arte, a ausência de Frank Quitely é sentida. Wilfredo Torres tem traços bonitos, mas muito mais simples do que Quitely e, mesmo assim, não é ele o responsável pelo lápis dos dois volumes, com diversos outros artistas também sendo trazidos para o time, por vezes mais de um para uma única edição. O resultado final não é caótico como pode parecer, mas a gangorra estilística atrapalha um pouco o ritmo da história, ainda que entenda a necessidade de assim ser para evitar a repetição dos atrasos absurdos que marcaram a publicação de O Legado de Júpiter.

Com mais uma boa minissérie em seu “universo Júpiter“, parte do sempre crescente Millarworld, Mark Millar prova que não vive apenas de explosões e pancadaria e que seu lado extremamente criativo pode ter resultados surpreendentes. O Círculo de Júpiter é, definitivamente, um desses resultados.

O Círculo de Júpiter (Jupiter’s Circle, EUA – 2015 a 2016)
Contendo: Jupiter’s Circle – vol. 1 #1 a 6 e Jupiter’s Circle – vol. 2 #1 a 6
Roteiro: Mark Millar
Arte do vol. 1: Wilfredo Torres (#1 a #3 e #6), Davide Gianfelice (#3 a #5), Francesco Mortarino (#3)
Arte do vol. 2: Wilfredo Torre (#1, #2 e #6), Davide Gianfelice (#2), Rick Burchett (#2), Chris Sprouse (#3 a #5), Ty Templeton (#5)
Arte-final do vol. 1: Davide Gianfelice (#4 e #5), Francesco Mortarino (#4 e #5)
Arte-final do vol. 2: Karl Story (#3), Walden Young (#3 a #5)
Cores: Ive Svorcina (todos os números dos dois volumes), Miroslav Mrva (vol. 2, #6)
Letras:
 Peter Doherty (todos os números dos dois volumes)
Editora original: Image Comics
Datas originais de publicação: abril a setembro de 2015 (vol. 1); novembro de 2015 a maio de 2016 (vol. 2)
Editora no Brasil: ainda não publicado
Páginas: 146 (encadernado americano – vol. 1), 152 (encadernado americano – vol. 2)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.