Crítica | O Ciúme (2013)

estrelas 3,5

Autor de um cinema assumidamente autobiográfico, Philippe Garrel realiza em O Ciúme (2013) um exercício tipicamente freudiano, rememorando um episódio de sua infância (o fato do pai ter partido para viver com outra mulher) e escalando o próprio filho para incorporar esse homem que deixa a primeira família para começar uma segunda. Adicionando conflitos de grande impacto para os protagonistas e um destino solitário para todos os personagens, o roteiro de O Ciúme nos entrega um mix de amor e ódio, de mágoa e compartilhamento, de convivência e separações por opção ou pela morte.

O ótimo Louis Garrel interpreta Louis, o jovem pai que abre e fecha o ciclo de novos começos numa ciranda de relacionamentos. Ele deixa a primeira esposa que lamenta a separação tanto quanto ele lamentaria, no futuro, quando igualmente abandonado pela pessoa com quem escolheu ficar.

Os únicos relacionamentos duradouros na vida do protagonista, sua filha e sua irmã, assumem o papel de identidade emocional/comportamental para ele, que mesmo não as entendendo – é dito lá pelo meio do filme que ele compreendente melhor os personagens que interpreta no teatro do que as pessoas à sua volta – procura mantê-las por perto, demostrando um amor que não consegue demonstrar para a outra mulher de sua vida.

Há uma complexa relação edípica e levemente tabu no desenvolvimento desses personagens, onde o ciúme melhor se destaca nas relações familiares do que nas amorosas, simplesmente porque é recíproco no primeiro caso e solitário no segundo. À medida que o roteiro avança, o sentimento-título cresce na vida de Louis, que passa de alguém bastante seguro da “posse” do amor, do corpo e da companhia de sua amada para a frustração e impotência vindas com a perda, inicialmente para a independência da mulher – o texto deixa isso bem claro quando o vemos levemente insatisfeito, embora tente disfarçar, quando a companheira diz ter arrumado um emprego – e depois para um outro homem.

A direção de Philippe Garrel segue o caminho comum da maioria de seus filmes, dividindo a obra em “capítulos” ou “atos” – e isto se torna muito eficiente do ponto de vista narrativo, uma vez que estamos falando de atores interpretando atores –, dando grande atenção para os comportamentos (percebam como ele nos mostra takes de mãos, olhos e outras partes do corpo, especialmente de Louis Garrel) e forjando uma sequência temporal com extrema naturalidade, ajudado pela excelente montagem de Yann Dedet, de modo que aceitamos bem a mudança no comportamento dos personagens e as reviravoltas que acontecem em suas vidas. Tudo nos parece organicamente relacionado, nenhuma ação parece ter acontecido cedo ou tarde demais.

O tropeço do diretor está na escalação de personagens cuja importância para a fita é nula e que, infelizmente, ganham um incompreensível destaque no roteiro e cenas longas demais na tela (os dois velhos e ao amante de Claudia são um exemplo).

A música de Jean-Louis Aubert consegue um belo resultado ao criar um irônico ambiente de fantasia e paz, quando na verdade, o cenário é marcado pela guerra para que se mantenham vivos os relacionamentos. Não existe paz e a fantasia está apenas no ponto utópico de um amor capaz de fazer coisas moralmente questionáveis.

Sob a bela fotografia em preto e branco de Willy Kurant, este cenário é o perfeito refúgio cinematográfico para um ambiente doente de ciúme, de querer prender o que se ama, de pensar o que poderia ser feito para manter imutável o amor. E nesta guerra de corpos, sentimentos e desejos muitas vezes reprimidos, Philippe Garrel consegue se redimir daquele seu filme anterior, Um Verão Escaldante (2011), entregando-nos neste belo O Ciúme um retrato sobre os relacionamentos a longo prazo, sobre a responsabilidade de cativar e pertencer a uma pessoa e sobre as consequências de querer manter vínculos a qualquer custo.

O Ciúme (La jalousie) – França, 2013
Direção: Philippe Garrel
Roteiro: Marc Cholodenko, Caroline Deruas-Garrel, Philippe Garrel, Arlette Langmann
Elenco: Louis Garrel, Anna Mouglalis, Rebecca Convenant, Olga Milshtein, Esther Garrel, Arthur Igual, Jérôme Huguet, Manon Kneusé, Eric Ruillat, Robert Bazil, Jean Pommier
Duração: 77 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.