Crítica | O Clube dos Cinco

estrelas 4

“Mas o que descobrimos é que cada um de nós é um cérebro, um atleta, um caso perdido, uma princesa e um criminoso.”

 

 Apresenta SPOILERS de O Clube dos Cinco

A década de 80 foi responsável pelo surgimento de inúmeros filmes “adolescentes” ou high school que marcariam e influenciariam o cinema e a vida de muitos, marcando boas horas da Sessão da Tarde. No entanto, entre todos esses, O Clube dos Cinco se destaca por apresentar aspectos um pouco diferenciados para a época, se tornando um dos que mais influenciou esse tipo de gênero. John Hughes, roteirista e diretor que marcou essa época com clássicos da comédia adolescente como Gatinhas e Gatões e Curtindo a Vida Adoidado, realizava uma de suas maiores obras.

Sinopse simples: cinco estudantes são mandados para a detenção, cada um representa um tipo diferente de colegial. O nerd, o esportista, o valentão, a patricinha e a garota bizarra. Passar pleno sábado dentro do colégio soa horrível, assim, tentam enganar o diretor e se divertir dentro do colégio, onde começam a compartilhar sentimentos e descobrir que, apesar de diferentes, todos eles possuem mais coisas em comum do que imaginam.

O grande marco do longa é o excelente desenvolvimento dos personagens, todos muito bem trabalhados e equilibrados. Essa é a grande cartada, onde o telespectador consegue ver carisma em todos aqueles jovens e simpatizar até mesmo com o encrenqueiro John Bender, que rouba a cena em diversos momentos com a interpretação caricata de Judd Nelson. O filme passa um clima incrivelmente despretencioso, simples e divertido. Tal simplicidade talvez venha do fato que Hughes escreveu o roteiro em apenas dois dias e uma das melhores cenas foi um completo improviso entre atores (a sequência de diálogos no chão da biblioteca). O excelente roteiro reveza muito bem de tom, colocando doses de drama que em seguida são preenchidas com inúmeras piadas. As boas tiradas de humor e os diálogos descontraídos enriquecem a obra e comprovam que o diretor John Hughes sabe trabalhar com esse tipo de gênero e público.

O Clube dos Cinco também foi uma espécie de base para comédias high school com um humor mais escrachado, como surgiriam alguns American Pies da vida. Mas o filme acerta em cheio na medida desse teor, que não é tão grande, mas que se diferencia por não ser uma abordagem tão família como as outras comédias da época. A despretensão de O Clube dos Cinco em falar de sexo, drogas e mudanças na adolescência, se divertindo com esses temas sem ser apelativo faz o grande acerto da obra.

O maior erro do longa, no entanto, é contradizer a si mesmo, principalmente em seu fim. O filme em sua maior parte passa a impressão de se tratar de um contra-clichê. Aparenta tentar desfazer estereótipos e clichês, mas seu fim só os reforça ao máximo e deixa confuso sua real intenção. A garota esquisita precisa modificar sua aparência e personalidade pra ter seu final feliz, o nerd é o único que termina sozinho, além de ter de fazer a lição para todos os demais, por exemplo. Sem contar outros vacilos, como forçar a barra para construir casais românticos aos 46 do segundo tempo. Por sorte, isso não é o suficiente pra derrubar o filme, mas serve como grandes borrões em um excelente quadro.

O Clube dos Cinco serviu pra lembrar uma época de filmes, não perfeitos, mas com roteiros mais inspirados, divertidos e menos prepotentes. Quando filmes para o público adolescente tinham roteiros mais originais e não buscavam incessantemente adaptar livros juvenis de fantasia. Por isso, para quem clama por bons filmes desse estilo a obra é um prato cheio e nunca será esquecida. Funciona mais ou menos como diz o sensacional tema cantado pelo Simple Minds: Don’t You Forget About Me. E no fim, pode ter certeza, você vai ficar se perguntando o que aconteceu na segunda-feira.

O Clube dos Cinco (The Breakfast Club) – Estados Unidos, 1985
Roteiro: John Hughes
Direção: John Hughes
Elenco: Emilio Estevez, Anthony Michael Hall, Judd Nelson, Molly Ringwald, Ally Sheedy
Duração: 97 min

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.