Crítica | O Começo da Vida

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estrelas 4

Quando vejo um bebê, algumas de suas atitudes soam bastante estranhas para mim, como a insistência deles em jogar comida no chão ou a felicidade que eles têm em balançar objetos. Portanto, quando estou diante de um pequeno, me deparo com a seguinte pergunta: “porque os bebês possuem gestos tão aleatórias?”, demonstrando minha falta de conhecimento sobre educação para bebês (ou minha insistência em procurar respostas para tudo). Portanto, assistir à O Começo da Vida foi uma experiência valiosa para mim, uma vez que, além de ser abrangente em sua mensagem, o documentário mostra-se fundamental para aqueles que, assim como eu, precisam aprender muito sobre como lidar com crianças.

Assistido ao filme, constatei que não poderia estar mais errado em meu julgamento citado acima, uma vez que, a obra explica perfeitamente que de aleatórias as atitudes dos bebês não têm nada, pelo contrário, elas são derivadas de suas primeiras ligações cerebrais. Sabendo disso, senti culpa por meu desconhecimento e é justamente esse tipo de conscientização que o longa gera, sendo uma obra extremamente necessária para qualquer um que queira ser pai ou mãe um dia.

No início, a obra inteligentemente preocupa-se em quebrar alguns preconceitos que os adultos têm com os bebês (como o que confessei anteriormente). Portanto, o filme resgata frases ditas pelas pessoas no cotidiano, como “bebês são muito desatentos” e as responde com falas de diversos profissionais da área, indo de professores de Harvard até representantes de ONGs, mostrando como os filhos são uma máquina de aprendizado, ou seja, eles não são desatentos, pelo contrário, prestam atenção em tudo ao seu redor; e o longa segue por essa linha de perguntas e respostas no primeiro ato.

A partir daí, o filme adentra a área do papel dos pais no desenvolvimento de seus filhos e no gosto que os pequeninos têm em desbravar o mundo. Por isso, o documentário, de maneira bastante contundente, destaca a importância de brincar, de mexer nos objetos e andar pelos mesmos locais que os adultos, ressaltando que frases como ” você não pode fazer isso” podem ser bastante tóxicas para a formação da criança. Aliás, o trabalho da diretora Estella Renner é bastante firme em suas posições, não há espaço para uma outra visão de educação aqui, adquirindo um aspecto mais instrutivo do que informativo, algo válido visto que a obra estrutura suas opiniões de maneira bastante argumentativa.

Além disso, o documentário não limita-se em abordar apenas a importância dos pais para os filhos mas também mostra como os filhos podem ser importantes para os pais. Há momentos verdadeiramente tocantes abordando como, por exemplo, a entrevista de uma mãe humilde que conseguiu superar seus vícios para cuidar de sua primogênita. Entretanto, a obra também traz o outro lado da maternidade, destacando como os filhos podem ser prejudiciais à um casamento que não é bem estruturado, fazendo com que o casal se distancie, tornando a abordagem pais e filhos completa para ambas partes.

No entanto, quando o longa deixa de lado o papel dos pais e passa a destacar a função dos avós, irmãos e demais parentes, ele torna-se um pouco raso, dando a impressão que esses temas fazem parte do roteiro, também escrito por Renner, apenas para tornar a obra o mais abrangente possível, mas sem aprofundá-los. Ademais, por mais que o filme confirme que casais homoafetivos podem sim criar crianças com a mesma competência que os heterossexuais (afirmação corretíssima), o assunto é pouco explorado para uma época em que isso cada vez mais é discutido pela sociedade, tomando escassos cinco minutos da projeção.

Apesar disso, o documentário destaca-se por conta de sua representatividade. Vemos aqui entrevistas com pessoas de todos os sexos, cores, etnias, classes sociais (indo de Gisele Bündchen a um pai humilde africano) e sexualidade, sendo, sem dúvida alguma, um dos trabalhos com maior diversidade que já assisti. Perto do término, quando aparentemente a obra não teria mais temas para explorar, Estela Renner lança seu filme a uma esfera política e social que engrandecem o conteúdo mostrado até ali, trazendo a fala marcante de Leah Ambwaya, presidente da Terry Children Foundation, comentando “uma criança não é negligenciada pela mãe, uma criança é negligenciada pelo ambiente em que vive, porque ela é filha, neta, sobrinha, vizinha de alguém”, destacando como toda sociedade e o estado também têm responsabilidade sobre a formação da próxima geração, ou, como a bela música final diz, “é preciso uma vila para cuidar de uma criança”.

Em determinado momento de O Começo da Vida, uma mãe diz que criar os filhos é importante porque “eles são futuros cidadãos, irão votar, são o futuro da humanidade”. Obviamente, a escola é importante, entretanto, os primeiros professores da vida de uma criança são os pais, como o documentário ressalta várias vezes, ou seja, a educação que os filhos recebem no início da vida é fundamental para o comportamento deles durante toda a vida, influenciando diretamente no tipo de cidadão que essa criança virá a ser, mostrando como a paternidade é uma responsabilidade muito maior do que parece.

O Começo da Vida (The Beginning of Life) — Brasil, 2016
Direção: Estela Renner
Roteiro: Estela Renner
Com: Ack Shonkoff, James Heckman, Vera Iaconelli, Raffi Cavoukian, Gisele Bündchen, Charles A. Nelson III, Alison Gopnik, Andrew Meltzoff
Duração: 120 min

FERNANDO CAMPOS . . . Depois que fui apresentado para a família Corleone não consegui me desapegar da cinefilia. Caso goste de "O Poderoso Chefão" já é um belo início para nos darmos bem. Estudo jornalismo, mas amo mesmo escrever críticas cinematográficas. Vejo no cinema muito mais que uma arte, mas uma forma ensinar, inspirar, e o mais importante, emocionar. Por isso escrevo, para tentar incentivar às pessoas que busquem se aprofundar nesse universo tão rico. Não tenho preconceito com nenhum gênero, só com o Michael Bay mesmo.