Crítica | O Conde de Monte Cristo (2002)

estrelas 4

O material literário, ponto de partida para esta aventura, é muito bom. Lançado no século XIX pelo bon-vivant Alexandre Dumas, O Conde de Monte Cristo é um dos clássicos literários que mais ganhou traduções intersemióticas. O cinema, a televisão, o teatro e as histórias em quadrinhos são alguns exemplos. Em 2002, ano de comemoração do bicentenário do francês, Kevin Reynolds entregou uma versão eletrizante do romance, tendo como base o ótimo roteiro de Jay Wolpert.

Para quem conhece a história, pouca coisa é reorganizada. Basicamente temos um homem inocente condenado à prisão após ser traído por alguns colegas e por seu “melhor” amigo. Honesto e sincero, Edmond Dantès (Jim Caviezel) tem como plano de vida casar com a sua amada Mercedes (Dagmara Dominczyk) e viver os simples prazeres da vida, mas tem o projeto interrompido por conta de um audacioso esquema organizado por Fernand Mondego (Guy Pearce). Acusado de ser um espião bonapartista, Edmond é condenado e encarcerado na ilha do Castelo de If, o jovem amarga os seus piores pesadelos, sofre torturas frequentes e humilhações, num desenrolar de ruínas em torno da sua vida.

Certo dia é surpreendido por outro preso, em busca de fuga após anos escavando túneis na prisão. Logo, ambos se tornarão amigos e Dantès inicia o seu processo de retorno ao mundo de antes, no entanto, isto não inclui apenas comprovar a sua inocência, mas destroçar os que o destruíram através de um audacioso, épico, brilhante e romântico esquema de vingança. Ao passo que a amizade entre Edmond e o Abade (Richard Harris) se fortalece, ele aprende a lutar, a ler, a refletir sobre o mundo que o circunda e prepara-se através da mente e do corpo para voltar fortalecido e vencer as suas batalhas.

Emocionante, O Conde de Monte Cristo é um festival de acertos: a direção de Kevin Reynolds, bastante segura, consegue captar o bom texto do roteiro de Jay Wolpert e leva-lo ao formato audiovisual através de imagens bem concatenadas. A música de Edward Shearmur entrega o básico dos filmes épicos, mas consegue se desvencilhar do clichê entre um momento e outro, bem conduzida graças ao bom trabalho de edição da dupla formada por Stephen Semel e Christopher Womack.

Sem apelar para efeitos visuais em detrimento do conteúdo, o filme possui um bom desempenho narrativo e nos leva numa odisseia repleta de valores comuns aos textos literários considerados “canônicos”: amor, paixão, traição, justiça, honra, etc. Com bom desempenho de seu elenco (com exceção do ótimo Guy Pearce, que talvez pudesse entregar um antagonista melhor), O Conde de Monte Cristo é um daqueles ótimos dramas que nos leva a viver intensamente as aventuras do seu protagonista, coisa que somente um bom diretor, diante de um bom roteiro e uma boa equipe técnica pode fazer.

É óbvio que em alguns momentos, como o retorno do conde rico, diante de pessoas que o conheceram anteriormente, há a necessidade de uma suspensão de determinadas crenças, pois pelo período histórico, a transformação não poderia ser tão diferente. O roteiro só peca num pedacinho bem pequeno, algo que não chega a estragar o material, pois como afirmado anteriormente, se trata de um bom texto dramatúrgico.

O tal problema está na diminuição da tensão política em prol do esquema folhetinesco que vem das bases da obra ponto de partida, isto é, o romance de Alexandre Dumas. Apesar do conflito se estabelecer dentro do tenso ponto nevrálgico da situação política da França na era napoleônica, o filme debate gravidez e paternidade nos seus momentos finais, por muito pouco não perdendo o equilíbrio mantido pelos 110 minutos iniciais. No entanto, por se tratar de uma equipe competente, o fôlego político é retomado ao final, no ótimo epílogo contendo um diálogo denso de Edmond e sua família.

Ah, para aqueles que não conhecem o romance, nem assistiram as versões anteriores, Edmond aprende lições de filosofia, literatura, política, matemática, etc., além de ganhar um mapa com um suposto tesouro escondido pelo abade, uma representação máxima do mentor da jornada do herói. Ao encontrar toda esta fonte de riqueza após fugir da prisão, Edmond torna-se um dos maiores acumuladores de capital da região. Isto é o bastante. Quer saber mais? Assista (ou reveja) a produção. Pode crer que valerá cada segundo dos 131 minutos de projeção.

O Conde de Monte Cristo (The Count of Monte Cristo) — Inglaterra/ Estados Unidos, 2002
Direção: Kevin Reynolds
Roteiro: Jay Wolpert (baseado em romance de Alexandre Dumas)
Elenco: Dagmara Dominczyk, Guy Pearce, James Frain, Jim Caviezel, Luis Guzmán, Richard Harris, Alex Norton, Henry Cavill, Guy Carleton, Michael Wincott
Duração: 131 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.