Crítica| O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

estrelas 4,5

O Romantismo na literatura teve projeção em vários pontos europeus, sendo a Inglaterra, a França e a Alemanha alguns dos principais expoentes. Os franceses utilizaram o movimento como uma forma de expressão dos ideais da Revolução Francesa, perdidos durante um tempo determinado. No período, de um lado, tínhamos o clero e a nobreza, eixos sociais dominantes que gozavam de privilégios; do outro lado, uma grande massa de pessoas entregues à miséria e a opressão. Os escritores, ao perceberem que os ideais revolucionários da revolução não trouxeram as transformações desejadas, utilizaram a literatura para a realização de denúncias: Alfred de Musset, Alphonse de Lamartine, François René e Victor Hugo (e o clássico Os Miseráveis) são alguns destes expoentes.

Alexandre Dumas não foi um escritor tão respeitado como Victor Hugo. Não é a toa que ambos eram contemporâneos, mas tratados de maneira diferente pela crítica. Victor Hugo era comprometido com a sua imagem, havia forjado uma identidade. Oriundo de um seleto grupo social, o escritor começou pelo que era considerado o exemplo: poesia, romance e peças teatrais, nesta ordem, além de influência política. Dumas, por sua vez, era autodidata, colocava elementos do teatro no romance, comportava-se como uma celebridade da sua época e ganhava por linha escrita, sendo um autor de sucesso de vendas, mesmo com o preconceito de um determinado grupo. Homem de muitas mulheres, vivia afundado em dívidas e polêmicas, o que lhe possibilitou reconhecimento apenas na posteridade.

O Conde de Monte Cristo, juntamente com Os Três Mosqueteiros, é uma das obras mais famosas do escritor que mesmo não tendo o prestígio do autor de Os Miseráveis, deu a sua contribuição para o estilo romântico e para o esquema econômico que tornou o escritor um profissional no século XIX.  Segundo os seus relatos, ele teria encontrado a história para o romance nos arquivos da polícia. Em seu enredo, o romance nos apresenta a história de um marinheiro que foi indevidamente preso depois de uma traição por parte dos seus companheiros de trabalho e de um “suposto” amigo cheio de segundas intenções.

Na prisão ele conhece um clérigo e ao escapar depois de quase duas décadas, elabora um esquema para se vingar daqueles que tiraram a sua liberdade. Sendo assim, ele vai precisar usar a paciência e todos os ensinamentos do clérigo para reconquistar o seu espaço na sociedade. Amor, paixão, ódio, inveja, justiça, injustiça, traição, vaidade, lealdade e outras virtudes são os combustíveis deste volumoso romance que marcou a história da literatura ocidental e é uma referência ainda na contemporaneidade.

O Conde de Monte Cristo segue a cartilha do folhetim à risca, com quantidade extensa de personagens para possibilita os ganchos entre os capítulos e o volume da obra. Edmond Dantès, filho de Louis Dantès, é imediato do navio Faraó, preso na Costa da Marselha por ser acusado de ser um espião bonapartista. Foi prisioneiro por 14 anos, e, ao lutar pela comprovação da sua inocência, apresentou-se através de vários disfarces, indo da Itália à França na construção do seu esquema de vingança. Foi o Conde de Monte Cristo, homem que descobre numa ilha o tesouro do abade Faria, tornando-se rico e instruído para circular pelos meandros da alta sociedade; Número 34 era o seu nome de encarcerado no Castelo de If; Lorde Wilmore, um filantropo excêntrico e generoso; Abade Giacomo Busoni, personalidade religiosa que ganha a confiança de determinadas pessoas importantes em seu projeto de vingança; e Simbad, o marujo, pseudônimo do lendário marinheiro que no romance, salva a família Morrel da falência.

No círculo do personagem temos nomes importantes como o Abade Faria, padre italiano condenado em 1811, prisioneiro que vai estabelecer uma forte amizade com Edmond, tornando-se uma espécie de mentor intelectual e doador de grande herança; Giovanni Bertuccio, antigo contrabandista e homem de honra, leal ao conde, tal como Bapstistin, o “valet”. No círculo de Morcerf temos Fernand Mondego, pescador de origem catalã, antagonista de Edmond, um dos responsáveis pela prisão do inocente; Mercedes Herrera, noiva de Edmond no começo da história, mas convencida pelo astuto projeto de traição de Fernand, a acreditar que Edmond era um criminoso; Albert de Morcerf, filho de Mercedes e Fernand, jovem que vai se tornar parte do jogo vingativo de Edmond após um incidente em Roma.

Entre os personagens que gravitam em torno de Edmond e se apresentam como combustível para alguns segmentos narrativos, temos o Barão de Danglars e a sua filha Eugene; a família Villefort, tendo Gerard Villefort como um dos responsáveis pela prisão de Edmond;  a família Morrel, com destaque para o patriarca Pierre e a sua esposa; além do influente jornalista Beauchamp e o traficante Jacopo, responsável por ajudar Edmond a ganhar liberdade.

No que diz respeito ao contexto histórico é possível radiografar alguns acontecimentos políticos importantes no decorrer da obra. Há uma passagem que o Barão de Danglars se torna um rico banqueiro graças aos seus desfalques e aos incidentes da crise conhecida por Cem Mil Filhos de São Luís, designação dos livros de história para a intervenção francesa em terras ibéricas, em 1823, tendo em mira o estabelecimento do absolutismo, numa luta pelo fim das ideias liberalistas. O governo dos Cem Dias, outro registro histórico icônico também se faz presente em O Conde de Monte Cristo, logo quando Edmond é encarcerado. O período é conhecido pelo retorno de Napoleão I ao poder, após a sua fuga do exílio na ilha de Elba, eventos que ocorrem no mesmo período do Congresso de Viena e da imagética Batalha de Waterloo.

Já no que tange aos aspectos estruturais, Alexandre Dumas injetou doses generosas de aventura na trajetória de Edmond Dantès. Hoje lido através do suporte romance, a obra foi publicada em folhetim. Conhecido por ser um tipo de narrativa literária publicada parcialmente e sequenciada em periódicos como revistas e jornais, o folhetim, oriundo da França na mesma época do advento da imprensa, apostava nos ganchos interessados em prender o leitor para a próxima publicação, algo que na contemporaneidade, ocorre com os seriados e telenovelas.

Assim como é de grande popularidade, O Conde de Monte Cristo também é alvo de polêmicas. Uma delas é a autoria da obra, pois conforme apontam as pesquisas acadêmicas, Alexandre Dumas escrevia com um coautor, no entanto, apenas ele assinava as produções. Não há uniformidade nas opiniões, mas pelo que tudo indica, o trabalho de Maquet era redigir uma cópia de um trecho ou capítulo, tendo em vista o seu vasto conhecimento histórico, para adiante, entrega-lo ao autor, para a reescrita com estilo romanesco. Teria sido Maquet um escritor fantasma ou um colaborador?

Questão complexa de se afirmar, mas sem muita importância quando pensamos que a obra é uma grande aventura sobre valores comuns aos homens, bem como um poderoso exercício de criação literária, sendo também um material concreto e que está disponível através de várias edições publicadas ao redor do planeta. Não é que a questão da autoria seja algo menor, mas não influencia o valor da obra em questão. O que dizer da polêmica sobre a existência de Shakespeare? Hamlet e Romeu e Julieta estão aí, já foram traduzidas para tantas linguagens, será que os leitores realmente se importam com isso no “ato” da leitura?

O Conde de Monte Cristo, tal como as obras do bardo inglês, anteriormente citadas, ganhou várias traduções intersemióticas. Para o cinema, temos as versões de 1918 (por Henri Pouctal), 1929 (Henri Fescourt), 1934 (Rowland V. Lee), 1943 (Robert Vernay), 1948 (Albert Valentin), 1954 (segunda versão de Robert Vernay), 1961 (Claude Autant Iara), 1968 (André Hunebelle), 1975 (David Greene) e 2002 (Richard Harris). Na televisão foi inspiração para a novela Começar de Novo, da Rede Globo; Ezel, novela turca lançada em 2009; La Patrona, novela de 2013 que trouxe uma versão feminina do romance, tal como Revenge, de Mike Kelley, série que durou quatro temporadas. Há também uma versão em anime criada por Mahiro Maeda e a participação do protagonista Edmond Dantès em um episódio da sexta temporada de Once Upon a Time.

Negligenciada por muitos anos, a obra de Alexandre Dumas ganhou reconhecimento crítico póstumo, tendo sido vítima do que na atualidade fazemos com o bestseller, lido pela academia como algo menor, fora do cânone. Para os especialistas faltava precisão histórica e profundidade dramática, mas a popularidade da obra era tão grande que conseguiu vencer as barreiras e tornar-se uma obra bastante lida. Em 2002, no bicentenário de nascimento do autor, houve uma cerimônia que durou três dias na França, com comemorações diversas e um novo olhar para a obra deste escritor que produziu crônicas, romances e peças teatrais, tendo estimulado a imaginação de muitos leitores primeiramente em território francês, para mais adiante, ganhar o mundo, inclusive o Brasil, nação que em seu projeto nacionalista se deixou influenciar pela produção literária europeia, adaptando-a ao “modo brasileiro”.

O Conde de Monte Cristo
Autor: Alexandre Dumas
Editora: Zahar
Tradução: André Telles
Páginas: 1664

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.