Crítica | O Conselheiro do Crime

estrelas 2

Você sabe o que é bolito? Também não sabia e aprendi com O Conselheiro do Crime. Trata-se de um cabo de aço que é colocado em volta do pescoço de alguém e que, tal qual um garrote medieval, vai sendo apertado por um pequeno motor embutido. O resultado você pode imaginar qual é.

Foi a única coisa, na verdade, que aprendi com o filme. Ou quase a única. A outra é que Cormac McCarthy, detentor de um dos nomes mais sonoros do mundo editorial, é um grande escritor de romances – autor dos brilhantes A Estrada e Onde os Fracos Não Tem Vez, ambos convertidos em sensacionais filmes – mas é um roteirista abaixo da média. Bem abaixo, na verdade.

E é aí que o bolito entra. Suspeito que ele deve ter ouvido falar nessa técnica, ficou empolgado e escreveu um roteiro simplesmente para que fosse possível inseri-la em um filme. Isso e, claro, dois guepardos em pleno deserto mexicano, uma versão sofisticada do cerol de pipa decepando cabeças e uma cena de sexo com uma Ferrari amarela (repare que não escrevi “em um Ferrari”). Sim, é isso mesmo que você leu.

Juntando-se a esses elementos tão díspares, a Fox conseguiu reunir um elenco estelar com Michael Fassbender no papel do “conselheiro” do título, na verdade um advogado do traficante local de drogas, Reiner, um Javier Bardem disfarçado de Gaiola das Loucas. Penélope Cruz faz uma ponta glorificada como a inocente Laura, a paixão de Fassbender e, como contraponto, Cameron Diaz como a paixão de Reiner, Malkina, que tem nome de vilã, tatuagem de vilã, maquiagem de vilã, penteado de vilã, diálogos de vilã e voz de vilã. Será que ela é a vilã?

Mas tem mais um montão de gente também, incluindo Brad Pitt e Bruno Ganz, em uma sucessão interminável de personagens novos sendo introduzidos a cada dez minutos até literalmente o último segundo de projeção. É tanta gente nova com micro-papeis que Ridley Scott tenta, mas não consegue se aprofundar em ninguém, nem mesmo no conselheiro. O espectador, então, acaba não conseguindo se identificar com ninguém, com exceção, talvez, de Laura. O resto do maravilhoso elenco é subaproveitado ou tão estereotipado que os risos sem graça são inevitáveis.

Uma coisa é você criar personagens estranhos e cheios de trejeitos como Anton Chigurh e Silva, ambos vividos à perfeição por Bardem. São seres surreais, maiores que a vida, mas muito interessantes e atraentes. Outra coisa bem diferente é colocar óculos escuros, espetar o cabelo, vestir roupas berrantes e forçar mais ainda o sotaque espanhol para criar alguém que não tem nada a dizer a não ser besteiras pseudo-intelectuais. Mas, novamente, a culpa não é exatamente de Bardem, assim como também não é dos demais atores. McCarthy está na alça de mira aqui.

Aliás, falando em diálogos pseudo-intelectuais, O Conselheiro do Crime está cheio deles. Todo mundo tem longos monólogos explicando alguma coisa que realmente não faz muito sentido ou que poderia ser resumida em algumas poucas palavras. Dá a impressão que McCarthy economizou tanto nos diálogos de A Estrada e Onde os Fracos Não Têm Vez, que resolveu descontar em O Conselheiro do Crime.

A ironia maior não se perde na fita. O conselheiro é quem recebe os conselhos e nunca os dá. Ele é muito mais inocente que aparenta e é manobrado facilmente por todos. Acontece que, mesmo esse aspecto, que deveria ficar nas entrelinhas, é tão escancarado e óbvio que, lá pelo quinto sermão, fica difícil não revirar os olhos e apertar o fast forward de um controle remoto imaginário na mão.

A trama é rasteira e básica, com um carregamento de drogas sendo roubado, o que leva a desdobramentos violentos para todos os envolvidos. Scott trabalha bem com o que pode e faz uma interessante montagem não completamente linear, mantendo duas narrativas quase que sobrepostas, ambas, claro, caminhando para um final previsto em detalhes ao longo da trama, o que retira qualquer resquício de surpresa. É a escolha levando a consequências inafastáveis. É como dizem o conselheiro e Reiner: a ganância fala mais alto (mas só que não em tão poucas palavras, claro, pois tudo na fita tem que ser enrolado e longo, mesmo que seja algo dolorosamente óbvio e simples).

Mesmo com os esforços de Ridley Scott, que veio de Prometheus, filme que ele mesmo estragou, O Conselheiro do Crime não é muito mais do que um bolito sendo vagarosamente apertado em volta de nosso pescoço, prolongando a tortura e a sensação de desespero para que tudo acabe.

O Conselheiro do Crime (The Counselor, EUA/Reino Unido – 2013)
Direção: Ridley Scott
Roteiro: Cormac McCarthy
Elenco: Michael Fassbender, Penélope Cruz, Cameron Diaz, Javier Bardem, Bruno Ganz, Brad Pitt
Duração: 117 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.