Crítica | O Contador

estrelas 3,5

Hollywood anda fascinada com finanças. Brinco que os roteiristas andam usando muito o Wall Street Journal para fonte de inspiração, dado a frequência com que filmes e séries andam utilizando dados do mercado financeiro como fonte de inspiração. Deu certo até para o comediante Adam McKay, agora um vencedor do Oscar, e seu ácido A Grande Aposta. Agora, essa temática complexa retorna à linguagem escapista do blockbuster com O Contador, filme que é uma eficiente mistura de gêneros.

A trama nos apresenta ao misterioso contador Christian Wolff (Ben Affleck), portador da síndrome de Asperger, e um matemático brilhante e capaz de resolver qualquer problema de lógica posto à sua frente. Quando seus serviços são requisitados para a auditoria de uma empresa de robótica, seu trabalho encontra mais podres do que o esperado e sua cabeça torna-se cobiçada pelos próprios empregadores; ao mesmo tempo em que um agente do Tesouro (J.K. Simmons) inicia uma caçada por ele. O que ninguém espera, é que Christian balanceia sua vida dupla de contador com a de assassino profissional e internacional.

Não é um mal rumo para o roteirista Bill Dubuque, que mostra-se infinitamente superior aqui do que no fraquíssimo O Juiz (seu trabalho de estreia), e o fato de estarmos diante de uma produção que não é adaptação, continuação ou reboot de algum material já estabelecido é alentador, ainda mais pelo potencial que O Contador traz. É uma trama enxuta e eficiente em sua proposta, servindo como um thriller de finanças que lentamente vai se transformando em um estudo de personagem e um filme de ação desenfreado. Quase uma cria entre Rain Man, Wall Street e John Wick, se é que é possível uma mistura tão inusitada de fato ocorrer.

Dubuque acerta na construção de seus personagens e o universo no qual os habita, em diversos momentos trazendo a atmosfera adequada de um longa de espionagem ou um thriller político, além de uma mensagem surpreendentemente eficaz sobre tratamento de autismo. Em termos de narrativa, o longa parece perdido quanto às ações e reações da trama central, especialmente no que diz respeito à “linguagem de Wall Street” e os eventos incitantes que iniciam a série de matanças promovidas pelo assassino vivido por Jon Bernthal. Essa temática também exige uma série de exposição que torna-se carregada e nada natural para os diálogos mais introdutórios, como a própria apresentação de Bernthal – o que deveria ser uma cena ameaçadora, torna-se uma maçante introdução à macroeconomia.

A necessidade de explicar origens e motivações também toma certo tempo da trama, a começar pelos desnecessários flasbacks que nos relatam a infância sofrida de Christian e a relação com seu pai e irmão. É quase uma muleta narrativa que constantemente interrompe o bom ritmo que a direção de Gavin O’Connor vinha construindo, algo que ocorre também quando o agente do Tesouro vivido por J.K. Simmons (que tem um momento verdadeiramente brilhante e digno de seu segundo Oscar aqui) inicia um longo monólogo onde acompanhamos seu primeiro contato com o Contador que este tanto procura e nos desviamos da trama central por uns bons 10 minutos. É uma falha tanto da estrutura de Dudubuque quanto da montagem de Richard Pearson.

Porém, o filme tem mais acertos do que erros. A começar por Ben Affleck, que mostra-se à vontade e bem caracterizado no papel de Christian, assumindo tiques comportamentais (o olhar sempre desviado, a mania de soprar as pontas dos dedos) que jamais soam caricatos ou exagerados. É até engraçado ver o físico imponente e brutamontes de Affleck dando espaço a uma performance controlada e pacífica, rendendo ótimos momentos como aquele em que, após um tiroteio sangrento, ele vira-se para uma dos personagens e diz – calmamente – “precisamos ir embora daqui”. O elenco de apoio é todo muito bem aproveitado, ainda que Anna Kendrick fique presa ao mesmo estereótipo que tem se concentrado em fazer e que a ótima performance de Jon Bernthal traga uma reviravolta tola e completamente previsível envolvendo seu personagem.

Por fim, temos a direção do cada vez mais interessante Gavin O’Connor. Responsável pelo excelente Guerreiro, O’Connor traz seu conhecimento de lutas e confrontos corpo a corpo em uma decupagem agressiva e bem feita, trazendo tiroteios realistas e cenas de luta que agradam pela inventividade e coreografia. Sua mise em scene também é muito criativa na hora de enquadrar o protagonista, especialmente ao trazer planos centralizados e quase milimétricos para as cenas em sua casa, com destaque especial para um plano que o traz através de uma minúscula cozinha de janela americana.

O Contador é um cruzamento interessante entre um thriller de espionagem e um filme de finanças, contando com um elenco eficiente e uma direção intensa do competente Gavin O’Connor. Pode se perder aqui e ali no miolo da história, mas é um bom entretenimento.

O Contador (The Accountant, EUA – 2016)
Direção: Gavin O’Connor
Roteiro: Bill Dubuque
Elenco: Ben Affleck, Anna Kendrick, J.K. Simmons, Jon Bernthal, Cynthia Addai-Robinson, Jeffrey Tambor, John Lithgow, Jean Smart
Duração: 128 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.