Crítica | O Conto da Princesa Kaguya

estrelas 4,5

Baseado em uma história do folclore japonês, O Conto do Cortador de Bambu, esta animação do Studio Ghibli, dirigida e coescrita pelo mestre Isao Takahata (diretor de belezas como Túmulo dos Vagalumes e PomPoko – A Grande Batalha dos Guaxinins), é uma realização esteticamente simples — basicamente lápis em diversos estágios de acabamento animado em 2D e colorido com leveza e muitas nuances de branco, como se tudo o que vemos na tela fosse apenas um fugaz momento de felicidade e lamento na vida das pessoas que conheceram a princesa — porém, atrás da simplicidade artística, há um belo conto cheio de significados, como as mudanças pelas quais passamos no decorrer dos anos; o amadurecimento com todas as suas perdas e ganhos e a complexa relação entre amor, tradição e relacionamento das pessoas com aqueles que amam, especialmente pais e filhos.

A tradição japonesa e todas as suas delicadezas e “crueldades” aparecem no decorrer do conto trabalhadas de forma sólida e com um significado tão humano e tão questionador, que o espectador não acredita que está vendo um texto de tamanha densidade em uma animação com temática e fotografia tão delicadas.

A história avança do nascimento mágico da princesa Kaguya, sua infância campesina, a mudança para a capital, o enfrentamento da falsidade, ganância e desonestidade dos nobres, até o seu retorno para a Cidade da Lua, seu local de origem. Este acontecimento ao fim do longa é o seu ponto menos brilhante, embora bastante emotivo e condizente com o ambiente folclórico no qual se baseia. Todavia, mesmo não gostando tanto do desfecho do filme, não o entendo como ruim ou minimizador do que vimos antes. Há um custo de coesão, é claro — a sequência final é destoante demais, se pensarmos em tudo o que nos foi apresentado do início do filme até a chegada dos habitantes lunares –, mas ela é cheia de beleza visual e musical, além de trazer uma despedida que provavelmente irá arrancar lágrimas dos olhos da maioria dos espectadores.

Como é comum nos filmes do Studio Ghibli, o elemento fabular é retrabalhado para espelhar e pertencer ao mundo real através de simbolismos, metáforas ou críticas diretas aos costumes e comportamentos. Talvez ao lado de Vidas ao Vento (2013), O Conto da Princesa Kaguya seja, até então, o longa mais direto ao mostrar as relações sociais e até políticas em seu texto. É claro que essas questões apareceram de forma muito forte em obras como Meu Amigo TotoroA Viagem de Chihiro ou Ponyo – Uma Amizade que Veio do Mar, mas perceba que nestas ou em outras animações do estúdio, grande parte de tais relações estão postas de maneira simbólica. Em Kaguya, apesar do plano de fundo folclórico e do ambiente atemporal, existe uma exploração direta da hierarquia social, da política e do comportamento da civilização em desenvolvimento (ironizado em um sonho onde ela volta para o local onde crescera e vê tudo destruído: “a montanha está morta?”), caráter visto de forma mais indireta ou com menor intensidade em outras produções.

A trilha sonora composta por Joe Hisaishi (parceiro do Studio Ghibli desde O Castelo no Céu, 1986) mistura instrumentos tradicionais e melodias um pouco ocidentalizadas para reafirmar a atmosfera enigmática e fantasiosa do filme. As canções sentimentais (cantadas em duas versões, uma popular e outra com um belo arranjo que nos lembra uma balada de aparência soul) contextualizam os momentos mais intensos na vida de Kaguya e tem um significado contrastante ao final, contrapondo a tristeza da despedida com a alegria espiritual que os habitantes lunares sentiam ao levar a princesa de volta para casa.

O que torna alguém feliz? Esta é a pergunta angular de O Conto da Princesa Kaguya. O filme traz à tona um ambiente onde há um grande valor aos elementos materiais e o desprezo da simplicidade, da opinião própria, do contato afetivo e da verdade.

Assim como os príncipes e homens do reino que viam em Kaguya apenas um objeto, um prêmio, uma conquista amorosa, o pai dela também seguiu um caminho que o deixou cego para os sentimentos da filha, que, mesmo revestida de belas roupas e rodeada por riquezas, não tinha aquilo que realmente a fizesse feliz. Este ponto filosófico do texto de Takahata e Sakaguchi tem menos a ver com crítica ao charme ostensivo e acumulador da nobreza (ou burguesia) do que com a filosofia e os valores morais e espirituais. Este, na verdade, é o ponto onde a fita nos deixa, ao fim, em uma reflexão sobre os verdadeiros valores a que nos entregamos (ou que somos direcionados a nos entregar) na vida que vivemos antes de sermos chamados de volta para a Cidade da Lua.

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no monogatari) – Japão, 2013
Direção: Isao Takahata
Roteiro: Isao Takahata, Riko Sakaguchi
Elenco (vozes originais): Aki Asakura, Yukiji Asaoka, Takeo Chii, Isao Hashizume, Hikaru Ijûin, Takaya Kamikawa, Kengo Kôra, Nobuko Miyamoto, Tatsuya Nakadai
Duração: 137 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.