Crítica | O Conto de Zatoichi Continua

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estrelas 4

 spoilers do primeiro filme! Confira as críticas para os outros filmes da série aqui.

Em 12 de outubro de 1962, estreava nos cinemas japoneses a continuação de O Conto de Zatoichi, dando o segundo passo para a formação de uma das maiores cinesséries da História do Cinema. Neste segundo filme, estamos um ano à frente do primeiro conto e o protagonista está prestes a cumprir a promessa feita ao amigo samurai que matou naquela ocasião. Seu retorno à cidade é acompanhado de pequenos acontecimentos que parecem nos dar a noção de ciclo de tragédias na vida do personagem, embora o roteiro de Minoru Inuzuka não consiga deixar a história com a mesma força inicial que a do filme anterior, mesmo que isso não tire da trama o nível de qualidade, que se iguala ao da estreia da série.

Aqui entra um possível paradoxo de avaliação e explico o por quê dessa minha percepção. Vejam que O Conto de Zatoichi Continua não foi um acidente cinematográfico do estúdio Daiei. O filme foi encomendado e concebido como uma continuação, tendo, inclusive, alguns personagens que retornam para terem o seu destino finalizado ou melhor desenvolvimento, como no caso de Otane, que agora está noiva de um carpinteiro. Dessa forma, é necessário olhar o longa tanto pelo viés de sua qualidade unitária, quanto pela qualidade de continuação, e isso a fita tem bastante. Ela é mais ágil, mais farta em ação e mais urgente na sequência de eventos, distanciando-se do lirismo do conto número um, todavia, sem quebrar a proposta original, a solidez ou a qualidade visual previamente estabelecidas.

Como já sabemos o modo de agir e um pouco do que pensa o massagista e espadachim cego, fica fácil entendermos alguns caminhos do enredo e mesmo as escolhas visuais adotadas pelo diretor Kazuo Mori (que voltaria a dirigir filmes da série), como colocá-lo diante de pessoas que pretendem matá-lo porque ele ouviu o que não deveria, ou algum tipo de vingança/acerto de contas que parece surgir de repente, mas que, na verdade, tem sua raiz ainda na primeira parte da obra. O ápice disso é a revelação de que Nagisa, o criminoso, é o irmão de Zatoichi. E aí está o espadachim novamente diante de uma situação moral e emocionalmente complexa, também na parte final da película. Os atores Tomisaburô Wakayama (Nagisa) e Shintarô Katsu (Zatoichi) também eram irmãos na vida real, informação que nos faz ver as cenas que eles dividem no filme de forma completamente diferente.

Dentre as mudanças em relação ao primeiro filme, a trilha sonora é a que mais causa espanto. O excelente compositor Ichirô Saitô escolheu se aproximar da música dos westerns, destacando a melancolia das faixas de duelo, a exemplo do Degüello de Dimitri Tiomkin, que ouvimos em Onde Começa o Inferno (1959). Já a aproximação com o cinema japonês é obviamente com o filme Yojimbo – O Guarda-Costas (1961): Zatoichi é colocado em situações que nos lembram bastante o personagem de Toshiro Minufe no clássico de Kurosawa. Ele não tem o mesmo senso de humor, mas isto vem através de um louco Senhor de Clã que ri ou age como criança enquanto recebe massagem; ele não se coloca em situações de perigo voluntariamente, mas seu senso de moral o obriga a gir em um bom número de ocasiões; ele quer apenas parar e ser simples, mas até esse tipo de tarefa parece ganhar um impedimento social, porque o mundo à volta do personagem funciona de maneira a não deixá-lo livre de brigas e mortes.

As reclamações feitas às cenas de ação no primeiro conto não ganham espaço aqui. Mas não há exageros. As lutas acontecem em momentos pontuais, boa parte delas acompanhadas de um tema musical cada vez mais intenso (em tempo: a representação orquestralmente estrondosa para o “grito” do personagem quando Nagisa morre, é genial), terminando em alto estilo tanto na ação, quanto no som. E mais uma vez a espada de Zatoichi se torna um mistério para ser desvendado na sequência. Sabemos que a primeira foi enterrada com Hiraji; a que vemos no início desse filme ele conseguiu em elipse e o vemos largá-la quando leva o irmão ferido para um lugar seguro; já a terceira, ele retira do chefe da Yakuza que enfrenta por alguns segundos na exata última cena do longa.

O Conto de Zatoichi Continua é uma sequência digna, tanto na ideia quanto na concepção estética, novamente exemplar e com as mesmas belas representações da natureza, que aqui, ainda servem como reflexão do personagem sobre o passado. O roteiro é um pouco inconstante na construção de coisas novas, mas por outro lado, consegue “finalizar” essa fase da vida de Zatoichi, trazendo uma importante informação sobre a família dele, além de um antigo amor. É pouco, mas vejam que já existe material para ser utilizado a longo prazo, embora os produtores jamais imaginassem, na época, que haveriam ainda outras 24 sequências para esta história.

As ameaças inglórias de um samurai vencido

Só gostaria de deixar claro que eu estou sendo ameaçado pelo Ritter Fan depois que ele, DE BOM GRADO, me devolveu a crítica de O Conto de Zatoichi, sendo que foi ele quem usurpou a crítica de mim em primeiro lugar! Vejam abaixo o que eu sou obrigado a ler no rascunho da minha crítica! Notem a petulância do cavalo! Já é hora de chamar a ONU!!!

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Era uma vez um professor que gostava de contar mentiras a seus alunos. Ele dizia que era redator de um site nerd sobre filmes, séries e quadrinhos, que gostava de ler quadrinhos de super-heróis, que gostava de filmes franceses fora de foco, séries de TV sobre cabines de polícia azuis que viajam pelo espaço e pelo tempo e HQs desconhecidas de autores com nomes estranhos. Ele se gabava, com ar superior, de ser um grande crítico, deixando seus alunos apaixonados por ele, por aquela imagem exterior de gente compenetrada, de grande sapiência e com uma simpatia irresistível. No entanto, o que ninguém sabia é que ele era, na verdade, um grande usurpador de críticas alheias, um invejoso, um enganador, um mentiroso contumaz que não perdia a oportunidade de enganar quem quer que fosse. Um dia, então, ao revelar suas verdadeiras cores aos colegas do site onde ele escrevia, um motim aconteceu e cabeças vingativas apagaram TUDO que ele havia escrito. Apagaram sua memória de anos de trabalho. Apagaram do mundo sua cobertura querida sobre o sujeito que viajava na tal cabine azul. E, assim, o professor foi, aos poucos, sendo esquecido por todos. Primeiro, por seus colegas de site. Depois, por seus alunos, que descobriram todas as mentiras e o levaram ao ostracismo. E, finalmente, na sarjeta e expulso de casa pela família, ele deixou o cabelo e a barba crescerem e passou a peregrinar, descalço, pelo Brasil, lembrando-se, quase como um sonho, sobre sua vida pregressa, sobre um dia ter sido alguém de valor. 

Ritter Fan

O Conto de Zatoichi Continua / Zatoichi #2 (Zoku Zatôichi monogatari) – Japão, 1962
Direção:
Kazuo Mori
Roteiro: Minoru Inuzuka (baseado na obra de Kan Shimozawa)
Elenco: Shintarô Katsu, Yaeko Mizutani, Masayo Banri, Tomisaburô Wakayama, Yutaka Nakamura, Sônosuke Sawamura, Shôsaku Sugiyama, San’emon Arashi, Yoshindo Yamaji, Eijirô Yanagi, Fujio Harumoto, Kôichi Mizuhara, Saburô Date, Shintarô Nanjô, Shôzô Nanbu
Duração: 72 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.