Crítica | O Conto dos Contos

estrelas 4

O primeiro filme em inglês do diretor italiano Matteo Garrone, O Conto dos Contos é, como o próprio título sugere um apanhado de histórias que se entrelaçam através de alguns poucos elementos. Não se enganem, porém, acreditando que o caráter de fantasia que o filme assume quer dizer que ele é feito para um público mais jovem. Muito pelo contrário, temos aqui algo muito similar aos contos de Grimm e Andersen originais, nos quais a lição apresentada sempre vem acompanhada com sangue. Este é um conto de fadas para adultos.

Em um reino cujo nome desconhecemos um rei (John C. Reilly) e rainha (Salma Hayek) estão abalados por não poderem ter filhos. É nesse momento que um homem misterioso surge e propõe uma série de feitos, envolvendo a caçada de um monstro marinho, que, no fim, garantirão um filho ao casal. A história, contudo, como mencionado anteriormente, não se limita a um único foco narrativo. Alguns anos mais tarde temos a história de um rei libertino, interpretado por Vincent Cassel e outra de uma princesa que, acima de tudo, deseja um marido. Unidos somente pelo fato de que são reinos vizinhos esses três contos apresentam, cada um, sua própria estrutura narrativa, contando com um clímax para cada.

Dito isso, o roteiro assinado por quatro mãos, baseado no livro de Giambattista Basile, leva o espectador em uma espiral de emoções, nos deixando pouco tempo para respirar. O caráter adulto que a história assume desde o princípio nos faz ter a percepção de ausência de um final plenamente feliz – sabemos que haverá sacrifício, algo anunciado pela figura misteriosa que faz sua aparição no primeiro trecho da projeção. Toda aventura assume um tom de provação para os personagens e o elenco, cada um com suas particularidades, desempenha um ótimo papel na construção desse universo. A única que soa fora do lugar é Salma Hayek, sendo a única personagem latina da obra. Naturalmente, sendo este um reflexo fantasioso da Europa, tal possibilidade existe, mas ainda soa fora do lugar.

A decupagem de Matteo Garrone garante sua originalidade fugindo do que estamos acostumados quando se trata de fantasias como Senhor dos Anéis ou Crônicas de Narnia, que fazem uso de planos abertos constantes. Sua estrutura fragmentada permite um uso mais frequente de planos fechados, essenciais na construção psicológica de cada personagem, definitivamente o maior dos enfoques do longa. Existem, é claros, enquadramentos mais abertos, mas eles são justificados por ações mais “aventureiras”. O uso de cores mais vibrantes também é uma constante, criando através do contraste o tom necessário da projeção Acompanhando toda a projeção, e coroando o caráter da obra, temos a trilha certeira de Alexandre Desplat, que acerta em cheio o tom de cada sequência, nos trazendo melodias que permanecem em nossa mente muito após o término da obra e que, certamente, merece ser adquirida.

A ausência de uma maior coesão entre cada foco narrativo é o que pode ser considerado o único deslize do filme. A intenção do diretor era, sem dúvidas, criar uma história fragmentada e a montagem dá conta desse recado, criando uma notável fluidez na trama, mas não podemos deixar de sentir como se algo estivesse faltando, algo para nos prender ainda mais. A união entre os diferentes contos ocorre somente no início e no fim e através de poucos personagens secundários, quando eles poderiam ser entrelaçados de maneira muito mais criativa.

Tal defeito, porém, não cria uma barreira entre o espectador e o longa-metragem, que pode ser aproveitado em sua plenitude. O Conto dos Contos é uma interessante retomada das fantasias escritas por Grimm e Andersen e certamente irá agradar a qualquer apreciador do gênero. Matteo Garrone faz, portanto, uma ótima estreia no cinema em língua inglesa, trazendo um conto de fadas verdadeiramente adulto e angustiante.

O Conto dos Contos (Il Racconto dei Racconti – Itália/ França/ Reino Unido, 2015)
Direção:
Matteo Garrone
Roteiro: Edoardo Albinati, Ugo Chiti, Matteo Garrone, Massimo Gaudioso
Elenco: Salma Hayek, Vincent Cassel, Toby Jones, John C. Reilly, Shirley Henderson
Duração: 125 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.