Crítica | O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo

Victor Hugo foi um escritor respeitado. As suas produções literárias são ricas e valiosas. Sempre que pretendo trabalhar com escrita criativa, figuras de linguagem ou compreensão do estilo literário de determinadas épocas e escritores, seleciono um trecho de alguma obra literária do autor em questão, para estudo e mergulho em detalhes estéticos e históricos para melhor observação. O Corcunda de Notre Dame é um dos romances escolhidos para tal tarefa, em especial, o capítulo “Deixai Toda Esperança”, passagem com riqueza de detalhes e primorosa utilização de figuras de linguagem.

É o momento para buscar compreender a importância de Victor Hugo para o cânone literário, posto merecidamente fornecido a um escritor que “fez por onde” para conseguir posicionar-se num espaço cheio de contradições sociais e políticas, alvo de polêmicas constantes no âmbito dos estudos literário. Mas, afinal, do que se trata O Corcunda de Notre Dame, obra que juntamente com Os Miseráveis, faz parte das produções mais importantes do escritor?  Hoje é praticamente impossível dissociar as questões arquitetônicas da catedral e os acontecimentos ao longo da trajetória de escrita do romance, mas é preciso compreender que estamos diante de uma história de amor sem final feliz, tendo como subtexto a importância da manutenção da catedral construída em estilo gótico.

Salvas as devidas proporções, o livro salvou a catedral e a catedral salvou o livro. Enquanto o romance permitiu que as pessoas se preocupassem com a manutenção da catedral como símbolo de uma época que precisava ser resgatado continuamente pela memória, tal símbolo arquitetônico nomeou o livro e o fez de alguma forma chegar até o contemporâneo. Os personagens são importantes, o corcunda da história nem era o destaque central, mas por conta das traduções linguísticas e culturais desde seu lançamento em 1831, os elementos da história passaram por algumas mudanças que não chegam a se definir como inversões, mas apenas reposicionamentos.

Assim como outras obras do século XIX, O Corcunda de Notre  Dame ganhou novos contornos na cultura popular por conta das suas adaptações para outros suportes semióticos.  A versão da Disney é uma das leituras mais famosas e responsáveis por direcionar o conteúdo literário para uma seara clean, focado mesmo no público juvenil. As versões para ópera e cinema apostaram nos elementos grotescos bem construídos por Victor Hugo. No final das contas, todas dialogam com a história de amor impossível e com a situação social de Paris numa época de contrastes sociais e econômicos gritantes.

A história é considerada um alerta para a conscientização da catedral, com ilustração histórica de Paris, dos ciganos e mendigos aos nobres e poderosos. Com história que se desenrola em 1842, o romance situado em meio às margens do rio Sena retrata os costumes em torno da catedral construída em 1330, local de oração também conhecido como ambiente de refúgio das pessoas pressionadas pelos rigores da lei e até mesmo o recolhimento de órfãos. Frequentada por personagens que atravessam classes sociais distintas, a catedral possui um responsável por tocar o seu sino cotidianamente: Quasímodo, um homem deformado e coxo, adotado quando ainda criança.

Dentre tantas idas e vindas de personagens e situações históricas refletidas criticamente ao longo do livro, Victor Hugo nos apresenta as peripécias de Quasímodo para ganhar o amor de Esmeralda, mulher que representa uma espécie de beleza idealizada, ligada ao supremo e ao divino. Seu amor por ela é algo que fica no campo da idealização, enquanto há outro personagem de olho na moça, mas numa perspectiva carnal e ligada ao desejo. Este é Claude Frollo, homem que também quer Esmeralda, mas para satisfação de seus interesses sexuais, sem a estima e o afeto quase fraternal de Quasímodo.

Admirada entre a visão celestial e a sexual, Esmeralda não ama na verdade nenhum dos dois, mas Febro, um oficial da Guarda Real, homem que diferente de Frollo e do corcunda, não nutre nenhum tipo de sentimento, mas apenas o interesse carnal pela moça. Será em meio a esse feixe de interesses em contraposição que a história se desdobra diante do leitor, dando espaço para inserções de cunho reflexivo e crítico por parte de Victor Hugo, escritor atento às demandas sociais de sua época, mesmo escrevendo de um ponto de vista privilegiado economicamente. E, diferente de A Bela e a Fera, não há toque de mágica para colocar personagens apaixonados para consumar os seus sentimentos. O texto de Victor Hugo segue uma perspectiva mais trágica e menos idealizada.

O Corcunda de Notre Dame segue os elementos que definem o grotesco na literatura, uma categoria que flerta com dualidades e simbioses. No romance o sublime e o grotesco coexistem, tal como a beleza da catedral e a feiura de Quasímodo. Com descrições que dão conta de delinear a valorização estética medieval em pleno século XIX, Victor Hugo constrói uma obra que se relaciona bastante com o grotesco, termo que inicialmente esteve ligado ao que era encontrado em termos de arte nas escavações realizadas em Roma no século XV. Forma paradoxal de arte, o grotesco agrupa a contraposição de elementos ditos inconciliáveis, numa estimulação contínua do horror, da aversão e do trágico, com pitadas de humor para reforçar dualidades como a interação entre o macabro e o ridículo, o horripilante e o cômico.

Parte integrante de diversas manifestações artísticas, na literatura, o grotesco é uma categoria que reforça a caricatura e o absurdo, tendo em vista servir a sátira e o chiste. Trechos incongruentes, focados no que é distorcido, assustador, irregular, feio e absurdo estão em consonância com o que se define conceitualmente como grotesco. Todos esses elementos citados estão presentes na trajetória do romance, desde a profusão de estilos de escrita antagônicos aos perfis de personagens e suas ações. Esteticamente entre o sublime e o feio, entre o belo e o disforme, O Corcunda de Notre  Dame traça seu inventário cultural e nos conta uma história medieval por uma perspectiva do século XIX.

Já no que tange aos aspectos estruturais, Victor Hugo injetou doses generosas de descrição para a caracterização de acontecimentos e personagens. Ele é tão intenso nas observações que torna a tarefa de seleção dos protagonistas algo difícil. Quem é protagonista e quem é coadjuvante na história? Apesar da gravitação do eixo central ficar entre Quasímodo, Esmeralda e Frollo, os demais personagens ganham respeitosas construções de perfis físicos, psicológicos e sociais. O mesmo acontece com as ruas, prédios e a com a “catedral personagem”, minuciosamente descrita pelo autor.

No que diz respeito ao contexto histórico é possível radiografar a dominação burguesa em consonância com aspectos culturais medievais, num enredo escrito e publicado por meio do romance, gênero literário valorizado e representativo da burguesia. Ao longo das 496 páginas da edição brasileira comentada e ilustrada, sob a tradução de Jorge Bastos, podemos acompanhar a fluência de Victor Hugo ao criticar o rumo que a desigualdade econômica dava para as relações sociais da época, bem como a necessidade de reflexão no que diz respeito aos abusos do clero e as generalizações conceituais sobre amor, amizade, etc. Duramente criticada, a Igreja Católica, vista como uma instituição tão poderosa como o Estado, é apontada como abusiva e autoritária, crítica que só um escritor tão privilegiado socialmente poderia fazer sem medo de perder prestígio, e, consequentemente, todos os seus leitores.

O Corcunda de Notre Dame (França/1831)
Autor: Victor Hugo
Editora no Brasil: Zahar
Tradução: Jorge Bastos
Páginas: 496

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.