Crítica | O Cortiço, de Aluísio de Azevedo

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Cortiços: caixas cilíndricas de cortiça, na qual as abelhas fabricam o mel e a cera. Definição dicionarizada da palavra que também se refere a habitações coletivas que foram muito comuns no passado, hoje similares ao que conhecemos por favelas. No Brasil, o crescimento demográfico no século XIX deu origem ao modelo de habitação, os tais cortiços, conhecidos por seus espaços compartilhados repletos de sujeira e condições subumanas de convivência. Muitos combatentes de Canudos, inclusive, ao retornaram do conflito, buscaram refúgio nestes espaços. O termo também nomeia um dos romances mais conhecidos da literatura brasileira, O Cortiço, publicado pelo paraibano Aluísio de Azevedo.

Quando lançado, em 1890, o Brasil passava por reconfigurações na ordem social, tal como várias nações ao redor do planeta. A formação de novos mercados, o trabalho assalariado, o desenvolvimento dos setores secundários e terciários e a definição de novas categorias sociais demarcam os principais acontecimentos do período. É possível perceber esse panorama ao passo que as histórias e personagens se desenvolvem diante do leitor.  Dividida em três partes, a obra consta de 23 capítulos. Especialistas dizem que a inspiração para o ambiente descrito no romance é o cortiço Cabeça de Porco, local demolido em 1893, citado, inclusive, em determinado ponto da história. Estima-se que cerca de quatro mil pessoas viveram no espaço conhecido por suas construções precárias, formadas por vários quartos pequenos e sufocantes, sem cozinha, com banheiros e tanques coletivos.

A chegada de imigrantes, a presença de escravos, as descobertas na área científica, no campo da Química e da Biologia, inclusive, constam no desenvolvimento das histórias de cada personagem do romance. Por meio de um narrador onisciente, o autor julga os personagens a todo tempo, torna-os “bestas” sociais que segundo descrições, sofrem influências do meio, até mesmo do sol, responsável por manter a temperatura num grau que mexe com os comportamentos. Há alguns momentos que o narrador compara a estrutura da habitação com uma floresta, ao animalizar os personagens e traçar paralelos com organismos biológicos que compõe tal espaço que representa justamente a “ausência humana”, isto é, um “organismo” que cresce naturalmente e se desenvolve com todo tipo de “vida”, inclusive as ervas daninhas.

Influenciado por Eça de Queirós e Émile Zola, Aluísio de Azevedo foi um ferrenho crítico dos provincianismos brasileiros, por meio de diálogos corriqueiros e descrições minuciosas do espaço da narrativa, o grande personagem de toda a história. Algumas passagens emblemáticas ilustram bem tais afirmações, como por exemplo, “os olhos do cortiço se abrem”, “o fato abalou o coração do cortiço”, “o cortiço aristocratizava-se”, dentre outras passagens. Delineado de maneira que conseguimos compreender a sua evolução de dentro para fora, de um amontoado de casas ao status de vila, depois avenida, o espaço ganha vida por meio de um exercício nada sutil de figuras de linguagem na composição da malha literária.

Os personagens não são esféricos, mas apenas “criaturas” que circulam pelo espaço narrativo, pois nas palavras do próprio narrador, era “uma aglomeração de machos e fêmeas”, seres que gravitavam em torno do “verdadeiro” personagem da história. Tal como Germinal, de Zola, os personagens em O Cortiço servem de arautos das questões naturalistas que vigoravam na literatura brasileira no período. São muitos os tipos que gravitam em torno da narrativa, mas alguns possuem maior destaque, entre eles, João Romão, um taverneiro português, representante da exploração capitalista; Bertoleza, mulher negra, escrava fugida, quitandeira que trabalha para João Romão, é um ser humano que não perde a condição subalterna ao prestar serviços no ambiente que lhe acolheu; Miranda, principal oponente de João Romão, é outro explorador dos moradores que compõem o local; Pombinha deixa a pureza e se torna uma lésbica prostituta; Piedade, uma esposa recatada e do lar, representante dos valores europeus, companheira de Jerônimo, outro explorado pelas garras do avarento João Romão.

Há várias mulheres que pedem análise, mas Rita Baiana é digna de teses e dissertações acadêmicas, tamanha a encapsulação estereotípica que representa o seu “retrato”. A “muriçoca tonta”, como descreve o autor, é um dos pedaços de descrições que se juntaram na cristalização do imaginário de mulher brasileira, isto é, uma criatura voluptuosa, fogosa e perfumada pelo elixir do sexo. Alegre, gentil, sociável, sensual e sempre sorridente, independente das mazelas da vida, Rita Baiana adora pagode e rodas de samba, espaço por excelência para exalação de toda a sua carga erótica. Segundo Beth Brait no livro A Personagem, a baiana sensual é uma personagem anáfora, isto é, um ser que depende do desenvolvimento do conflito e da relação com outros personagens para ganhar significação na história. Contraponto das mulheres brancas não fogosas ou dotadas de atributos sexuais, Rita Baiana é tida como alguém que “respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas”, uma mulher que constantemente era cercada por “homens, mulheres e crianças”. Popular, a personagem é o protótipo do erotismo e da exaltação da mulher num modelo que ainda ressoa no Brasil, país onde o preconceito é velado.

Tido como alegoria do Brasil e das mudanças sociais, principalmente no Rio de Janeiro, O Cortiço é um marco em nossa história literária também no que tange aos aspectos estilísticos, pois Aluísio de Azevedo, tal como Machado de Assis (salvas as devidas e bem guardadas proporções), experimentou uma liberdade criativa que até então não era conhecida pelo gênero romance na literatura brasileira, ainda incipiente e presa aos formatos estrangeiros. Sem o devido reconhecimento em vida, o autor também é conhecido pelos romances Uma Lágrima de Mulher, Casa de Pensão e O Mulato, todos relatos críticos da sociedade brasileira na segunda metade do século XIX.

Apesar de achar que devemos estudar a literatura sem os padrões fixados pelas análises estruturais (propostas pelos professores que seguem a linha dos pré-vestibulares) creio ser impossível pensar O Cortiço sem resgatar algumas considerações sobre o Naturalismo como corrente literária que ganhou expressão com os experimentalismos de Zola e ecoou para o mundo, ganhando ressonâncias no Brasil por meio de diversas obras bastante significativas. Com críticas sociais focadas na corrupção de determinados valores, o estilo naturalista alinha-se ao rigor científico como análise da realidade e investiga a sociedade recorrendo às observações de fora para dentro, com personagens que tendem a se tornar planos, simplórios (mas não insignificantes) vistos como representantes de fatores biológicos e sociais que determinam as suas existências, criaturas que são acometidas pelas condições hereditárias que as persegue, influenciadas pelo ambiente em que vivem.

O Cortiço (Brasil, 1890)
Autor: Aluísio de Azevedo
Editora: Ática – Série Princípios
Páginas: 232

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.