Crítica | O Corvo, de Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe é um nome que dispensa grandes apresentações para quem conhece o mínimo de literatura e/ou história literária. Escritor conhecido por seu estilo gótico e sombrio, o famoso Poe teve uma vida tão difícil quanto os personagens de seus contos. Respeitado pelo material literário publicado ao longo de sua vida, Poe também se aventurou na filosofia e na crítica, além da publicação de sátiras que derramam acidez por todos os poros. Expoente do período romântico, o autor é catalogado nos livros didáticos e pela crítica especializada como parte do subgênero Dark romanticism, estilo que tem como característica a fascinação por coisas demoníacas e grotescas.

A trajetória de Poe é bem ilustrativa enquanto representação de questões próprias do movimento romântico na literatura. Um dos primeiros contistas da literatura estadunidense, o autor é considerado também um dos precursores da literatura policial e da ficção científica, gênero que mais adiante iria ganhar representantes mais engajados, exploradores de outras facetas do insólito estilo. Conhecido por buscar viver exclusivamente da escrita, Poe enfrentou muitos problemas financeiros e descambou no alcoolismo e em problemas de saúde que estão bem alegorizados em suas produções ficcionais.

O Corvo, análise em questão, é uma dentre tantas histórias fantasmagóricas e nebulosas que ocupam a história da literatura estadunidense no século XIX, tais como O Gato Preto, O Poço e o Pêndulo e O Barril de Amontilado. Publicado em 29 de janeiro de 1845, O Corvo é um poema narrativo sobre um homem atormentado pelas memórias de uma mulher chamada Leonora.  Certa noite ele é visitado por um corvo falante, responsável por lhe revelar algumas verdades. Construído por meio de recursos que nos remetem ao estilo dos ultrarromânticos, O Corvo traduz a idealização do amor e da mulher, o subjetivismo, o egocentrismo, a consciência da solidão e a presença sombria da morte por meio de versos livres. Tecnicamente, o poema é notável por conta da musicalidade e da atmosfera sobrenatural, elementos construídos por meio de rimas internas, jogos fonéticos e métrica exata. Com interjeições que traduzem detidamente algumas expressões verbais, a obsessão pela morte poucas vezes ganhou, no campo da literatura, uma arquitetura poética tão bem delineada, musicalmente estruturada com tanta emoção, originalidade e cuidado com a versificação.

Interessado por temas como a morte e os seus desdobramentos (luto, decomposição e reanimação de pessoas mortas), Poe revela em O Corvo a sua capacidade de narrar, por meio de versos eficientes, a angustiante busca por respostas oriundas da vida diante da morte. O eu-lírico, homem que lamenta a morte da sua amada é, declaradamente, o arquétipo da idealização do amor e da fugacidade da vida, características comuns ao estilo romântico.

Erguido de maneira rígida e complexo como um problema matemático, o poema se desenvolve por meio das rimas e do tom melancólico, recursos que apresentam a morte como algo poético. A gradação, uma das figuras de linguagem mais importantes na concepção estrutural, ambienta o leitor na história contada pelos versos que revelam em camadas a loucura que toma o eu-lírico, numa demonstração eficiente de profundidade psicológica. O “corvo”, inversão fonológica perfeita da palavra “never”, é uma das tantas palavras que dinamizam o ritmo do poema quando lido em inglês.

Material rico para os estudos literários, O Corvo é uma demonstração da quebra do mito da inspiração e no ato da criação. Um poema às vezes é muito mais técnica e planejamento, aliado, obviamente, ao talento do autor. Em seu famoso ensaio A Filosofia da Composição, Edgar Allan Poe tece uma crítica ao artista enquanto gênio, figura que depende única e exclusivamente da inspiração quase mística para entregar uma produção.  Ao longo do texto, vinculado constantemente à leitura do poema, haja vista a sua construção como mote para a realização do ensaio, Poe revela que “é preciso tornar manifesto que nenhum ponto de partida da composição do poema se refere ao acaso ou á intuição”, pois diferente do que se propaga e acredita até os dias atuais, o trabalho em literatura, na maioria das vezes, “caminha passo a passo, com precisão e sequencia rígida de um problema matemático”.

Para Poe, alcançar bons resultados numa realização artística requer muito trabalho. Ao tecer um poema, por exemplo, ele aponta que é preciso dosar calculadamente as emoções, afinal, o aparato psicológico de uma pessoa não consegue suportar doses emocionais intensas por longos períodos. Dentre as discussões, Poe afirma que a “beleza” precisa fazer parte da composição, pois é “a elevação agradável do espírito”, além da necessidade de se pensar a melancolia como o mais legítimo de todos os tons poéticos. É nesse trecho, inclusive, que há um grande destaque para a necessidade de equilíbrio do tom para a construção poética, algo que antecede as suas considerações sobre o eixo do poema, tendo a importância do refrão e o uso de palavras com boa sonoridade como elementos fundamentais para o alcance dos efeitos desejados.

Mais adiante, à guisa de encerramento, Poe traça uma análise sobre a escolha do tema de um poema e considera que não há nada mais belo que a morte de uma bela mulher, observações que foram levadas à exatidão no desenvolvimento da série The Following, protagonizada por Kevin Bacon e James Purefoy, “mocinho” e “bandido”, respectivamente, personagens mergulhados na doentia onda de crimes dos seguidores de um professor de literatura apaixonado por Edgar Allan Poe, em especial, no poema O Corvo.

Traduzido para o português por dois grandes nomes da literatura, Fernando Pessoa e Machado de Assis, O Corvo é uma obra largamente referenciada na cultura pop. Filmes, histórias em quadrinhos, músicas, séries televisivas e outros meios artísticos já traçaram uma relação metalinguística com o poema. Há um especial de Halloween realizado para Os Simpsons que contempla a melancólica composição, num exercício interpretativo bem eficiente e inteligente. Em 1994, a adaptação teve um destino sombrio, pois o ator Brandon Lee, filho de Bruce Lee, expoente do gênero ação e com carreira em ascensão, morreu nos bastidores da produção dirigida por Alex Proyas, após o carregamento indevido de uma arma de fogo durante as filmagens. Outra versão bem conhecida é a dirigida por Roger Corman, uma mistura de horror com humor, protagonizada por Vincent Price, em 1963. Catalogá-las é uma atividade extensa e que foge ao escopo da crítica. Aos interessados, deixo como sugestão a pesquisa. Há bastante material cultural sobre o poema e contempla-los, juntamente com a leitura da obra ponto de partida é algo que sem dúvida deixará um rastro de informações valiosas aos interessados em literatura e cultura.

O Corvo (Estados Unidos, 1845)
Autor: Edgar Allan Poe
Editora no Brasil: DarkSide Books
Tradução: Machado de Assis
Páginas: 816.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.