Crítica | O Corvo
Edgar Allan Poe, poeta e escritor americano, foi encontrado no dia 7 de Outubro de 1849 nas ruas de Baltimore num estado delirante, necessitando urgentemente de auxílio médico. Morto depois de encontrado, mas por causas que permanecem ainda desconhecidas, Edgar Allan Poe é um símbolo da literatura ficcionista, com grande apelo para o mistério e para o macabro. Há quem diga que, nas suas últimas horas, Poe continuava repetindo um único nome sem mencionar a quem estava se referindo: Reynolds. É assim, usando essas três informações, que os roteiristas Bev Livingston e Hannah Shakespeare nos apresentam O Corvo, filme de 2012 que traz como protagonista o mórbido escritor. O problema se concentra no que fizeram de Poe e sua obra durante os 111 minutos de sessão.
Nos Estados Unidos, no ano de 1849, a cidade de Baltimore amanhece com um crime peculiar na capa de seus jornais. Duas moças foram assassinadas sem razão alguma, ambas numa sala que, aparentemente, não possuía saída para o assassino. Como ele conseguiu escapar, então? Mas o estranho não para por aí. A cena do crime é igual ao cenário narrado em Os Assassinatos da Rua Morgue, conto do escritor Edgar Allan Poe (John Cusack). A partir dessa coincidência, o detetive Emmett Fields (Luke Evans) acaba se filiando ao poeta para tentar descobrir quem é o serial killer por trás dos homicídios. Porém, ao mesmo tempo em que a investigação ocorre, o assassino acaba se metendo na vida pessoal do escritor e de sua amada Emily (Alice Eve). A construção do roteiro é criativa, há de se concordar. Mas não se encaixa em nenhum gênero com seu ritmo. Apenas o excesso de sangue não pode colocá-lo como terror, a falta de clímax nas cenas não deixa ele ser ação e nenhum dos personagens pode se encaixar como um drama. O Corvo é um suspense, mas um suspense que não oferece nada para o público se surpreender.
O desenvolvimento do filme não ganha corpo, as ações acontecem de forma rápida demais e quando menos se espera, o desfecho acontece, dando uma base mais fictícia à sessão. O estranho é que esse rumo da ficção é a coisa que soa menos artificial no filme inteiro. A brincadeira de detetive, as mortes misteriosas e as analogias aos poemas não conseguem levantar o ânimo do público de suas cadeiras do cinema, e muito menos as composições de Lucas Vidal. As atuações também não ajudam. John Cusack, bem, é John Cusack novamente, de seus últimos projetos. É um morto em cena, o que de modo algum serviu para caracterizar Poe. A esperança, sendo a última que morre, ainda vê alguma chance de boas interpretações em The Paperboy, novo filme do diretor Lee Daniels. Luke Evans, o outro protagonista, não é muito melhor em cena. Alice Eve consegue trazer muito mais tensão ao público fazendo suas cenas dentro de um caixão. Pena que fora dele ela se mostre tão morta quanto os outros dois. Destaque para as pequenas participações de Brendan Gleeson, Pam Ferris e Kevin McNally. Se há, pelo menos, uma coisa em que O Corvo não peca, é sua produção. A ambientação – cenários que remetem à Inglaterra vitoriana e figurinos impecáveis – está muito boa. Há o excesso da neblina e de tons cinzentos na fotografia de Danny Ruhlmann, o que acaba vindo a calhar para o rumo que a fita segue.
O roteiro peca nas referências excessivas ao escritor, com obras como O Mistério de Marie Rogêt, O Barril de Amontillado e A Máscara da Morte Rubra sendo citados à exaustão a cada momento da fita. O difícil é associar as diferentes figuras a cada um. A espera do escritor em sua forma romântica é infrutífera. Edgar Allan Poe aqui surge mais como um protagonista, seja pela entonação do personagem, as posturas e ações combinadas com a trilha sonora ou a atuação de John Cusack, que não consegue se encontrar numa boa oportunidade desde Quero Ser John Malkovich ou Alta Fidelidade. Qualquer registro da morbidez do autor é escondida atrás de sua tentativa de ser um Sherlock Holmes. A diferença é que o que Robert Downey Jr. fez com seu Sherlock Holmes foi realmente transformá-lo num super herói da Marvel. O que John Cusack fez com seu Edgar Allan Poe foi apenas movê-lo pelas ruas de Baltimore com um olhar sisudo em sua cara. Se o que O Corvo fez foi mostrar um escritor que perde o domínio de sua obra, ele conseguiu. Edgar Allan Poe deve estar se revirando em seu caixão.












