Crítica | O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queirós

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estrelas 4

Considerado o primeiro romance realista em língua portuguesa, O Crime do Padre Amaro traz em seu conteúdo uma série de características que comprovam a busca do escritor Eça de Queirós, que também era diplomata, em realizar para a literatura da época, o rompimento com as ideias do movimento romântico, tendo em vista incorporar os métodos de observação científica da realidade através da arte. Entre as propostas, buscava-se aderência ao contemporâneo e em sua caracterização, o escritor tinha como tarefa, posicionar-se criticamente a favor da reforma social, principalmente por conta da influência das ideias positivistas de Auguste Comte, em voga na época.

De acordo com a historiografia literária “oficial”, o realismo em Portugal surge mediante uma revolução intelectual que pretendia renegar e se opor aos ideais românticos. Coimbra, na época, era uma cidade repleta de estudantes e vista como ponto crucial para as modificações almejadas por este movimento de cunho revolucionário. Por conta dos centros de estudos localizados nesta cidade, as conferências e demais encontros aconteciam por lá e ganhavam ecos por todo o país. Os autores deste período tinham em mente “renegar a arte pela arte” e colocar a literatura à serviço da sociedade, sendo O Crime do Padre Amaro uma das obras que conseguiu estabelecer este panorama de mudanças.

Por ter sido nomeado membro administrativo da região onde a história se desenvolve, Eça de Queirós analisou o espaço e o povo durante seis meses, para mais adiante, esboçar o seu “romance-tese”. Na obra somos apresentados ao tórrido romance entre o Padre Amaro e a jovem Amélia, envoltos num ambiente onde o papel da religião é o ponto nevrálgico das discussões durante cada página da obra que trata, de maneira trágica, o amor entre uma jovem de 23 anos e o padre que, destinado a um posto que nunca almejou para si próprio, envolve-se numa perigosa relação que não termina nada bem: o resultado do namoro proibido é uma gravidez indesejada que resulta em um aborto responsável por ceifar a vida da moça.

Com um narrador cheio de adjetivos agressivos, a obra cumpriu bem o seu papel anticlerical, numa denúncia contundente aos problemas que o misticismo e a educação religiosa provavelmente promoviam numa sociedade regida por hipocrisias. Eça de Queirós tece as suas críticas por intermédio de um narrador onisciente que delineia os seus personagens de maneira bastante detalhista.  É um momento na literatura portuguesa que os “romances de entretenimento” declinam, em prol dos “romances de tese”, repletos de modelos comportamentais naturalistas.

Enquanto Amélia é desenhada como uma moça ingênua e vítima do meio em que vive (bem característico do naturalismo literário), o Padre Amaro é apresentado como um rapaz sem escrúpulos e sentimentos. Não é a toa que depois da tragédia envolvendo o aborto ele continua a exercer às suas atividades religiosas, como se nada tivesse acontecido. Sensuais desde jovens, os personagens mesclam religiosidade e sexualidade, sem a distinção dicotômica típica do ambiente cristão. Amaro desde criança olhava para as imagens da Virgem Santa e se excitava com as suas formas.

Os personagens coadjuvantes exercem bastante influência na história central. Segundo alguns especialistas, eles ocupam espaço de importância porque são os responsáveis por incitar os personagens centrais na execução de algumas ações. São Joaneira é a mãe de Amélia, beata que hospeda o jovem Amaro e mantém um caso com Cônego Dias, homem moralista que não cumpre metade do que dita para os fieis da igreja. Ele é um dos responsáveis por manter em sigilo, a gravidez de Amélia.

Neste painel de tipos corrompidos pelo espaço onde circulam, há ainda Totó, uma paralítica que serviu de disfarce para Amélia se encontrar com Amaro, pois a moça alegava que ensinava o catecismo para a garota, quando na verdade se encontrava às escondidas com o padre; Dr. Gouveia, médico da cidade, também tem a sua parcela de crítica, tal como Tio Esgelhas, o dono da casa onde os jovens se encontravam. Libaninho exerce pouca influência, mas é o personagem efeminado da história, numa possível análise dos comportamentos sociais e sexuais que na época eram tabus.

O romance teve três versões. A primeira foi através da Revista Ocidental, veículo que publicou sem a devida autorização do autor, a história em folhetins. A segunda edição saiu em livro, com melhor acabamento, mas apenas em 1880 é que Eça de Queirós conseguiria finalizar O Crime do Padre Amaro, dando o arremate em alguns elementos, deixando-a como conhecemos atualmente.

A crítica em foco era a corrupção do catolicismo e a quebra do celibato, mas entre os demais temas, podemos destacar a maledicência, o vazio interior de seus personagens, o poder exercido pela religião na vida das pessoas, ao reger comportamentos, bem como a contraposição dos pobres em relação aos abastados pobres que circulavam pela sociedade, clamando por assistência.

Há duas adaptações diretas do livro: em 2002, o mexicano Carlos Carrera dirigiu o roteiro de Vicente Leñero, sendo um dos indicados ao Oscar e Melhor Filme Estrangeiro; em 2005, o cineasta português Carlos Coelho da Silva assumiu o posto de direção, tendo como base o roteiro de Vera Sacramento. Enquanto a adaptação mexicana trouxe o romance para o contemporâneo, a versão portuguesa permaneceu dentro do território do romance, com leves alterações.

Quando publicado, O Crime do Padre Amaro causou rebuliço na sociedade, principalmente por conta dos movimentos da igreja, revoltada com a forma de representação moldada por Eça de Queirós.  Aclamado, o romance é tido como um documento humano da sociedade portuguesa da época. Ponto alto da carreira literária de Eça de Queirós, o trágico desfecho do relacionamento proibido entre Amaro e Amélia é também um dos romances que fazem parte do estreito, elitista e exclusivista cânone literário mundial, uma “crítica” social das boas.

O Crime do Padre Amaro (Portugal, 1878)
Autor: Eça de Queirós.
Editora: Ática – Série Princípios
Páginas: 375.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.