Crítica | O Crítico (2013)

estrelas 3

Ao dizer que “todas as cartas de amor são ridículas”, Fernando Pessoa, expoente da literatura de língua portuguesa que teve o seu poema adaptado para a performance arrasadora de Maria Bethânia, poderia ter a sua criação como linha fina ou epígrafe deste texto. O Crítico, comédia com toques dramáticos pouco acadêmicos, aborda o mundo dos profissionais responsáveis por ligar o cinema ao público, tendo em mira temas como o fim do cinema, a cefaleia das comédias românticas repetitivas e os estereótipos que gravitam em torno de uma determinada imagem que se tem sobre o crítico de cinema, uma “besta” a ser exaurida, uma fera arrogante que precisa ser domesticada, dentre outras alcunhas.

A narrativa aborda o mundo de Victor Tellez (Rafael Spregel), um crítico de cinema exigente e muito prestigiado. Chato, implicante, pessimista e arrogante, o personagem possui em seu histórico um divórcio recente, além de ser conhecido por odiar comédias românticas. Assim como muitos críticos de vanguarda, inclusive os brasileiros, acredita que o cinema acabou e tem como referência os filmes da Nouvelle Vague.

Para Victor, a saída de emergência das salas de cinema não foram criadas para incêndio, mas para os espectadores fugirem dos filmes ruins. Ao investir na metalinguagem, O Crítico nos envolve com situações típicas da vida destes profissionais amados e tidos como referência para uns, mas odiados por outros. O diretor, em sua primeira investida fora do mundo da editoração e da produção de textos, consegue radiografar o cenário que o roteiro se propõe a abordar, mas não consegue fugir das pitadas de “chatice” que envolvem a narrativa. Uma pequena falha num mundo de abalos sísmicos narrativos, entretanto, nada que estrague a proposta.

Os clichês são exagerados, mas de forma proposital, pois logo são exibidos na trama em tom de discussão. Como não poderia faltar, há a discussão que se tornará, um dia, milenar, sobre realizadores e críticos. “Levo cinco anos para fazer um filme e você o destrói em cinco minutos”, diz um personagem Arce (Ignacio Rogers), um diretor de cinema novato que tem o seu primeiro filme literalmente massacrado pelo crítico. Discussão comum dentro do campo da reflexão cinematográfica, este tema é tangenciado no filme, uma produção sobre o embate da crítica no exercício de realização da tarefa do crítico.

Cabe ressaltar que Victor não é mau humorado só por ser um pretensioso crítico de cinema exigente, alguém que se sente privilegiado por uma dita superioridade intelectual: ele também sofreu com o último relacionamento e atualmente encontra-se fascinado por Sofia (Dolores Fonzi), uma bela moça interessada em comédias românticas. É nesse ponto que o filme dá o seu “giro”, o ponto de virada, pois será preciso observar que não se vive apenas no campo da objetividade, e assim, o amor vai tocar o ranzinza, fazendo-o mudar de comportamento e tornar-se mais otimista. As tais cartas de amor não parecem ridículas, neste ponto do enredo, pois “o amor está no ar”.

Outro personagem que gravita em torno de Victor é a sua sobrinha Agatha (Telma Crisante), uma adolescente que trabalha em uma locadora de filmes. Apesar de ser pouco aproveitada pela trama, é um dos itens pulverizados para discussão posteriores ao filme. Com cenas no Chile e na Argentina, O Crítico funciona como uma comédia mediana, envolve os interessados no drama, promove um debate entre os profissionais da crítica e ainda trata de questões como a realização cinematográfica.

Se tivesse focado apenas no lado intelectual, seria uma produção apenas para críticos, mas o filme vai além. Ao longo dos seus 98 minutos, é preciso observar dois aspectos: será que a metalinguagem não oprime, ao invés de libertar?  Será que essa seria uma forma covarde de não se filiar ao gênero? São questões que prefiro deixar para os leitores, afinal, sendo a crítica de cinema um gênero discursivo que liga o cinema ao público, é preciso deixar espaço para o debate e a reflexão dos leitores, espectadores e internautas que nos acompanham.

Em suma, como pedem as narrativas metalinguísticas, há referências ao cinema, principalmente ao gênero comédia romântica: numa cena de beijo, fogos de artificio e uma música melódica adornam a encenação, além do cartaz do filme, uma clara referência ao divertido e inteligente Um Lugar Chamado Notting Hill. Apesar de não ser “o filme”, a produção interessa aos que gostam de um debate sobre a indústria do cinema.

Com péssima distribuição, é um filme relegado ao academicismo, aos festivais e com pouco apelo comercial, algo lamentável, assim como a sua restrita disponibilidade de exibição nos cinemas na época de seu lançamento no Brasil. Essa questão, inclusive, nos leva a acreditar no que o protagonista diz sobre a indústria do cinema atual se preocupar com a venda de pipoca e de produtos associados aos filmes. Um veredicto cinéfilo interessante.

O Crítico (El Critico, Argentina/Chile – 2013)
Direção: Hernan Guerschuny
Roteiro: Hernan Guerschuny
Elenco: Rafael Spregel, Dolores Fonzi, Ignacio Rogers, Telma Crisanti, Rafael Spregelurd, Ana Katz, Daniel Kargieman, Eduardo Iáccono, Marcelo Subiotto
Duração: 98 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.