Crítica | O Curioso Caso de Benjamin Button

estrelas 3,5

Poucos filmes me deixaram tão na dúvida se gostei ou não gostei dele como O Curioso Caso de Benjamin Button. Isso na primeira vez que assisti, claro. Agora, revendo para escrever a presente crítica, reparo que o filme, com uma história de desafia o tempo, permanece também à prova dele, com David Fincher obtendo outro triunfo visual, dessa vez muito mais dependente de efeitos em computação gráfica do que talvez todo o conjunto anterior de sua obra.

Usando o que aprendeu em Clube da Luta, O Quarto do Pânico e Zodíaco em termos de mesclagem absoluta de efeitos visuais gerados em computador com efeitos práticos, Fincher parece perfeitamente descontraído em colocar nas telas a história de um homem que nasce velho vai rejuvenescendo com o tempo. Essa “involução” de Benjamin (Brad Pitt, na terceira parceria com Fincher) e, por outro lado, o envelhecimento dos demais personagens, misturando efeitos práticos de maquiagem com efeitos de computação gráfica são inacreditáveis, lembrando muito os brilhantes efeitos de Forrest Gump, ainda que, por diversos momentos, o “efeito cabeção”, que “cola” o rosto envelhecido de Pitt no corpo de um dublê, incomode bastante. Aliás, falando em Forrest Gump, a própria história de Benjamin se confunde um pouco com a de Forrest, já que ambos atravessam décadas participando, de uma forma ou de outra, de vários momentos históricos importantes (não coincidentemente, o roteirista de Forrest Gump, Eric Roth, é o mesmo do filme de Fincher).

Aliás, a história, baseada em estranho conto de F. Scott Fitzgerald, prende o espectador durante a saga da vida de Benjamin, que começa com um parto complicado em que sua mãe morre, o abandono de seu pai, em vista de sua aparência assustadora (todo enrugado e enrijecido) em um asilo de idosos em New Orleans. Lá, ele é adotado por Queenie (Taraji P. Henson), uma negra que cuida dos idosos e que logo descobre que Benjamin, na verdade, nasceu velho e vai rejuvenescendo a cada dia. Benjamin, em idade avançada, apaixona-se pela menina Claire (que, adulta, seria vivida por Cate Blanchett), reencontrando-a quando ele está mais novo 20 anos e ela mais velha 20 anos. Trata-se de uma longa e melancólica história de amor (materno e entre homem e mulher) sob um olhar melancólico, um tanto finalista e recheado de reflexões sobre vida e morte, experiência e inocência, juventude e velhice.

O elenco, que além de Brad Pitt, conta com Cate Blanchett, Tilda Swinton como Elizabeth, esposa de um diplomata inglês na União Soviética e amante de Benjamin e Jarred Harris como o mentor de Benjamin, Captain Mike, além da citada Taraji P. Henson, funciona muito bem, em uma espécie de conjunto harmônico que serve muito bem ao propósito da historia.

E essa história, que poderia muito bem ser encarada como um conto-de-fadas, em vista do inusitado e dos filtros suaves, de sonho, da fotografia de Claudio Miranda (As Aventuras de Pi), carrega uma aura de lição de moral sobre a vida e também de história, ao longo das décadas em que ela se desenrola a partir dos anos 20 até quase hoje em dia, passando pela Segunda Guerra Mundial, cidades como Nova Iorque e países como a Índia.

No entanto, o filme, que obviamente trata, dentre outros assuntos e sob as lentes de uma história de amor, sobre nossa relação com a morte e sobre como o tempo é inexorável, não perdoando ninguém, é bastante repetitivo, ao ponto da exaustão. Creio que, também, a escolha de Fincher de iniciar o filme no presente, com Cate Blanchett em seu leito de morte, na época da chegada do furacão Katrina em New Orleans, não foi muito feliz.

A questão é que, com isso, Fincher, apesar da montagem de Kirk Baxter e Angus Wall, quebra a narrativa de Benjamin, que é lida pela filha de Cate Blanchett no diário dele. Por muitas vezes, o diretor para a história e volta ao presente, tornando o ritmo do filme um tanto quanto claudicante. E isso fica ainda mais evidente quando a obra se recusa a acabar, arrastando a temática por bem mais tempo que deveria, mesmo considerando seu tom épico. O filme teria se beneficiado de um roteiro mais econômico e objetivo, que permitisse que Fincher tratasse mais fluidamente a progressão da história.

Mas, claro, os defeitos do filme perdem um pouco sua força quando nos deparamos com o esforço do diretor em retratar tudo com perfeição, com figurinos, sotaques, set dressings e iluminação perfeitos. A história, para lá de original, também ajuda muito, com momentos comoventes, mas talvez não tanto como se poderia esperar de filmes com essa abordagem, o que é tanto uma bênção como uma maldição, diria).

Não há dúvidas que David Fincher fez outra obra digna de nota, mas que, porém, talvez  seja mais inesquecível para alguns do que para outros.

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA – 2008)
Direção: David Fincher
Roteiro: Eric Roth (baseado em conto de F. Scott Fitzgerald)
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Julia Ormond, Faune A. Chambers, Elias Koteas, Donna Duplantier, Jacob Tolano, Earl Maddox, Ed Metzger, Jason Flemyng, Taraji P. Henson
Duração: 166 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.