Crítica | O Dançarino do Deserto

estrelas 3

O país: Irã. O ano: 2009. O cenário: a eleição presidencial. Os temas: arte, dança, liberdade de expressão e censura. A cereja do bolo? A famosa frase baseado em fatos reais. Se uma coisa que O Dançarino do Deserto tem é material para fazer um filme inesquecível. Mas será que essa é a impressão que fica?

Afshin Ghaffarian é um rapaz que desde pequeno se interessava por artes e dança, mas, no país onde vive, toda e qualquer forma de arte é terminantemente proibida – e quem for pego colocando-a em prática é punido severamente. Influenciado por dançarinos como Rudolf Nureyev, Michael Jackson e Gene Kelly, Afshin decide desafiar o sistema e abrir uma companhia de dança, junto com alguns amigos da universidade.

A ambientação e retratação da censura no Irã é feita de forma competente. O diretor Richard Raymond mostra, bem diretamente, muitas formas nas quais os iranianos sofrem essa repressão cultural: as boates são extremamente secretas, escondidas; casas de cultura são vandalizadas constantemente, assim como manifestações artísticas dentro de universidades; os Basij, “a polícia da moral”, vigia todos os cidadãos atentamente, e castigam no ato aqueles que infringirem as leis. Em meio a tudo isso, vemos a população – principalmente os universitários – engajada em diversos protestos políticos.

É facilmente perceptível o potencial de O Dançarino do Deserto. A história de luta contra a censura e a repressão cativa o espectador logo de cara – ainda mais nos tempos atuais –, juntamente com o contexto político e o velho recado nunca desista dos seus sonhos. Parece a fórmula perfeita. Porém, o roteiro de Jon Croker, raso como um pires, nos faz lembrar uma novela das oito: os temas são interessantíssimos e poderiam render ótimos momentos, mas os personagens e as situações são desenvolvidos da menor forma possível.

O Dançarino do Deserto é um filme que quer falar sobre dança, mas o faz superficialmente – ainda que apresente números belíssimos de balé; quer falar sobre política, mas se atém a cenas de passeatas e pequenos vilões sem importância para criar clímax e antagonismo; quer falar sobre defesa de ideais, mas seus personagens não são desenvolvidos o suficiente para nos convencer. Fica tudo apenas na boa intenção, infelizmente.

A direção de Richard Raymond, porém, passa longe de ser amadora. O diretor sabe extrair o melhor das cenas de dança, assim como da paisagem iraniana. A fotografia do filme é impressionante e dialoga muito bem com as apresentações de balé. Raymond também consegue extrair um bom trabalho dos atores, que, infelizmente, poderiam apresentar muito mais se não fosse o roteiro apressado e falho.

Quando a tela escurece e os créditos sobem, a impressão que fica é que O Dançarino do Deserto poderia – e deveria! – ser muito mais do é. A história de vida de Afshin Ghaffarian toca em pontos interessantes e temas muito pertinentes à sociedade, porém, parece que justamente por serem muitos, o roteirista não soube lidar com todos em um filme de 1h40min. Logo, o longa de Richard Raymond termina sendo extremamente bem intencionado, mas não consegue alcançar seu verdadeiro potencial. Uma pena, poderia ter feito história.

O Dançarino do Deserto (Desert Dancer) – Reino Unido, 2014
Direção: Richard Raymond
Roteiro: Jon Croker
Elenco: Reece Ritchie, Freida Pinto, Tom Cullen, Nazanin Boniadi, Marama Corlett, Akin Gazi
Duração: 104 min.

ANDRÉ DE OLIVEIRA . . . . Estudante de Letras e aspirante a jornalista. Ainda se impressiona com o fato de curtir, na mesma intensidade, do cult ao pop; do clássico ao contemporâneo; do canônico ao best-seller. Usa camisa do Arctic Monkeys — sua banda favorita —, mas nada impede que esteja tocando Nicki Minaj no fone de ouvido. Termina de ler Harry Potter e começa um Dostoévski. Assiste Psicose e depois dá play em Transformers. Não tente entender. @andreoliveeira