Crítica | O Destino de Júpiter

estrelas 1,5

Dezesseis anos se passaram desde a estreia de Matrix e os irmãos Wachowski continuam a se apoiar no legado de sua (única) obra-prima – algo completamente plausível não só pela qualidade da obra em questão, como pelo fato de nenhuma das criações posteriores dos diretores/roteiristas terem vingado (à exceção do roteiro de V de Vingança). Andy e Lana, portanto, contam com apenas dois filmes, dirigidos por eles, merecedores de destaque, um deles seu primeiro, Ligadas pelo Desejo e a já citada ficção científica. A volta dos realizadores para o sci-fi, naturalmente, traria inúmeras comparações do público em relação à saga de Neo, criando a inevitável indagação: será O Destino de Júpiter um novo Matrix? Felizmente (ou infelizmente, não sei dizer) a resposta é não.

Júpiter (Mila Kunis) é uma garota que detesta sua vida e o roteiro procura deixar isso bem claro inserindo uma desconfortável voz em off de Mila nos contando não só uma história desnecessária da garota – que jamais é utilizada apropriadamente ao longo do filme – como para nos dizer o que já vemos em tela. A constatação do óbvio, felizmente, dura pouco, mas os problemas da obra começam a aumentar. Partimos para um outro ponto de vista em outro planeta para presenciarmos um diálogo críptico entre três irmãos da família Abrasax, que aparentemente estão em um feudo familiar disputando a herança deixada pela mãe. O foco, então, volta para Júpiter que acaba se envolvendo nessa briga pelo simples fato da Terra ser, de fato, uma espécie de fazenda, onde os humanos são cultivados a fim de serem extraídos e processados em uma forma de líquido que garante vida eterna para as civilizações mais avançadas. Tirada do planeta por Caine Wise (Channing Tatum) ambos devem descobrir uma forma de acabar com a colheita de nosso planeta.

Vamos recapitular agora, tirando um pouco dos floreios dessa louca ficção científica. Os humanos são utilizados como fonte de energia por algo ou alguém mais avançado, a raça inteira é alienada a isso, tirando alguns dissidentes, temos um protagonista infeliz com sua condição atual que quer deixar sua vida para trás, esse alguém, contudo, não é qualquer um é um indivíduo de alta importância, um “escolhido”. Isso lembra algum outro filme não?

O Destino de Júpiter é um típico caso de megalomania. Os Wachowski não se contentaram com uma relativa simplicidade, uma história mais linear e procuraram inserir uma overdose de elementos em pouco mais de duas horas de duração. Diversos conceitos apresentados são interessantes, mas acabam se perdendo pela efemeridade com os quais são apresentados – são personagens e locais desperdiçados, enquanto alguns detalhes – como a família de Júpiter – ganham uma desnecessária super-exposição que apenas aumenta o grau de artificialidade da trama. Nesse quesito o que mais grita aos olhos é a forma como cada um dos antagonistas é jogado de lado após sua “derrota”, como em uma espécie de videogame onde vencemos um chefe e pulamos para o próximo, esquecendo totalmente o anterior. Aqui não tenho como não falar sobre a perturbadora retratação de Balem Abrasax por Eddie Redmayne. O ator é simplesmente uma caricatura ambulante, algo completamente inacreditável que chega a nos deixar surpresos quando comparado a seu trabalho em A Teoria de Tudo.

Nenhum dos personagens, contudo, consegue nos causar um desconforto tão grande quanto Júpiter e Caine. Apesar de ser a protagonista, a “escolhida” não faz absolutamente nada durante o filme inteiro, funcionando apenas como princesa em perigo para ser resgatada por Caine inúmeras vezes. A repetição é gritante e realmente resume a trama a apenas isso. Para piorar um óbvio romance é inserido entre os dois que consegue trazer mais artificialidade que Redmayne.

Nem tudo, porém, são desgraças dentro do filme. Como já dito alguns conceitos são realmente interessantes, em especial o de imortalidade, ainda que reciclado de Matrix. A escolha de um visual mais fantasioso, brilhante e menos escuro funciona a favor do filme, lembrando um pouco do que vimos em Guardiões da Galáxia. Diversos cenários realmente chamam a atenção e somente aumentam nossa angústia pelo filme não ter saído como esperávamos. É claro que tudo isso é desperdiçado quando entramos nas sequências de ação que são tão confusas quanto Transformers a ponto de deixar o espectador perplexo de como aquilo pode ter saído do papel. Os comuns erros dos filme de ação contemporâneos estão todos aí: montagem frenética, câmera inquieta e efeitos especiais que não acabam mais.

É difícil imaginar o que se passava na cabeça dos Wachowski ao fazerem O Destino de Júpiter – claramente morderam mais do que podiam mastigar e nos entregaram o filme mal-acabado que desperdiça praticamente todos os seus aspectos positivos. Artificial e genérico, ainda estamos longe de assistir um novo Matrix e, provavelmente, isso é para o melhor.

O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending – EUA, 2015)
Direção:
Andy Wachowski, Lana Wachowski
Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski
Elenco: Mila Kunis, Channing Tatum, Eddie Redmayne, Sean Bean, Douglas Booth, Tuppence Middleton, Nikki Amuka-Bird
Duração: 127 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.