Crítica | O Destino de Uma Nação

Contar a história de uma figura tão reconhecida e relevante para a história do mundo não é uma tarefa fácil. Traçar um roteiro que condense uma trajetória inteira em um único filme, trazendo em conjunto uma narrativa cinematograficamente hábil é, senão impossível, improvável de ser feito majestosamente. O caminho que se opta majoritariamente nesse caso é o recorte, o qual traz possibilidades mais abrangentes a serem exploradas, possivelmente incorporando na obra tanto um estudo de personagem interessante quanto uma revisitação histórica crível, além de um enredo convincente, com propósito, que busca fornecer um delineamento substancial da essência do que é recortado. Dessa forma, esta segunda abordagem de Winston Churchill em 2017, além de ChurchillO Destino de Uma Nação é uma curta estrada que somos convidados a percorrer pelas primeiras semanas do primeiro-ministro britânico a serviço do Reino Unido no exato cargo que lhe tornou mundialmente famoso. Depois da renúncia de Neville Chamberlain (Ronald Pickup), movido por pressão política diante do fracasso de se impedir o avanço brutal da Alemanha sobre a Europa, o notável orador (Gary Oldman), agora com um poder assombroso nas mãos, deve enfrentar dilemas exaustivos a fim de garantir a integridade do seu povo e dos seus aliados. Com Hitler perto de chegar na porta de entrada para o Reino Unido, diversas respostas são colocadas desesperadamente na mesa, muitos jogadores tramam os próximos movimentos do governo e soldados perecem sacrificando-se pelo bem da Coroa e de seu reino.

Em um primeiro plano, é curioso que a interpretação de figuras britânicas de renome seja, aparentemente, um caminho menos conturbado para a conquista do Oscar. Dentre alguns dos últimos vencedores, Helen Mirren, Meryl Streep e Colin Firth voltaram da cerimônia com o pequeno, mas majestoso homem dourado. Se depender unicamente do seu talento profissional, Gary Oldman terá sua consagração com O Destino de Uma Nação, tendo em vista essa espetacular interpretação, corrijo, encarnação de Winston Churchill. O primeiro-ministro é humanizado consideravelmente pelo roteiro de Anthony McCarten, mas o trabalho de realismo fica severamente verdadeiro quando nos deparamos com a atuação de Oldman. Apesar disso, a direção tem um papel fundamental na quebra da mística envolta do protagonista, trazendo um contraponto muito inteligente do mito em relação ao homem. Assim que começa o longa, após uma tomada aérea interessante dentro do Parlamento Britânico, a cadeira do político encontra-se vaga, incitando a curiosidade do espectador. Um pouco depois, com a apresentação da secretária Elizabeth Layton (Lily James), o homem prestes a se tornar primeiro-ministro é enfim revelado nos meandros da escuridão. A ausência de iluminação dá margem para que o fogo que acende o charuto de Churchill enalteça a figura por detrás do homem. Quando o realce é apagado em consequência da retomada da luz, o pequeno vislumbre da face envelhecida do velho finalmente revela o homem à frente daquela figura, diferentemente de como a chama sugeriu primeiramente, nenhum pouco intocável.

Com todas as peças colocadas no lugar certo, reservo-me no direito de categorizar Oldman e sua interpretação como digna de um lugar no panteão das mais sensacionais encarnações de figuras políticas já feitas. Isso se dá por diversos motivos, mas, para começar uma listagem das maravilhas alcançadas pela performance do ator, é indiscutível que o mesmo consiga proferir os poderosos discursos de Churchill com uma intensidade muito similar ao do ex-primeiro-ministro em vida. É acertada a escolha dos realizadores da obra em encerrar o filme com o histórico “We shall fight on the beaches”, um momento aclamadíssimo que é, em uma jogada de paralelismo do diretor Joe Wright, antagonizado em relação a primeiríssima manifestação oral do primeiro-ministro. Aliás, durante todo o percurso do longa, Wright demonstra ter um controle perfeito da câmera e das suas possibilidades, usando-a em determinado momento, auxiliado é claro pela montagem de Valerio Bonelli, para transformar um cenário devastador de guerra no rosto de um soldado abatido. Outrossim, a fotografia de Bruno Delbonnel é uma engrenagem fundamental a colaborar na intenção que se teve de dar mais profundidade dramática e estética aos planos do filme. Nesse caso, um dos grandes acertos de O Destino de Uma Nação é colocar o protagonista literalmente no centro da obra, dando espaço de sobra para Oldman brilhar. Dado o planejamento de uma simetria visual hipnotizante, vide a ligação telefônica entre este e Franklin D. Roosevelt (David Strathairn), dentro das Salas da Guerra a atmosfera soturna é deveras desacolhedora, garantindo composições cinematográficas bastante eficientes tanto na imagem quanto no propósito. Tendo em vista que o filme encontra-se situado na maior parte do seu tempo dentro de cenários internos, a cenografia casa muito bem com o restante da estrutura fílmica para dar vivacidade aos ambientes, até mesmo os mais inóspitos, funcionando como mais um pedaço coeso deste trabalho cinematográfico.

Ao mesmo tempo, retomando um ponto anterior, é com esses discursos atemporais que percebemos o trabalho de voz magnífico de Gary Oldman, o qual se assemelha muito com a fala de Churchill na vida real. Outro acerto dessa atuação, no que tange a caracterização do político, encontra-se nos maneirismos do personagem, transmitidos de forma orgânica, sem transparecer uma caricatura, equívoco cometido em algumas aventuras de atores por papéis “parecidos” com este. Além disso, Oldman revela um Churchill mais leve quando traz risos para a plateia, os quais não baseiam-se em piadinhas de alívio cômico, mas em um humor alocado na verdade e na honestidade de suas palavras, tanto na vida doméstica quanto na vida pública. É por isso que a ideia de um momento chave da obra ser o enfoque dado em algumas mentiras proferidas pelo primeiro-ministro ao povo funciona perfeitamente; mentiras estas criticadas pelo Rei George VI (Ben Mendelsohn), um personagem que, aliado ao seu intérprete, desenvolve camadas menos superficiais e traz, na relação com Churchill, um diálogo final bem produzido. Afinal, no que se refere a um homem conhecido por deixar a verdade transparecer em seus discursos, tais atitudes certamente atacam sua integridade moral (se bem que moralmente falando o político não seja a pessoa mais íntegra de todas). Para finalizar, é imprescindível que o trabalho de figurino e, mais do que tudo, de maquiagem sejam enaltecidos. De maneira muito espetacular, todo o trabalho dessa equipe encaixa-se perfeitamente com a atuação de Oldman, colaborando para a história e para a fidelidade desta com os aspectos históricos, sem ser apenas um ornamento estético excepcionalmente bem produzido.

Todavia, o filme perde muita a força que tinha inicialmente quando nos deparamos com as evidentes falhas de seu roteiro. Dentre todas estas, a maior que deve ser comentada é a cena na estação do metrô, usada como ponto de virada importantíssimo para a história. Tal segmento nos fornece um gosto amargo e confuso de artificialidade, a qual encontra-se exposta inteiramente nessa tentativa do filme em exprimir um vínculo entre povo e governo, o qual acaba sendo, devido essa cena, extremamente bobo e ingênuo. Fora isso, também podemos perceber que, apesar de muito bem interpretada por Kristin Scott Thomas, a mulher do político, Clementine Churchill, não recebe a atenção que merecia, sendo relegada a fazer comentários sobre uma crise financeira sem nenhuma relevância para a história do filme. O mesmo não pode ser dito de Lily James, a qual, diferentemente de Kristin Scott, sai de cena sem nem mesmo justificar sua mera existência. Sendo assim, neste filme que tinha tudo para ser um drama biográfico do mais alto escalão, o saldo, apesar de positivo, não é coerente, especialmente no que permeia o roteiro, com as espetaculares atuações da obra. Diferentemente dos 300.000 soldados que estavam em Dunkirk, O Destino de Uma Nação morre na praia. Porém, mesmo com seus altos e baixos – e olha que estamos falando da atuação extraordinária de Gary Oldman como um dos pontos altos – esta é uma obra que ainda assim consegue alcançar a tão estimada vitória a todo custo de Churchill, mesmo faltando um pouco de sangue, trabalho, lágrimas e suor nessa produção que podia ser muito mais grandiosa.

O Destino de Uma Nação (Darkest Hour) – Reino Unido, 2017
Direção: 
Joe Wright
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Lily James, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Nicholas Jones, Samuel West, David Strathairn, Richard Lumsden, Jeremy Child, Malcolm Storry, David Schofield, Adrian Rawlins, Benjamin Whitrow
Duração: 125 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.