Crítica | O Dia do Atentado

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estrelas 4

Filmes que lidam com tragédias reais normalmente seguem a fórmula padrão de apresentar breves biografias romanceadas dos personagens reais ou fictícios envolvidos no acontecimento de forma a tragar o espectador emocionalmente para o vindouro grande momento. Depois que, então, a desgraça acontece diante das câmeras, dependendo de sua natureza a obra caminha ao seu desfecho em que observamos os efeitos em cada um daqueles que foram apresentados no início ou há algum tipo de investigação policial e/ou perseguição. É uma fórmula já cansada, mas que pode gerar resultados em mãos hábeis.

E este é, felizmente, o caso de O Dia do Atentado, dirigido e co-escrito por Peter Berg, o segundo filme dele sobre uma tragédia verdadeira em um mesmo ano e com Mark Wahlberg como protagonista (o outro foi Horizonte Profundo: Desastre no Golfo). Abordando o atentado terrorista durante a maratona de Boston em 2013 e baseado no livro Boston Strong, frase criada para marcar a recusa dos bostonianos em se submeter ao terror, Berg pega a fórmula básica de filmes assim e a altera um pouco, reduzindo o foco na construção dos personagens antes das explosões.

O que ele faz, na verdade, é criar um personagem fictício, o sargento de polícia Tommy Saunders vivido por Wahlberg (natural de Boston, vale lembrar) para encapsular as características e anseios de uma cidade e de um país, para resumir a resistência a atos covardes como o que seu personagem testemunha na zona de chegada da corrida. E, ainda que muitos possam virar o rosto para o que pode parecer mais um filme ufanista americano, vale um exercício de imaginação aqui, colocando-se no lugar de um cidadão de alguma cidade – Paris, Hurghada, Londres, Bruxelas, Istambul – que tenha passado pelo mesmo, seja em que lugar for. O sentimento ufanista aflorará sem dúvida alguma e não há que se falar aqui em exagero de Berg. Aliás, ele cuida muito bem dessa questão, lidando com tudo de forma serena, prática e sobretudo envolvente, mantendo o espectador tenso até o final, mesmo considerando que a maioria potencialmente conhece os detalhes do que acontece.

A fotografia de Tobias A. Schliessler mantém a sobriedade da fita e, quase que de forma solene, suaviza e emudece as cores depois das explosões, tentando – e conseguindo – passar a seriedade da situação. Mesmo com o uso de filmagens reais de celulares e câmeras de vigilância, que são inseridas sem causar confusão no espectador pela montagem de Gabriel Fleming e Colby Parker Jr., o resultado sabiamente foge do tom documental. Muito ao contrário até, em um breve momento procedimental clássico em que vemos o valor de Saunders, os referidos trechos de filmagens ajudam na construção do tom investigativo pós-ataque, com o agente especial do FBI Richard DesLauriers (Kevin Bacon) tomando os holofotes por alguns momentos.

Mas o grande trunfo do filme é conseguir desvencilhar-se do dramalhão. As nefastas consequências das explosões são exploradas, mas a câmera de Berg logo se vira para a perseguição aos dois suspeitos e o leque do elenco, então, se abre em diversas frentes, seja com Saunders, seja com o sargento Jeffrey Pugliese (J.K. Simmons) da polícia de Watertown, município vizinho ou, ainda, com os próprios terroristas que não ganham um segundo de tentativa de relativização no roteiro ou pela lentes de Berg. O politicamente correto sai de foco – o que é um alívio, confesso – e os dois são tratados pelo enredo de maneira inclemente, sem que haja espaço para dúvidas sobre o que eles são. Isso fica particularmente evidente com o frio e potente interrogatório da esposa americana de um dos terroristas (vivida pela Supergirl Melissa Benoist), em que toda a hipocrisia do fanatismo islâmico (ou de qualquer outro fanatismo religioso, para dizer a verdade) é desnudada na frente dela.

Às vezes, porém, há alguns escorregões sentimentais representados pela abordagem intermitente das vítimas do atentado e que ganham fechamento com depoimentos reais como epílogo da fita. São momentos que pesam no maniqueísmo, mas que são perfeitamente compreensíveis diante do que se pretendeu fazer com o filme, quase que uma homenagem a todos aqueles envolvidos neste terrível momento. No entanto, o roteiro não resiste, ainda que por alguns segundos, em dar a Saunders seu momento catártico, em que ele, em um monólogo bastante deslocado, conta um pouco de sua história pregressa com sua esposa para tentar responder a pergunta de um colega sobre como seria possível prevenir algo assim. É pouco tempo e passa rápido, mas não deixa de ser uma escolha equivocada que para o filme para preparar o espectador para os momentos finais.

Outro ponto que é de se levantar a sobrancelha, apesar de muito bem executado por Schliessler em uma eficiente fotografia noturna, é o enfrentamento policial aos terroristas no meio de uma rua em um subúrbio de Watertown. Não saberia dizer se os detalhes do que é mostrado neste ponto realmente aconteceram, mas pareceu-me um excessivo “momento hollywoodiano” que, de certa forma, destoa do todo, ainda que, também de certa forma, seja bem-vindo. Contradição? Não exatamente, pois é comum a liberdade poética em filmes desta natureza, mas a intensidade e magnitude do momento nos transporta para um filme de ação comum. No entanto, inegavelmente ele funciona no quesito tensão e na execução técnica, com vários policiais sendo envolvidos em um crescendo bem construído, mas que parece, por alguns minutos, que o projetista errou o rolo do filme, parece…

O Dia do Atentado cumpre com louvor sua função de prender o espectador a uma história cujo desfecho ele conhece (ou  deveria conhecer) sem inflar demais acontecimentos e sem apelar para uma estrutura meramente formular. Peter Berg apresenta um excelente filme de ação baseado em fatos reais que sabe ser contido e respeitoso, ao mesmo tempo que bem cadenciado e tenso.

O Dia do Atentado (Patriots Day, EUA – 2016)
Direção: Peter Berg
Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer (baseado nos evento reais e na obra Boston Strong, de Casey Sherman e Dave Wedge)
Elenco: Mark Wahlberg, John Goodman, Kevin Bacon,  J.K. Simmons,  Michelle Monaghan, Vincent Curatola, Alex Wolff, Themo Melikidze, Michael Beach, James Colby, Jimmy O. Yang, Melissa Benoist, Khandi Alexander
Duração: 133 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.