Crítica | O Dia do Juízo Final (Quarteto Fantástico #51 a 60)

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As críticas desta postagem não obedecem a uma ordem sequencial presente apenas nesta página. Isso ocorre porque já foram feitas análises para algumas edições desta sequência em ocasiões especiais no passado. Para facilitar, segue abaixo um mini-guia para os textos das edições #51 a 60 da revista Quarteto Fantástico presentes aqui ou previamente criticadas.

  • #51: Este Homem… Este Monstro — crítica abaixo.
  • #52 e 53: Surge o Pantera Negra! crítica aqui
  • #54 e 55: O Dia do Juízo Final — crítica abaixo
  • #56: O Garra Sônicacrítica qui
  • #57 a 60: O Dia do Juízo Final — crítica abaixo

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Este Homem… Este Monstro!

Quarteto Fantástico #51

estrelas 4

quarteto fantastico este homem este monstroEsta edição, focada em um drama moral do Coisa, pode parecer mais uma simples história do Quarteto e seus vilões pirados querendo invadir e tudo conquistar. Mas a mensagem e a forma como o problema se apresenta é completamente diferente e instigante, a começar do ponto de partida para o conflito.

Deixemos de lado a ingenuidade dos diálogos e situações didáticas que marcavam os quadrinhos em 1966. E também deixemos de lado o fato de Stan Lee não ser um excelente escritor. Aqui, ele nos traz um poderoso momento de reflexão e Ben Grimm para sua condição física. Não é algo novo dentro das revistas do Quarteto e não é uma reflexão inédita para o personagem mas, novamente, é a forma e a profundidade como estas coisas se colocam nesta edição que chama a atenção do leitor.

Sem se deixar fazer um conto moral chato, Stan Lee nos mostra o encontro do Coisa com um homem que enxergava Reed Richards como um esnobe que só queria fama e dinheiro. A troca das identidades através de um recurso tecnológico e a forma como a história se desenrola a partir daí é uma forte representação moral e ética do personagem, tanto de rendição do suposto vilão quanto do próprio Coisa, que apesar de ter um de seus planos frustrados, vê mais uma vez a verdadeira face da amizade que tem com o casal Fantástico. Há elementos cômicos, há romance, há preconceitos de época e ação orgânica da Primeira Família tudo em um lugar só. E claro, há a arte magnífica de Jack Kirby, em tudo elogiável, principalmente para a representação da Zona Negativa, que faz aqui a sua primeira aparição.

Quarteto Fantástico #51 (Fantastic Four Vol.1 #51) — EUA, junho de 1966
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Joe Sinnott
Letras: Artie Simek
Capa: Jack Kirby, Joe Sinnott
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O Dia do Juízo Final

Quarteto Fantástico #52 a 60

estrelas 3,5

Há críticas separadas para três diferentes edições deste arco, a saber, os números #52, 53 e 56. O texto abaixo aborda o contexto geral do arco O Dia do Juízo Final, lançado com este título aqui no Brasil pela Salvat em 2016 (Clássicos V), mas não vai se aprofundar na origem do Pantera Negra (melhor trabalhada pelo Ritter Fan neste texto para as edições #52 e 53) e nem do retorno de Klaw, já “remodelado” e com o nome de Garra Sônica (melhor trabalhado pelo Ritter neste texto para a edição #56). A minha avaliação, porém, aborda todas as edições, tanto no julgamento de qualidade quanto de conteúdo.

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Desde o primeiro encontro do Quarteto Fantástico com o Pantera Negra em Wakanda (edições #52, Pantera Negra e 53, Como Tudo Começou…!) vemos o quanto a narrativa dinâmica da revista cresceu, mesmo com os roteiros didáticos e desnecessariamente narrativos de Stan Lee. A temporada na fictícia nação africana serviu não só para colocar Wyatt Wingfoot, o colega de faculdade de Johnny, como recorrente coadjuvante da Primeira Família como também para expandir as fronteiras de ação do grupo, com mais de uma frente de luta e com derrotas e inimigos de diferentes origens (terráquea e alienígena) ao mesmo tempo.

Na edição #54, Quem Encontrar o Olho Maligno…!, temos a partida do Quarteto de Wakanda, mas os caminhos se separam. Tocha e Wingfoot pegam o Girocruzador, um presente de T’Challa, e exploram o continente em busca dos Inumanos. Em algum lugar do Egito (ao menos é a indicação que a magnífica arte de Jack Kirby nos dá), o veículo cai em um buraco profundo e a dupla encontra o lendário Preste João (Prester John), que aparece pela primeira vez em um quadrinho da Marvel. A suposta figura história com este nome povoou os contos cristãos europeus do século 12 ao 17, onde se falava da prosperidade do reino deste monarca-patriarca que facilitou a entrada do cristianismo no Oriente via Abissínia (atuais Etiópia e Eritreia).

Aproveitando-se de forma inteligente do mito, Stan Lee deu ao personagem o Olho Maligno uma poderosa arma (convenientemente dita capaz de destruir a barreira que cercava os Inumanos na época) forjada na também lendária Ávalon, igualmente em sua primeira aparição. O flashback que se segue serve como uma história de origem e é ágil, com poucos elementos textuais chateantes e uma das poucas partes desse arco com essa caraterística. O desfecho da história afasta Prester do foco narrativo mas deixa o Tocha lamentando o fato de não poder tirar sua amada Cristalys da barreira que cobre os Inumanos, estes, suportando um louco (ou fingido?) Maximus, que vai fazendo algumas gracinhas, provocando seus iguais.

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Toda a edição #55, Quando Ataca o Surfista Prateado! é uma verdadeira bobagem e, se tem algo que realmente importe, é a misteriosa saída de Dentinho, o cão dos Inumanos, da barreira onde estava preso, além do fato de o cão acompanhar o Tocha e Wingfoot em sua peregrinação após o incidente com Prester. Ver o Coisa sair na porrada com o Surfista Prateado em uma edição inteira até tem sua graça — alguns diálogos são realmente bons –, mas é inteiramente dispensável. A leitura é bastante válida pela qualidade do movimento que Jack Kirby imprime em sua arte e pela variedade de locações e modelos que ele nos apresenta. Fora isso…

Já na edição seguinte, Garra Sônica, o Mortífero Mestre do Som, a situação muda de figura, com o Pantera Negra aparecendo à distância e o ridículo Garra Sônica tentando vencer o Quarteto Fantástico. De qualquer forma, é uma revista que tem mais impacto e sentido para o grupo do que a anterior, com um Coisa enciumado tentando bater no Sentinela das Estrelas.

Surge o… Doutor Destino! (edição #57) é a história que realmente dá o pontapé para o arco O Dia do Juízo Final. Nela, o famoso ditador da Latvéria se encontra com o Surfista Prateado e lhe rouba os poderes, tornando-se imbatível. O encontro ente o herói alienígena e o humano vilão é ao mesmo tempo instigante e irritante. Stan Lee percebeu essa perigosa mistura e até se “desculpou” por isso, literalmente, em um dos retângulos de diálogo na revista. Mesmo assim, é difícil engolir o fato de o Surfista cair em uma armadilha tão primária quanto a que o Doutor Destino preparou para ele. O bom disso tudo é que o desenvolvimento da saga é interessante, tem um pouco menos de narração no roteiro e momentos angustiantes, porque o Quarteto está de fato presenciando um grande perigo mundial. Para uma história que começa com um drama fraquinho com o Homem-Areia, o andamento da saga é extremamente positivo.

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A única coisa desse bloco de histórias que não dá para considerar como válido dentro da sanidade é a libertação dos Inumanos. É simplesmente ridículo o fato do Raio Negro poder ter dado o grito antes e jamais ter feito isso, ao contrário, ter esperado o tempo todo a sua civilização padecer nessa prisão. Mesmo se racionalizássemos a questão, arranjando justificativas do tipo “ele estava esperando que outros métodos funcionassem” ou coisa parecida, é frágil demais a justificativa de que o rei dos Inumanos sabia um caminho para quebrar a barreira e não o considerou antes. Isso é tão estranho que a tal libertação tem apenas um pequeno impacto no leitor, quando o efeito deveria ser muito maior.

O final pouco impactante da luta entre o Quarteto Fantástico e um super-poderoso Doutor Destino é dado por uma proclamação de vitória que não está em cena. Assume-se que Doom perdeu porque o Coisa voltou do espaço, para onde foi jogado (pois é) e porque a prancha volta para o castelo onde o Surfista estava preso. Mais um ponto a menos (!) para o roteiro de Stan Lee. Vale dizer que no todo, a história aqui é positiva, bastante acima da média, mas salvo as ilustrações de Jack Kirby (quadros de lutas e tecnologia são os grandes destaques de seus desenhos aqui) o leitor irá encontrar alguns problemas no decorrer das edições com os quais deve se irritar bastante.

Quarteto Fantástico #52 a 60 (Fantastic Four Vol.1 #52 – 60) — EUA, julho de 1966 – março de 1967
Roteiro: Stan Lee
Arte: Jack Kirby
Arte-final: Joe Sinnott
Cores: Stan Goldberg
Letras: Sam Rosen, Artie Simek
Capa: Jack Kirby, Joe Sinnott

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.