Crítica | O Dia do Terror

Dia do Terror

estrelas 1

O cineasta australiano Jamie Blanks conseguiu fazer algo bastante peculiar na época do lançamento deste slasher pouco criativo: comandar um filme mais fraco que o seu antecessor, o razoável Lenda Urbana, seguindo o caminho de retrocesso de uma carreira. Desta vez, esqueça a máscara de hóquei, o maníaco encapuzado com roupa de inverno ou uma mão cheia de garras de metal a assustar os personagens nos pesadelos: o psicopata é um antigo jovem que sofreu bullying e retornou para se vingar com uma capa preta e uma máscara de querubim.

Ao representar um dos ícones do amor, o querubim, o retalhador de jovens incautas ataca bem no dia dos namorados. Com orçamento de U$10 milhões, algo relativamente alto para uma produção do subgênero slasher, O Dia do Terror até conseguiu bilheteria considerável, diferente das críticas, em sua maioria, a colocar o filme em seu devido lugar: o hall das pérolas da ruindade contemporâneas.

Na trama que mistura qualquer slasher e Carrie – A Estranha, somos inseridos em um baile de formatura montado paralelamente aos créditos iniciais, bonitos, por sinal, além de ter uma música bastante climática. No baile de formatura apresentado, um jovem que contempla o estereótipo do nerd estadunidense aborda quatro garotas populares para dançar, mas é repelido grosseiramente por três delas, sendo bem tratado, mas dispensado, apenas por uma (será que ela é a protagonista que terá a sua vida poupada?).

Sem sucesso, ele aproxima-se de Dorothy, outra desajeitada, haja vista seu peso acima do padrão. A garota aceita a dança, segue para um canto discreto, beija o rapaz, mas ao ser surpreendida, sente a vergonha tomar seu corpo e diz aos presentes que o jovem a forçou a beijá-lo. Acusado de pequeno tarado, o rapaz apanha e é humilhado durante o baile, num episódio bastante comum ao ambiente escolar estadunidense, afinal, 13 Reasons Why recentemente reacendeu a chama sobre o assunto.

Como boa história de vingança, o grupo cresceu. As pequenas jovens se tornaram mulheres bonitas e bem sucedidas. Kate Davies é a tímida e recatada, versão da virginal final girl dos anos 1980; Shelley Fisher (Katherine Heigl) é a inteligente; Lilly Voight (Jessica Cauffiel) é a chatinha que se acha engraçada, mas na verdade é um porre, personagem que torcemos pela morte o quanto antes; Paige Prescott (Denise Richards) é a sensual e descolada, convencida de que é um furacão sexual; Dorothy Wheeler (Jessica Capshaw) é a insegura, recalcada por ter sido quase sempre gordinha e fora dos padrões.

Certo dia elas começam a ser perseguidas pelo psicopata descrito anteriormente. Reunidas após o sepultamento de uma delas, vítima do assassino no famoso número criminoso de abertura, parte obrigatória dos filmes slasher, as garotas se dão conta de que receberam peculiares bilhetes contendo mensagens de amor mescladas a ameaças de morte.

Em determinado momento do filme, uma delas se recorda do rapaz “desengonçado” que maltrataram enquanto estudantes, Jeremy Melton, possível elo com as mortes em questão. A polícia, sempre um passo ou dois atrás do assassino, traça seu plano investigativo, com pouco sucesso, enquanto o assassino ceifa a vida das moças e das pessoas (que nada tem a ver com o problema) ao redor. Representada pelo detetive Leon Vough (Fulvio Cecere), é mais uma vez a representação do clichê “nada acontece”.

David Boreanaz surge como o representante masculino do elenco, ex-namorado da protagonista. Ele é um jornalista com problemas de alcoolismo. Ora desconfiamos que ele seja o assassino, ora deixamos de lado para focar em outros detalhes pouco convincentes do filme. O bom ator parece perdido diante de um festival de banalidades dramatúrgicas. Uma das garotas tem o namorado/amante/gigolô que só aparece para levar uma machadada nas costas e a família desta mesma personagem é inútil para o desenvolvimento de qualquer elemento do roteiro.

Seguindo a premissa whodunit e os motivos que levaram o psicopata a tomar tal atitude, o filme descamba em camadas generosas de clichês que não ajudam em nada. Como dito em outras reflexões, o clichê às vezes possui uma justificativa e até não incomoda. Mas em O Dia do Terror, as bobagens são tão ululantes que até mesmo o espectador menos exigente acha tudo uma xaropada, principalmente o anticlimático final.

O montador Steve Mirkovich não consegue fazer milagres, afinal, ele não é Walter Munch, tampouco estava diante um filme de Coppola. Com o roteiro fraco assinado por Donna Powers, Wayne Powers, Gretchen J. Berg, Aaron Harberts (exatamente, quatro roteiristas), baseado em Valentine, de Tom Savage, o filme apresenta 96 minutos de uma desastrosa incursão no subgênero slasher, estilo responsável por alguns filmes bem geniais. Não há editor, designer de produção e trilha sonora que o salve. O som de Don Davis e a sua trilha sonora trazem o que há de mais irreverente no rock destinado ao subgênero, com canções de Link Park, Marilyn Manson, Disturbed e Rob Zombie, artistas que não consegue inserir sensibilidade alguma com as suas faixas, tamanha a falta de habilidade do roteiro e da direção em entregar algo minimamente coerente.

O Dia do Terror, juntamente com Medo em Cherry Falls, pode ser considerado um dos elos finais de um suspiro bastante expressivo dado em 1996 por Wes Craven. Pânico fez escola, trouxe Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado, logo mais, uma série de produtos mais descarados que um plágio assumido. Ainda se produz muitos filmes do subgênero slasher, mas a presença de atores conhecidos ou a exibição nas salas de cinema é quase nula para o estilo, relegado aos serviços de streaming e ao pouco aquecido mercado dos DVDS/BLURAYS.

O Dia do Terror (Valentine)- Estados Unidos/2001
Direção: Jamie Blanks
Roteiro: Wayne Powers, Donna Powers
Elenco: David Boreanaz, Denise Richards, Fulvio Cecere, Jessica Capshaw, Jessica Cauffiel, Katherine Heigl, Marley Shelton
Duração: 96 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.