Crítica | O Dia em que o Porco Caiu no Poço

estrelas 2

Com um título curioso e metafórico, proposta ambiciosa e um diretor inexperiente e estreante em sua condução, O Dia em que o Porco Caiu no Poço é uma espécie de retrato de trabalho e vida dos habitantes de Seul e arredores, algo como “um pouco da malha urbana sul coreana” levado a cabo por Hong Sang-soo, que, como já dissemos, dirigia aqui o seu primeiro filme.

É admirável que o estúdio Dong-a Exports tenha aceitado produzir esse filme com Sang-soo na direção, uma vez que se tratava de uma obra cujo roteiro exigia bastante do realizador, no sentido de articular organicamente cada uma das vidas/sequências e seus problemas particulares, culminando com um sutil cruzamento entre elas no final. Em uma comparação bem porca (sem trocadilhos), podemos dizer que este filme está na linha de Short Cuts Magnólia: há um mosaico de experiências sendo narradas e o espectador é apresentado a alguns detalhes de cada uma dessas experiências. A partir disso, o público constrói sua visão do todo tendo o particular como princípio.

A proposta é certamente interessante, mas a execução de Hong Sang-soo torna a obra pouco degustável. O diretor escolheu elencar momentos e pessoas que ao final da película pouco deixam de impactante — e falo isso de forma geral, porque tem duas personagens que realmente nos chamam bastante atenção, mais pela surpresa do que fazem do que pelo ato em si.

Um outro ponto a se considerar é a forma abrupta com que ele transita entre uma vida e outra ao longo da narração. Quando isso acontece pela primeira vez (até então não sabemos que essa é a proposta do filme), passamos alguns minutos confusos, sem saber o que realmente está acontecendo e por que o então protagonista do filme saiu de cena para dar lugar a alguém que não víramos na tela até ali. Essa demora para que o público se adapte é uma constante no filme. O diretor faz exatamente do mesmo jeito em cada uma das mudanças entre as esquetes, o que torna a experiência cansativa e faz com que prestemos mais atenção no tempo do que no que se desenvolve na tela.

A direção também não conta com boas atuações de todo o elenco, o que faz com que alguns blocos tenham excelentes performances e outros sejam mornos ou até ruins, não só porque apresentam coisas completamente inúteis para o andamento da obra (um problema de roteiro que poderia ser corrigido) e também porque os atores não ajudam muito.

Como a maior parte dos filmes sobre grandes cidades e sua população, O Dia em que o Porco Caiu no Poço é uma crônica sobre a tristeza, as decepções, os fracassos e as explosões de ânimo de todas as pessoas. Nessa análise, há muito valor na fita, porque existem indivíduos no filme completamente tristes e sofridos e esses dois sentimento são muito bem filmados e articulados dentro da história. O problema é que essa execução se perde em meio aos excessos e faltas cometidas por ele ao longo dos 115 minutos. Como se trata de uma cadeia de eventos parcialmente interligada, muita coisa boa se perde e muita coisa ruim e sem serventia acabou passando pelo corte final.

O Dia em que o Porco Caiu no Poço é uma estreia fraca porém promissora de Hong Sang-soo à frente das câmeras. Primeiro, ele conseguiu acertar bastante pelo menos na história central (a do escritor sem dinheiro que tem uma amante e uma namorada a quem não ama), depois, ele conseguiu, já em seu primeiro filme, abrir espaços para elementos poéticos e minimalistas que desde cedo impressionam o espectador e, se forem levados em consideração a longo prazo, veremos que se trata do gérmen de um estilo de fazer cinema que ele aplicaria em suas obras futuras. Nascia aqui um prolífico cineasta de filmes que podemos classificar como verdadeiras crônicas urbanas.

O Dia em que o Porco Caiu no Poço (Daijiga umule pajinnal) – Coreia do Sul, 1996
Direção: Hong Sang-soo
Roteiro: Koo Hyo-seo
Elenco: Eun-hee Bang, Eun-sook Cho, Eui-sung Kim, Eung-kyung Lee, Sun-mi Myeong, Jin-seong Park, Kang-ho Song
Duração: 115 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.