Crítica | O Diabo e o Padre Amorth

William Friedkin é um cineasta que não deve nada a ninguém. Já realizou diversos filmes interessantes, deu a sua contribuição para a história do cinema e ainda fala sobre O Exorcista até os dias atuais, haja vista o extenso legado do filme que marcou para sempre os filmes de terror. Diante dessa certeza, há uma pergunta que nos norteia logo nos primeiros momentos da análise de O Diabo e o Padre Amorth, filme que estreou para o grande público por meio de um serviço de streaming, mas esteve em alguns festivais anteriormente.

Assistir ao documentário é lidar com um misto de sensações. A introdução é relevante e um presente para os fãs, com o cineasta a passear por alguns dos principais locais que ambientaram a luta travada entre os padres e o demônio que possuía a personagem de Linda Blair no filme de 1973. Logo mais, Friedkin nos aponta que o seu objetivo agora é narrar um exorcismo real, sem efeito e edições. O foco específico é o debate que entrelaça dois contextos, o científico e o religioso, tendo em vista estudar ambos os lados. Para isso, ele parte de Georgetown para Roma, interessado em filmar um ritual verdadeiro.

Numa mescla de ciência e religião, o documentário supostamente se adequou ao que Fernão Pessoa Ramos chama de ética modesta, isto é, produção neutra que desconfia de ideologias e procura não tomar nenhum partido.  Isso é o que Friedkin quer que nós acreditemos, mas alguns posicionamentos de câmera, bem como narrações e uso da trilha nos minutos finais nos demonstram que o cineasta queria é mesmo criar uma narrativa envolta numa redoma de mistério, mais inclinada com a questão sobrenatural, mesmo que ele não acredite sequer em nenhum mecanismo que engendram um ritual de exorcismo.

A sessão filmada é captada por uma câmera simples, com manifestações sonoras da exorcizada que não sabemos ser reais ou manipuladas, mesmo que de leve, pela edição. O que podemos observar e “contemplar” é a presença de sons desagradáveis e incomoda ausência de uma linha narrativa que alterne o que é apresentado. Exorcizada nove vezes, a arquiteta Cristina é a vítima do maligno captada pelas imagens da produção. Há uma sequência fixa do exorcismo passível de causar dispersão, tamanha a prolixidade. Com condução musical de Christopher Rouse, edição de Gary Leva e roteiro de Mark Kermode, o documentário de Friedkin se afasta do docudrama, das camas que levitam, dos objetos sagrados profanados e busca o que seria um ritual de exorcismo da vida real, sem os impactos da liberdade de criação ficcional.

Acho que O Diabo e o Padre Amorth é uma produção que deve ser vista ao menos por curiosidade. Não é um grande documentário em quesitos estéticos, tampouco apresenta novo olhar para o tema polêmico, já trabalhado numa série de filmes e especiais de TV desde que O Exorcista foi lançado, mas nos apresenta o cineasta num momento diletante, revisando alguns momentos do seu grande clássico, mesmo que seja por um trecho muito rápido, já que o foco da produção é outro. Amorth, sacerdote que morreu em setembro de 2016, aos 91 anos, não chegou a ver o filme finalizado. Esteticamente não se destaca em nada, mas é uma produção mais interessante que qualquer documentário contemporâneo produzido pelo canal Discovery.

Ciente da sua colaboração na luta contra as forças satânicas que supostamente dominam a terra, o maior exorcista do Vaticano realizou numerosos rituais em seus 31 anos de experiência no assunto. Ele narra seu primeiro encontro com as forças do mal de maneira bastante tranquila. Segundo o padre, “de repente o ar ficou frio e eu tive a nítida sensação de uma presença demoníaca na minha frente”. Para dar o “tom”, Amorth ainda ressalta: “durante um exorcismo, Satanás teria dito que cada Ave-Maria rezada era como um golpe em sua cara”.

Daí, ele afirma: “as pessoas precisam compreender o poder que tem o rosário”. Mas não apenas isso, pois de acordo com os seus livros mais conhecidos, Exorcistas e Psiquiatras, Memórias de um Exorcista, O Sinal do Exorcista e O Exorcista Explica o Mal e as Suas Armadilhas, as forças do inferno estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano, através da mídia, dos filmes, das seitas e da busca por meios menos adequados, segundo seu ponto de vista, de entrar em contato com o mundo espiritual.

Essa busca por um mundo protegido por exorcistas não é apenas uma estratégia para produções ficcionais e documentais. Recentemente o Vaticano divulgou notícias sobre exorcismos até mesmo pelo celular. É o confronto entre Deus e o Diabo na era da cibercultura. Já pensou? Outros dois casos curiosos foram noticiados, também recentemente. Um deles era um homem de terno que rezava alto e esbravejava: “Em nome de Jesus, vá embora!”. Foram essas as palavras proferidas em direção a uma passageira possuída, segundo o homem filmado na Linha 3 do metrô, no México, num vídeo que viralizou em julho de 2018.

No mesmo mês, um monge budista afastado de suas atividades se tornou o principal suspeito de matar uma jovem de 18 anos durante um ritual na Tailândia. O homem de 43 anos de idade reparou numa mancha escura no pescoço da jovem e alegou que ela, dentre outras questões, poderia ser vítima de uma maldição. Ele mesmo preparou a água benta, mas durante o ritual, surgiu uma série de complicações e a jovem vomitou até perder a consciência e morrer. A investigação concluiu que provavelmente a água benta possuía algum material que provocou forte alergia.

Tais acontecimentos nos demonstram que os debates sobre exorcismo não estão apenas no campo da ficção, mas parte da agenda religiosa de alguns representantes ludibriados pelas suas ideologias pouco flexíveis. Documentários como o de Friedkin podem até não apresentar aparatos estéticos relevantes, mas nos permite reabrir este tópico “tabu” e debatê-lo na contemporaneidade, época que mesmo diante de tantos esclarecimentos e releituras da própria igreja em relação aos fenômenos de possessão, há ainda pessoas que acreditam cabalmente neste caminho como única alternativa de resolução de problemas.

Outro caso polêmico foi a de um padre afastado de suas atividades, acusado de molestar a vítima durante o ritual de exorcismo. Aos 79 anos, o padre conhecido por Humberto Gama cometia os seus atos ilícitos desde 2011, mas a Igreja nunca deu a devida atenção aos relatos denunciados. Natural de Vila Real, em Portugal, o sacerdote realizou numerosos exorcismos, mas infelizmente não teve a mesma conduta de Amorth, um homem extremista apenas no que diz respeito aos seus ideais religiosos. Situações como essa revelam que o horror pode estar muito além da ficção ou da suposta presença sobrenatural em nosso cotidiano, afinal, o diabo não precisa necessariamente vestir Prada, mas quem sabe usar uma bela batina?

O Diabo e o Padre Amorth — (The Devil and The Father Amorth) Itália, 2017.
Direção: William Friedkin
Roteiro:  William Friedkin, Mark Kermode
Elenco:  William Friedkin, Gabrielle Amorth, Robert Barron,
Duração: 68 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.