Crítica | O Diabo Veste Prada

estrelas 4

Após causar burburinho no meio editorial, o best-seller O Diabo Veste Prada, de Lauren Weisberger, encontrou outro caminho de sucesso: a adaptação cinematográfica, dirigida com competência por David Frankel e roteirizado por Aline Brosch McKenna. Com frames que relacionam a linguagem do videoclipe com algumas características do discurso publicitário, os envolvidos na realização desta ácida crítica ao afetado mundo da moda apresentaram ao mundo o ícone da competência-prepotência-vilania hollywoodiana máxima: Miranda Priestly, interpretada pela sempre eficiente Meryl Streep.

A narrativa se inicia com uma empolgante montagem alternada, bem no formato videoclipe, que ao relacionar as mulheres bem vestidas com a “fora de moda” e recém-formada em jornalismo Andrea Sanchs (Anne Hathaway), já estabelece um dos conflitos da narrativa. A moça, que nada entende da indústria da moda e do mundo das passarelas que fazem circular moças anoréxicas, enquadradas por um padrão estabelecido por uma indústria repleta de resiliência, está à caminho de uma entrevista de emprego na Runnaway, uma importante revista estadunidense, comandada pela “terrível” Miranda Priestly, uma mulher conhecida por alavancar ou destruir carreiras com apenas um simples meneio dos cabelos ou gesto facial.

O filme entrega ao espectador o que promete. O roteiro não é um primor da dramaturgia, mas não fica devendo nada ao que se propôs. A trama é carregada de significados que precisam ser decifrados, pois debaixo da camada de figurinos exuberantes e alguns estereótipos que não chegam a atrapalhar o desenvolvimento dos conflitos, há muitas questões da seara administrativa, da mídia, da publicidade e das questões contemporâneas acerca das relações interpessoais que gravitam em torno da narrativa.

Os clichês comuns ao âmbito ficcional hollywoodiano estão logo à primeira vista disponíveis para serem acessados. A aprendiz que depois de se perder em um mundo de coisas “belas e sujas”, supera moralmente o seu antagonista e consegue encontrar o seu caminho está logo na superfície. A mulher que escolhe o sucesso profissional, em detrimento da vida pessoal, tais como cuidar dos filhos, do marido e do eixo familiar, também está presente, tanto em Miranda como no provável futuro de Andrea, caso ela escolha seguir carreira na revista de moda e deixe de lado os seus anseios (escrever em um jornal que trate de temas “sérios”).

No que tange aos personagens coadjuvantes, cabe ressaltar o importante papel da pedante Emily (Emily Blunt) e do sarcástico Nigel (Stanley Tucci), ambos primordiais para algumas das melhores falas de Miranda e Andrea. Emily e Nigel, assim como Miranda, fazem parte de um sistema que massacra os anseios e as individualidades constantemente, entretanto, mesmo cientes disso, ambos decidem seguir o caminho da mentora, afinal, dinheiro, poder e glória parecem ser mais interessantes que uma vida simplória, galgada por ideais considerados utópicos. O que importa para estes personagens é o sucesso a qualquer preço, tal como reza a cartilha do capitalismo, mesmo que tenham que sair de suas zonas de conforto diariamente.

A trilha sonora traz diversos temas do pop contemporâneo, mas o destaque vai para duas canções interpretadas por Madonna, bastante funcionais dentro da proposta da trama: Jump e Vogue.  Em Jump, single do álbum Confessions of a Dance Floor, Madonna questiona se o ouvinte está preparado para “saltar”, numa metafórica alusão aos desafios da vida cotidiana, algo bem característico dos dilemas diários de Andrea ao lidar com a árdua tarefa de ser funcionária de Miranda. Em outro momento, Vogue, um dos maiores sucessos na carreira da cantora pop surge para abrir o espaço da nova Andrea, transformada após jogar o jogo de Miranda, relacionando-se com a indústria na qual se propôs a atuar. A canção que faz ode ao Olimpo da Hollywood clássica, fala sobre expressão e autoestima, e assim, tornou-se outra ótima escolha para acompanhar o filme.

Um dos pontos mais interessantes em O Diabo Veste Prada é a maneira como a direção transita por um campo pantanoso, sem se deixar levar pelo glamour, como alguém que assim como o espectador mais crítico, observa. Nas mãos de outro cineasta, a narrativa talvez se perdesse entre as câmeras e flashes pelo seu caminho. Os figurinos estilizados estão presentes, a montagem pop e ágil também, as modelos interpretam a si mesmas (com exceção de Gisele Budchen, numa ponta inexpressiva, mas que não prejudica a trama), entretanto, o filme não cai no discurso raso ou afetado, mantendo-se firme até o seu final, mesmo que a escolha de Andrea nos momentos finais seja considerada por alguns críticos como enfadonha.

Após a sua jornada pelo ofuscante mundo da moda, Andrea acha o seu caminho. Será mesmo que toda garota mataria por aquele emprego? Bons salários, pessoas “importantes”, excelente network, entretanto, uma caminhada frequente pelo inferno do chefe abusivo, praticante de todas as formas de mobbing possíveis, numa trajetória que aparentemente traz sucesso profissional, mas infelicidade nos outros setores da vida pessoal. Esta questão, por sua vez, fica para reflexão. Andrea fez a sua escolha. E você, caro leitor, qual caminho seguiria?

O Diabo Veste Prada (The Devil Wears Prada) –  EUA, 2006.
Direção:  David Frankel.
Roteiro: Alinne Brosh Mckenna.
Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Adrien Grenier, Stanley Tucci, Daniel Sunjata, John Rothman, Simon Baker.
Duração: 109 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.