Crítica | O Diário de Bridget Jones (2001)

estrelas 4

O Diário de Bridget Jones é um filme encantador. Não chega a ser inovador, mas torna-se brilhante ao capitalizar em cima de boas ideias e apresentar, através de uma embalagem bastante comum, ou seja, o rótulo das comédias românticas cacofônicas da contemporaneidade, uma obra divertida e romântica, sem precisar apelar para os diálogos vazios, tampouco para câmera facilitadora que explica tudo, “estratégias” narrativas comuns em nossos tempos.

A produção baseou-se no que se convencionou chamar de chick lit, termo que no Brasil ganhou a alcunha preconceituosa de “literatura para mulherzinha”, romances açucarados e prosaicos, geralmente sobre os dilemas da mulher contemporânea, dentre eles, a luta contra a balança, os problemas sentimentais e o mobbing nas relações profissionais.  Espécie de autoajuda, este tipo de material se configurou como manual para as mulheres superarem o estresse diário.

É um universo literário que ganhou bastante projeção nos suportes cinematográficos e televisivos. Por um lado é caricatural, entretanto, materializa o novo posicionamento da mulher diante dos efeitos do pós-feminismo. Tendo como temas a autoestima, a sexualidade, o trabalho e a beleza, o roteiro, uma espécie de genial versão feminina de Alta Fidelidade, foi escrito pela dupla Andrew Davies e Richard Curtis, tendo como suporte o romance homônimo de Helen Fielding, publicado em 1998, escritora que também colaborou em partes na construção do argumento.

O enredo não é complexo, o que não o impede de ser interessante e divertido. No filme, Bridget Jones (Reneé Zelweger) é uma mulher de trinta anos que decide, entre as soluções para o novo ano, escrever um diário. A personagem registra, através de camadas generosas de humor, as suas metas e atividades, além de expor as celeumas das mulheres da sua idade: problemas no trabalho, as cobranças da família diante do seu status de mulher balzaquiana solteira, e por sua vez, os seus problemas na seara dos relacionamentos amorosos. Diariamente, ela inicia os relatos humorados contabilizando a quantidade de calorias e a sua relação com a balança, além dos cigarros e bebidas alcoólicas consumidas no dia anterior.

Bridget trabalha como assessora de imprensa em uma revista londrina, tendo como um dos seus passatempos a mesa de bar com um trio frenético e hilariante de amigos, personagens caricaturais que estão sempre presentes em seus momentos de aperto. Ansiosa por um amor, a moça conhecida por suas trapalhadas precisa lidar cotidianamente com dois homens: Daniel Cleaver (Hugh Grant), um cafajeste que a engana constantemente, e Mr. Darcy (Colin Firth), um advogado sisudo que a amará mesmo diante de tantos “defeitos”.

Dentre os detalhes estéticos, a música assinada por Patrick Doyle é um dos pontos altos do filme. Alguns clássicos mesclados com o pop contemporâneo embalam o filme numa roupagem bem eclética. O design de produção capricha na ambientação colorida, somados ao trabalho de fotografia que capta bem o clima de final de ano do enredo. A montagem apresentada ficou sob a responsabilidade de Martin Walsh, tendo como resultado final algo entre o elegante e o satisfatório: apesar de incluir a linguagem do videoclipe, a narrativa não ficou prejudicada pelos cortes excessivos e pela estética fragmentada do excesso, marco da contemporaneidade.

A narrativa, adornada por piadas constantes preservar o charme da comédia ao estilo inglês, mas não deixa de tomar de empréstimo algum sarcasmo típico dos estadunidenses. A mistura, no entanto, deu certo. O filme concatena emoção e razão, dando ao espectador a sensação de tristeza em alguns momentos hilariantes, para logo adiante, fazer o contrário, num jogo que flerta com uma equilibrada mixagem de sensações.

Cabe salientar que a direção de Sharon Maguire também é bastante eficiente. Ao lado dos atores, a cineasta conseguiu formar um bom time. As atuações sob a sua orientação tornam situações simplórias bem mais interessantes do que poderiam ser. Jim Broadbent e Gemma Jones colaboram como os pais da protagonista, em performances brilhantes. A dupla masculina que disputa o amor de Bridget consegue alcançar a dualidade necessária entre o “bem” e o “mal”.

Por falar em presença em cena, o que dizer da construção imagética da divertida personagem criada por Helen Fielding? A atriz Renée Zellweger está formidável na construção do personagem: ganhou mais de dez quilos para a interpretação e adquiriu um eficiente sotaque inglês, haja vista que por ser do Texas, a atriz carregava um jeito específico de se expressar que desapareceu durante as filmagens. Assim, temos mais um daqueles casos de uma atriz que mostra bastante disciplina no processo de caracterização do personagem, sendo indicada aos melhores prêmios da indústria: concorreu ao Oscar, ao Globo de Ouro, ao Goya e ao BAFTA nas categorias de Melhor Atriz.

Irmã europeia de Sex and The City (a série), a produção (o filme) nos revela uma personagem fálica, que adota hábitos tipicamente masculinos: bebe muito e fala palavrões, pratica sexo casual, mas que infelizmente não exerce dominância sobre o seu corpo, pois precisa aderir aos padrões da sociedade para se sentir minimamente bem. Neste quesito, convenhamos, nem tanto nem tão pouco. Não há como viver completamente bem nesta zona limítrofe que promove tensões para todos os lados. Bridget, assim como Carrie Bradshaw, tenta fazer o melhor para libertar-se das amarras, mesmo que os seus esforços sejam ainda migalhas de uma atuação social “microfísica”.

Por falar neste termo conceito, há um paralelo interessante com uma das várias afirmações de Foucault em Microfísica do Poder: “Como resposta à revolta do corpo, encontramos um novo investimento que não tem mais a forma controle-repressão, mas controle-estimulação: fique nu… mas seja magro, bonito e bronzeado”. A afirmação, hoje senso comum nos debates sobre as relações entre as pessoas e a mídia opressiva está na página 147 deste clássico da filosofia contemporânea. Bridget é mais uma das vítimas do massacrante contexto social que nos pede cada vez mais formas e aparência quase impossíveis de se conquistar. A personagem debocha sobre o assunto, apesar de ter que recorrer às práticas “masoquistas” como uma forma de tentar se sentir inserida em um padrão exigido pelos que a cercam, o que coaduna com a sensação de depressão e insatisfação constante.

“É incrível como as ruas estão cheias de carros. Será que as pessoas não deveriam estar em casa se preparando para ver o programa”? Esta citação, extraída de um voz off da personagem salienta algumas questões pontuais da narrativa: a solidão na qual Bridget Jones encontra-se mergulhada, tendo na relação com a televisão, um eletrodoméstico onipresente em seu lar, uma relação de companheirismo. O programa citado é a adaptação da BBC do romance Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, o que nos leva ao outro eixo “pontual” desta reflexão: o paralelo com a obra inglesa, um dos clássicos canônicos da literatura do século XIX.  A opção número dois de Bridget Jones (inicialmente ela apaixona-se por Daniel Cleaver), Mr. Darcy, teve como inspiração o herói do romance, numa versão atrapalhada e mais humorística, o que nos decalca, salvas as devidas proporções, outro processo: as obras chick lit como representações atuais dos distantes problemas da mulher do século XIX, algo que apesar de longínquo, parece insistir em reaparecer no cenário atual.

Lançado em 2001, O Diário de Bridget Jones ganhou uma continuação também baseada em um segundo livro homônimo, Bridget Jones: No Limite da Razão. A produção caiu na malha da lenda acerca das sequências inferiores, mas não impediu que o personagem atravessasse a década e chegasse ao contexto atual. Um terceiro filme está agendado para o painel de lançamentos de 2016. Desta vez, o personagem de Colin Firth estará morto, Hung Grant e seu jeitão cafajeste também estão de fora, mas isso não faz de Bridget Jones um personagem diferente: ela continuará atrapalhada e em busca de alguém para viver os seus dias nublados.

O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones’ Diary) – Inglaterra/França, 2001
Direção: Sharon Maguire
Roteiro: Andrew Davies, Richard Curtis, baseado no romance homônimo de Helen Fielding
Elenco: Renée Zellweger, Hugh Grant, Colin Firth, Gemma Jones, Jim Broadbent, Paul Brooke, James Faulker, Felicity Montagu, Shirley Henderson, James Callis
Duração: 97 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.