Crítica | O Diário de uma Camareira (2015)

estrelas 3

Selecionado para a mostra competitiva do 65º Festival de Berlim, em fevereiro de 2015, essa terceira adaptação da obra literária homônima de Octave Mirbeau, escrita originalmente de forma serializada entre 1891 e 1892, é um tour de force falho de Benoît Jacquot. Extraindo sua inspiração diretamente do romance e não das adaptações anteriores de Jean Renoir em 1946 (Segredos de Alcova) e de Luís Buñuel em 1964 (O Diário de uma Camareira), ainda que as comparações sejam inevitáveis, essa talvez seja a versão mais próxima do espírito da obra original, mas Jacquot acaba se perdendo em seu terceiro ato.

Mas comecemos do começo.

Léa Seydoux vive Célestine, a camareira do título de passado sob sombras que, no final do século XIX, aceita um emprego no interior da França, na cada de decadentes aristocratas. Sua patroa, Madame Lanlaire (Clotilde Mollet) é uma insuportável mandona, que vive com um sinete na mão, fazendo Célestine correr para cima e para a baixo para cumprir as tarefas mais simples. Seu patrão, Monsieur Lanlaire (Hervé Pierre) é um ser grudento e bonachão que não esconde sua predileção por suas empregadas. Mas a própria Célestine não é boba e sabe navegar por esse mar turbulento, sempre pensando em como poderia se beneficiar da situação.

O filme, porém, não caminha linearmente. Apesar de logo percebermos a sofisticação e inteligência de Célestine, graças à uma atuação intensa e focada de Seydoux, não sabemos exatamente quem ela é e Jacquot utiliza diálogos falados entre os dentes, pensamentos breves da camareira e especialmente flashbacks para desvelar seu passado. São os flashbacks, vale dizer, que dão o verdadeiro sabor da produção, pois deslocam a ação para outras épocas e locais importantes para a protagonista, permitindo-nos uma visão de quem ela era e em quem ela se tornou. A montagem de Julia Gregory não tem floreios e nos joga para o passado e para o presente sem transições, apenas com cortes secos que exigem alguns segundos de adaptação. E essas sacudidas na estrutura narrativa funcionam muito bem, trazendo complexidade para aquela personagem tão misteriosa.

A fotografia de Romain Winding, por sua vez, tenta ao máximo usar luz natural, seja claridade do sol, seja luz de velas, o que não permite o embelezamento exagerado do elenco e nos dá um tom mais real aos acontecimentos que caminham, de certa forma, para o surreal (nem de longe ao ponto da versão de Buñuel, claro). Com a maioria da ação se passando durante o dia, a fita não é escura como se poderia esperar, demonstrando o cuidado na iluminação e nos ângulos de câmera. Além disso, Jacquot e Winding fazem muito uso de câmera na mão, especialmente seguindo Célestine e alguns outros personagens, fazendo o espectador de cúmplice em todas as pequenas tramoias que passam a acontecer naquele ambiente decadente.

É de maneira indireta que começamos a testemunhar a aproximação de Célestine – por conveniência – com o “faz tudo” da casa, Joseph (Vincent Lindon). E é a partir desse ponto que a história começa a ficar desconexa e curiosamente sem profundidade. Se até os dois se aproximarem o conflito de classes sociais era o foco da narrativa, depois que eles passam a ficar juntos secretamente, o roteiro se perde em sub-tramas que não são exploradas devidamente, apesar de terem potencial. A primeira delas é o antissemitismo de Joseph, algo que ele não esconde em toda a oportunidade que tem a sós co Célestine. Visualmente, Jacquot nos faz entender que a ação se passa durante o famoso Caso Dreyfus, mas não oferece qualquer tipo de explicação e muito menos qualquer tipo de consequência. O mesmo vale para o estupro e assassinato de uma menina na floresta que parece informação aleatória e perdida na história, ainda que Jacquot faça um débil esforço de conectar esses eventos com Joseph. E o mais intrigante é o uso da trilha sonora composta por Bruno Coulais como elemento para se criar suspense onde suspense não existe e não precise existir.

Com isso, o passado de Célestine que é cuidadosamente explorado por Jacquot, além da tensão social representada pela relação patrão-empregado de repente desaparecem e abrem espaço para uma narrativa desconexa, sem fechamento e sem aparente objetivo. Além disso, não o relacionamento de Célestine e Joseph, por mais falso que seja ao menos por parte dela, não convence em nenhum momento e não por qualquer falta de zelo dos atores envolvidos, mas sim pela situação não ser explorada de verdade pelo roteiro, parecendo muito mais algo que nos é jogado no colo e que temos que aceitar do que algo pensado desde o começo.

Mesmo assim, a cuidadosa, mas simples reconstrução de época, a bela fotografia e, principalmente, a dedicada atuação de Léa Seydoux fazem dessa versão de O Diário de uma Camareira uma produção recomendável, nem que seja para o espectador notar como Jacquot perdeu a oportunidade de fazer um grande filme de época, equiparando-se a Renoir e Buñuel antes dele.

O Diário de uma Camareira (Journal d’une Femme de Chambre, França/Bélgica – 2015)
Direção: Benoît Jacquot
Roteiro: Benoît Jacquot, Hélène Zimmer (baseado em romance de Octave Mirbeau)
Elenco: Léa Seydoux, Vincent Lindon, Clotilde Mollet, Hervé Pierre, Mélodie Valemberg, Patrick d’Assunção, Vincent Lacoste, Joséphine Derenne, Dominique Reymond, Rosette
Duração: 96 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.