Crítica | O Diário de uma Camareira

estrelas 3,5

O Diário de uma Camareira marca a volta definitiva de Luis Buñuel às produções francesas, depois de quase 20 anos no México, em que pode aproveitar a “Era de Ouro” das produções naquele país e, ele mesmo criar obras-primas. Seu retorno à França, para trabalhar com o roteirista Jean-Claude Carrière e com o produtor Serge Silberman, fecha o círculo da carreira de Buñuel de maneira muito poética, pois ele não só volta às suas origens (Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro foram produções francesas), como passa a criar – como já vinha criando, com O Anjo Exterminador e Viridiana – um conjunto de obras-primas pelas quais ingressaria no panteão dos melhores diretores que já viveram.

Baseado em romance de Octave Mirbeau, de 1900, O Diário de uma Camareira já havia sido adaptado, em Hollywood, por Jean Renoir, em 1946, sob o nome The Diary of a Chambermaid que, no Brasil, foi rebatizado de Segredos de Alcova. O trabalho de Buñuel e de Carrière, no roteiro, foi extenso, fazendo com que o filme ficasse mais próximo ao romance do que a versão de Renoir. No entanto, apesar de ser uma ótima fita e cheia de pequenos detalhes que você esperar de um filme de Buñuel (o fetiche com as botas está no livro, mas sob a batuta de Buñuel ganha contornos ainda mais doentios), mas que não é um retorno à sua forma surrealista.

O Diário de uma Camareira é um filme bastante direto do diretor espanhol, filmado na França em 1964. A obra conta a história de Céléstine (Jeanne Moreau), uma camareira parisiense que vai trabalhar para uma família rica e decadente, no interior da França. Seus hábitos sofisticados contrastam com os hábitos rasteiros da família rica metida a besta. Mais para a frente no filme, com o devido tempo para nos adaptarmos aos personagens, um horrível assassinato acontece e a camareira parece ser a única que se importa e, do seu jeito, vai ao encalço do assassino.

Mas o que interessa não é exatamente o assassinato. A família decadente – ou a riqueza decadente – é, mais uma vez, o centro das atenções de Buñuel. O patriarca (Jean Ozenne) é tarado por mulheres calçadas em botas sujas de couro e salto alto. A filha do patriarca (Françoise Lugagne), uma velha chata encalhada e frígida, compensa sua vida insuportável regendo a casa com mão de ferro e se preocupando com detalhes absurdos. O marido da filha (Michel Piccoli) só quer saber de ciscar as empregadas e de caçar, além de brigar com o vizinho que tem mania de jogar o lixo por cima do muro, bem no terreno deles.

Os empregados da família rica, porém, também não escapam aos olhos de Buñuel. Ele mostra a fofocagem que eles fazem dos patrões, a maldade de uns em determinados momentos e a fascinação que têm pela sofisticada camareira, vinda da mítica “cidade grande”.

Por fim, os métodos “investigativos” de Céléstine também são detalhados e vê-se ao ponto que ela pode chegar para colocar o culpado atrás das grades.

Buñuel filma tudo isso em um notável preto-e-branco cheio de nuances, com uma decoração de interiores impressionante, bem diferente de outros filmes dele que, por questões de orçamento, sofreram nessa área. Também faz uso de uma câmera frenética, que acompanha os personagens em cada movimento.

O filme, no entanto, demora a decolar e o assassinato acaba ocorrendo em momento adiantado demais na trama, deixando pouco tempo para Céléstine pegar o bandido. Além disso, várias situações simultâneas, como a briga dos vizinhos perante um Juiz, a paixão do coronel vizinho pela camareira e outras, acabam sobrecarregando o desfecho do filme que é para lá de pessimista e frio (o que, definitivamente, não é um ponto negativo, diga-se de passagem).

O Diário de uma Camareira funciona como mais uma crítica social de Buñuel, trabalhada dentro de um contexto com muito exotismo e, apesar de ser muito bom, é uma espécie de “ponto baixo” na fileira de clássicos inesquecíveis que o mestre começara em 1961 com Viridiana e só terminaria no final de sua carreira, em 1977, com Esse Obscuro Objeto do Desejo.

O Diário de uma Camareira (Le Journal d’une Femme de Chambre, França/Itália – 1964)
Direção: Luis Buñuel
Roteiro: Luis Buñuel, Jean-Claude Carrière, Octave Mirbeau (romance)
Elenco: Jeanne Moreau, Georges Géret, Michel Piccoli, Françoise Lugagne, Jean Ozenne, Daniel Invernel, Gilberte Géniat, Bernard Musson, Dominique Sauvage
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.